Para o Brasil, maior economia do Mercosul, o tratado amplia o acesso a um mercado de cerca de 451 milhões de consumidores e tem impactos que vão além do agronegócio, alcançando também diferentes segmentos da indústria brasileira.
Procurado pelo g1, o Itamaraty não comentou a declaração do presidente francês.
Resistência francesa
No mês passado, Macron já havia condicionado qualquer apoio à inclusão de novas salvaguardas voltadas à proteção do setor agrícola do país.
“Quero dizer aos nossos agricultores, que expressam a posição francesa desde o início, que consideramos que as contas não fecham e que este acordo não pode ser assinado”, declarou.
Ele acrescentou que Paris também se oporá a qualquer tentativa de acelerar ou impor a aprovação do pacto.
Entre produtores rurais da França, o acordo com o Mercosul é visto como uma ameaça, diante do receio de concorrência com produtos latino-americanos mais baratos e submetidos a padrões ambientais diferentes dos exigidos pela União Europeia.
De forma geral, o acordo comercial prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação, além de regras comuns para temas como comércio de bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios. O texto é negociado há mais de 25 anos.
Com a assinatura do acordo se aproximando, o governo francês decretou ontem a suspensão temporária das importações de alguns produtos agrícolas, em especial os provenientes da América do Sul tratados com agrotóxicos proibidos no bloco europeu.
A medida, que entrou em vigor no dia seguinte e terá duração de um ano, ainda depende de aval da Comissão Europeia.
A lista inclui itens como abacates, mangas, goiabas, frutas cítricas e batatas, que ficarão barrados caso apresentem resíduos de cinco fungicidas e herbicidas vetados na Europa: mancozeb, tiofanato-metílico, carbendazim, glufosinato e benomil.
Mesmo assim, manifestações organizadas por agricultores tomaram ruas e áreas turísticas de Paris nesta quinta-feira, em protesto contra o acordo comercial em negociação entre a União Europeia e o Mercosul.
Os atos foram convocados por diferentes sindicatos do setor rural e ocorreram enquanto avançam as tratativas do tratado de livre comércio entre o bloco europeu e Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Assinatura pode ocorrer na segunda (12)
Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial discutido desde 1999 pode avançar para sua etapa final dentro da União Europeia. O Conselho do bloco se reúne nesta sexta-feira, em Bruxelas, para decidir se autoriza a aprovação do texto.
Mesmo diante da oposição declarada de países como França, a expectativa é de que a Comissão Europeia consiga reunir o apoio da maioria entre os 27 Estados-membros.
Caso isso se confirme, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, ficará habilitada a assinar formalmente o acordo na próxima segunda-feira (12), no Paraguai. O tratado criaria a maior área de livre comércio do mundo.
Apoio de Alemanha e Espanha
Na outra ponta do debate, Alemanha e Espanha mantêm apoio firme ao avanço do tratado. O chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, defendem que a União Europeia leve adiante o acordo firmado politicamente com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Para esses governos, o pacto pode ajudar a mitigar os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos europeus e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência do bloco em relação à China, ao ampliar o acesso a minerais estratégicos e a novos mercados.
“Se a União Europeia quiser manter credibilidade na política comercial global, decisões precisam ser tomadas agora”, declarou Merz.
Itália pode apoiar acordo
A expectativa de um voto favorável da Itália passou a integrar o cálculo da Comissão Europeia na tentativa de viabilizar a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Segundo uma fonte do bloco ouvida pela agência Reuters, o país deve se posicionar a favor do tratado na reunião marcada para sexta-feira.
A sinalização ocorre após o governo italiano indicar abertura ao texto negociado, desde que fossem atendidas demandas do setor agrícola.
Em dezembro, durante debates no Conselho Europeu, a primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou que o apoio da Itália estaria condicionado à consideração dessas preocupações.
Nos últimos dias, esse posicionamento foi reforçado por uma comunicação enviada pela Comissão Europeia, que propõe acelerar a liberação de 45 bilhões de euros destinados aos agricultores. Meloni avaliou a iniciativa como um “passo positivo e significativo”.
Na mesma linha, o ministro da Agricultura da Itália, Francesco Lollobrigida, afirmou que a União Europeia passou a discutir o aumento — e não a redução — dos recursos voltados à agricultura italiana no período de 2028 a 2034.
Com o apoio declarado de países como Alemanha e Espanha, a Comissão busca reunir o mínimo de 15 Estados-membros que representem ao menos 65% da população do bloco, exigência necessária para autorizar a assinatura do acordo.
Embora as principais resistências estejam concentradas no agronegócio, o tratado não se limita à área agrícola e abrange também regras para indústria, serviços, investimentos e propriedade intelectual, o que explica o respaldo de outros segmentos econômicos.
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