Por Rinaldo Remígio*
Em determinada ocasião, visitando Afogados da Ingazeira, fui rever meu querido irmão Reginaldo Remígio. Entre conversas e lembranças, o celular tocou. Do outro lado da linha, era Magno Martins.
— Remígio, você está em Afogados? — após me cumprimentar, perguntou, sem muita cerimônia.
Respondi que sim, e ele, com a espontaneidade de quem cultiva amizades com simplicidade, logo me convidou:
— Venha até a AABB. Estou aqui com um dos meus filhos. Vamos bater um papo.
Fui. Conversamos bastante. E ali, naquele encontro tão sertanejo quanto fraterno, tive a oportunidade de lhe dizer o que já carregava comigo há tempos: que sou um dos seus admiradores.
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Magno escreve como poucos. Suas crônicas nos conduzem a viagens interiores, nos transportam para cidades que nem sempre visitamos com os pés, mas que percorremos com a alma. Muitas de suas palavras são pontes para a memória, para a história, para aquilo que somos.
E eis que, hoje, ao ler mais uma de suas crônicas domingueiras, tive a certeza: vale a pena ler, refletir e, sobretudo, recordar. Porque há textos que não são apenas crônicas. São chaves. A gente lê e, de repente, uma porta antiga se abre dentro da memória.
A crônica domingueira de Magno Martins, que sempre acompanho com o respeito de quem sabe reconhecer boa escrita e sentimento verdadeiro, trouxe hoje mais do que uma cidade baiana: trouxe um mundo inteiro de lembranças.
Tucano — a cidade, não a ave — reapareceu como um nome mágico, desses que atravessam décadas sem perder o brilho. E foi impossível não me ver também dentro desse mesmo roteiro de saudade.
Porque, veja, Magno falou de sua tia Jocelina, a Joça, e eu imediatamente me lembrei dos meus. Lembrei dos meus familiares oriundos dos municípios de Sertânia, em Pernambuco, e Monteiro, na Paraíba — gente simples, sertaneja, feita de resistência e fé — que nos anos 50 e 60 partiram rumo à Bahia, como quem parte rumo ao desconhecido.
Foram tios, tias e seus filhos, que deixaram o chão duro do Sertão para tentar a vida em Tucano, Paulo Afonso, Jeremoabo, Senhor do Bomfim e outras cidades baianas.
E de lá, como num êxodo sem fim, seguiram adiante: Minas Gerais, Goiás, e até Brasília, ainda no início da sua construção, quando a capital federal era mais poeira do que concreto, mais sonho do que cidade.
Magno escreveu sobre Joça dizendo: “Estou de partida para Tucano. Aqui, não dá mais para viver.”
Quantas vezes essa frase não ecoou, com outras vozes, dentro da história de tantas famílias nordestinas? Aqui também “não dava mais”. O poder de aquisição era para poucos. A sobrevivência era para os fortes. E nossos ancestrais lutaram muito.
Tucano, para Joça, era um eldorado. Para minhas tias, também.
Recordo especialmente da tia Laura — que casou naquela cidade e depois partiu rumo a Unaí, em Minas Gerais, e mais tarde para Brasília, para trabalhar na construção da capital, ajudando a levantar, com mãos invisíveis, o que hoje chamamos de Brasil moderno.
São histórias que a nação raramente conta, mas que sustentam o país como um alicerce sustenta uma casa: silenciosamente.
Magno fala da Joça guerreira, analfabeta, sem profissão definida, mas cheia de coragem. Uma mulher marcada por dores imensas — perdas de filhos, doenças, pobreza, a crueldade da seca e da falta de assistência.
E ao ler aquilo, a gente entende: o Sertão não mata apenas pela ausência da chuva. Ele mata pela ausência do Estado. Pela ausência do cuidado. Pela ausência de futuro.
No Sertão, a seca seca a terra… mas também seca o sangue da gente. E mesmo assim, eles iam. Iam e voltavam. Voltavam e iam. Como se Tucano fosse mais do que um lugar: fosse uma esperança possível, um nome cantado no ouvido da necessidade.
Existem cidades que não estão no mapa geográfico. Estão no mapa do coração. Cidades que nunca pisamos, mas cujas ruas conhecemos de cor, porque alguém amado as percorreu antes de nós. Assim é Tucano.
Magno fotografou uma placa e ninguém entendeu. Mas eu entendi. Porque às vezes a placa não é apenas uma placa. É um monumento íntimo. É um memorial de tudo o que nossos familiares enfrentaram para que hoje nós sejamos outros.
Hoje, somos outras pessoas. Vivemos outro tempo. Mas somos feitos do mesmo barro, da mesma coragem, do mesmo sangue sertanejo que um dia pegou a estrada sem garantias, sem promessas, sem retorno certo.
Tucano permanece como poesia. Não apenas para Magno e sua Joça. Mas também para mim, pelas minhas tias, pelos meus tios, pelos caminhos que começaram em Sertânia e Monteiro e foram se abrindo pelo Brasil afora.
No fundo, Tucano é isso: uma cidade viva no imaginário de quem aprendeu que a vida, no Sertão, sempre foi uma travessia. E algumas travessias viram eternidade.
*Professor universitário aposentado e memorialista
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