João consolida liderança e amplia pressão sobre Raquel
A pesquisa do Instituto Opinião reforça um cenário que já vinha se desenhando em levantamentos anteriores: a consolidação de uma disputa altamente polarizada em Pernambuco, com dois polos claramente definidos. Nesse contexto, o desempenho de João Campos (PSB) ao atingir 56% dos votos válidos indica não apenas liderança, mas um patamar eleitoral que, se mantido, configuraria vitória em primeiro turno — algo que depende diretamente da manutenção dessa concentração de votos em um ambiente com poucas candidaturas competitivas.
A tendência de um confronto essencialmente binário entre João Campos e Raquel Lyra (PSD) é um fator central para compreender o resultado. Em disputas desse tipo, a fragmentação do eleitorado é menor, e vantagens numéricas tendem a se traduzir com mais facilidade em desfechos eleitorais antecipados. Nesse cenário, ultrapassar a barreira dos 50% dos votos válidos se torna mais factível, especialmente quando há consistência regional e desempenho equilibrado em diferentes segmentos sociais, como aponta o levantamento.
Leia maisOutro elemento relevante é o momento político dos dois nomes. João Campos aparece em fase de expansão de sua presença no Estado, intensificando agendas no interior e assumindo postura mais clara de pré-candidato. Esse movimento tende a impactar diretamente sua capilaridade eleitoral, sobretudo fora da Região Metropolitana, onde, segundo a própria pesquisa, ainda há espaço para ampliação de vantagem.
Ao mesmo tempo, o forte desempenho na Região Metropolitana do Recife — principal colégio eleitoral — funciona como base sólida de sustentação de sua liderança. Já no caso de Raquel, o cenário descrito pela pesquisa indica dificuldades em reduzir a distância. Em disputas diretas, comparações entre gestões costumam ganhar centralidade no debate público.
Isso faz com que o eleitor avalie entregas concretas, percepção de resultados e capacidade de resposta em áreas sensíveis. Nesse tipo de ambiente, temas como educação, saúde e segurança pública tendem a influenciar diretamente o comportamento do eleitor, sobretudo quando há divergência entre indicadores apresentados e percepção social.
A análise do quadro, portanto, sugere que a eleição caminha para um confronto direto em que três fatores devem ser determinantes: a manutenção ou não da vantagem numérica já consolidada, a capacidade de expansão territorial — especialmente no interior — e o peso das comparações entre experiências administrativas recentes.
Esses elementos, combinados, tendem a dar o tom até as convenções partidárias, marcadas entre meados de julho e agosto. Após essa fase, se inicia de fato a campanha propriamente dita, nas ruas, na TV, no rádio e nas redes sociais, com destaque para os debates entre os dois candidatos.
MARÍLIA CONSOLIDADA – Na disputa para o Senado, os números do Opinião apontam Marília Arraes (PDT) numa posição que parece cristalizada como a mais votada, enquanto seu companheiro de chapa, o senador Humberto Costa (PT), embora em segundo lugar, sofre ameaça dos concorrentes. No cenário em que Miguel Coelho é testado como candidato da federação Progressista, a distância para Humberto é de quatro pontos: 26,3% a 22,9%. Quando Miguel é trocado por Eduardo da Fonte, o petista aparece com 28,3% e Dudu 17,7%, seguido por Anderson Ferreira (PL), com 15,1%. Túlio Gadelha (PSD) é o lanterninha, com 11,5%. O que impressiona são os indecisos na corrida para o Senado: 51,7%.

Os números de Miguel e Dudu – Dois nomes ventilados para a segunda vaga de senador na chapa de Raquel Lyra (PSD) como alternativas da Federação Progressista, Eduardo da Fonte e Miguel Coelho brigam de forma desequilibrada apenas no São Francisco, reduto de Miguel, que aparece com 48% e Dudu com 15,3%. Na Metropolitana, Miguel pontua 8% e Dudu 9%; na Zona da Mata, Miguel tem 5% e Dudu 6,1%. No Agreste, Miguel aparece com 8,3% e Dudu 6,4% e no Sertão, Miguel tem 14,2% e Dudu 10,8%. Com exceção do São Francisco, por razões óbvias, estão em igualdade de condições.
Só no Agreste – Já na disputa para o Governo do Estado, a única região que a governadora Raquel Lyra aparece na frente de João Campos é o Agreste, onde se situa Caruaru, município que governou e tem um aliado no poder. João, por sua vez, bate Raquel nas demais regiões, sendo sua maior vantagem a Metropolitana — 35 pontos de diferença. A Região Metropolitana representa 47% do eleitorado pernambucano. Por ter sido prefeito do Recife com altíssima aprovação, João nada de braçada nesse grande continente eleitoral, o que pode ser decisivo no resultado do pleito.
Lula se fragiliza no NE – Fortaleza eleitoral do PT há 20 anos, o Nordeste se transformou em motivo de alerta para a reeleição do presidente Lula, segundo as últimas pesquisas, que indicam um movimento de piora na aprovação do governo e redução na diferença sobre Flávio Bolsonaro (PL) na região. A perda de força ocorre em um cenário de divisão na base aliada e de desvantagem de nomes de partidos nas disputas estaduais.

Rejeição crescente – Ao longo dos anos, a rejeição de Lula também cresceu na região. O patamar de nordestinos que dizem não votar no petista de jeito nenhum é de 32%, um nível bem mais baixo do que o visto na média nacional, que é de 48%. Porém, em agosto de 2022, esse número era de 27%. Lula tem feito esforço para manter sua popularidade em alta no Nordeste. Só neste ano, ele teve agendas em cidades da região em oito ocasiões, como no início do mês, quando foi inaugurar um trecho de um quilômetro de metrô de Salvador. Apesar disso, houve uma piora na avaliação do petista neste terceiro mandato.
CURTAS
EMENDAS – O congresso municipal da Amupe, entre os dias 27 e 29 próximos, contará com a presença do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, na tarde da segunda-feira, primeiro dia do evento. Dino vai falar sobre as recentes medidas que tomou para moralizar a destinação das emendas parlamentares.
TERCEIRA VIA – A terceira via parece existir. Zema e Caiado vieram de governos bem avaliados. O mineiro com 47% e o goiano com 85%. Eles precisam pescar seus votos entre os indecisos e os 42% que estão com Flávio Bolsonaro. Como sua experiência administrativa, Zema limitou-se à gestão de um sobrenome e de uma loja de chocolates. A campanha pode favorecê-lo, assim como o governador Caiado, segundo as últimas pesquisas.
PODCAST – No podcast Direto de Brasília desta terça-feira de feriado nacional, entrevisto o escritor e médico Augusto Cury, pré-candidato à Presidência da República pelo Avante. Meu podcast é uma parceria com a Folha de Pernambuco, com transmissão para 165 emissoras no Nordeste.
Perguntar não ofende: Por que Lula está perdendo seu eleitorado cativo no Nordeste?
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