Amargando o segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, o governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), afirma que a virada já começou e aguarda o debate com o adversário, o ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes (PSDB). Em entrevista ao podcast Direto de Brasília, o petista acusou o tucano de trair a centro-esquerda. “Quero muito encontrá-lo no debate”, disparou Elmano, que também falou dos desafios da segurança pública e do pós-Lula (PT).
Governador, as pesquisas têm colocado o seu adversário Ciro Gomes na liderança para o Governo do Ceará, algumas com mais de dez pontos percentuais à sua frente. Como reverter esse cenário para a sua reeleição?
Tem pesquisa em que eu estou na frente, tem pesquisa em que ele está na frente e tem pesquisa que é praticamente empate. Mas o que eu tenho percebido claramente é de que a mudança é muito grande no Estado do Ceará. Nós vamos chegar à época da convenção já à frente do nosso adversário.
Mas, desde março, Ciro vem pontuando sempre acima dos 40%. Não acha que é um voto consolidado?
Olha, eu vivi isso em 2022. Eu estava com 4% e meus adversários tinham 40% e 30% cada. E, quando terminou a eleição, eu tive 54% dos votos, o outro (Capitão Wagner, pelo União Brasil) tirou 31% e outro (Roberto Cláudio, pelo PDT) teve 14%. Então eu tenho muita convicção de que, nesse momento, o cidadão não está pensando em eleição. Quem está pensando em eleição são os políticos e aqueles que acompanham a política. Nós temos pesquisa dizendo que mais de 70% do povo não está nem pensando em eleição. Então ainda vai chegar o momento em que a população vai acompanhar, debater, discutir e comparar, e nós já temos pesquisas apontando uma situação muito diferente do que estávamos há 60 ou 80 dias. Elas apontam claramente uma vantagem nossa em relação à candidatura da oposição. Não tenho nenhuma dúvida, o nosso time nem entrou em campo ainda para conversar com o povo sobre aquilo que temos realizado. Muita gente sequer sabe. Quando isso vier à tona, nós vamos presenciar uma grande mudança nos dados das pesquisas que temos conhecido até aqui.
Ao que o senhor atribui essa liderança dele? Seria fadiga de material, já que seu grupo está no comando do Ceará há 20 anos?
Efetivamente, o pré-candidato da oposição tem muito recall. Ele tem um nome muito conhecido, já foi candidato a presidente do país por quatro vezes e foi bem votado no Estado do Ceará como candidato a presidente. Mas, na última, ele traiu um acordo realizado com o senador Cid Gomes (PSB) e com Camilo, e resolveu lançar outro candidato. Ele teve uma derrota fragorosa no Ceará. Movido pelo ódio, resolveu se abraçar com os bolsonaristas. Imagina o que pode dar num governo quando se junta ódio com ódio. Isso não vai dar certo, mas felizmente nós vamos derrotar esse projeto no Ceará mais uma vez, com o campo progressista de esquerda.
Ele então não teria mais para onde crescer?
Acho que a questão que mais limita a candidatura bolsonarista no Ceará é a avaliação que o povo cearense tem do que representou o governo Jair Bolsonaro (PL) para o estado. Tivemos obras paradas de escola que o governo federal não pagava, mesmo obrigado por convênio. Aqui não tem uma obra significativa do governo do ex-presidente Bolsonaro, não tem número de casas, não tem estrada em quatro anos, além da sua atuação na pandemia. E a aliança do Ciro Gomes com o bolsonarismo no Ceará, penso que acaba de vez a história de que Ciro era um homem do campo progressista. Penso que é muito vergonhoso vê-lo abraçado com pessoas que lutaram contra a vacina, contra o isolamento, que riram da cara do povo. E de quem ele fez as avaliações mais duras, seja do presidente Bolsonaro, do Flávio, dos filhos ou das suas esposas, e agora está abraçado e sendo candidato em uma aliança na qual o grupo bolsonarista é a maior força da aliança do Ciro Gomes.
Qual a estratégia que adotarão contra ele?
Vamos comparar, inclusive, os governos do PSDB com o que foram esses 20 anos do governo do campo progressista, com Cid Gomes, com Camilo Santana e comigo. Tenho a convicção de que o povo cearense pretende que a gente possa aperfeiçoar e melhorar as políticas, e que vai garantir essa continuidade que temos tido de transformar a educação do Ceará, a saúde pública. Os nossos governos foram os que mais criaram emprego. Meu opositor, quando governou, criou 40 mil empregos, o nosso governo já criou 172 mil empregos de carteira assinada, a diferença é muito grande. O povo vai saber fazer a comparação e avaliar o histórico de cada projeto e o que tem realizado para o povo cearense.
Mas a eleição de Fortaleza, há dois anos, foi decidida no segundo turno por 1% a favor do prefeito Evandro Leitão (PT) contra o deputado André Fernandes (PL). Aquilo não ligou um alerta?
Na eleição de Fortaleza, nós fomos para o segundo turno com o candidato bolsonarista disputando com o nosso candidato do PT. Nós não esperávamos que uma pessoa ou um grupo político em torno do Ciro Gomes tivesse a capacidade de trair e votar num candidato bolsonarista. Mas o Ciro teve essa coragem e essa incoerência inadmissível. O Ciro e sua turma foram votar no candidato bolsonarista, junto com o candidato semibolsonarista, que era o Capitão Wagner, e o Roberto Cláudio. Quando juntava os três grupos, dava 400 mil votos à nossa frente. Em 15 dias, o nosso time guerreiro foi para a rua reverter esses 400 mil votos para a candidatura da esquerda. E Evandro tem feito uma mudança muito importante para Fortaleza. Eu quero muito encontrá-los no debate, porque uma coisa é a conversa e outra coisa é o que de fato acontece.
A tese do senhor ser substituído pelo ex-governador e ex-ministro Camilo Santana (PT) é totalmente descartada?
Nós não estamos necessitando de mudança de nome nenhum, porque o nosso projeto é de muita entrega. Mesmo nas pesquisas que apresentaram o candidato da oposição à frente, a avaliação do nosso governo é amplamente positiva, de 58% a 62% de aprovação, com 45% de bom e ótimo, enquanto ruim ou péssimo ficou em torno de 15%. E, nesse momento, o que interessa mais são as intenções espontâneas. E em todas as pesquisas dá empate. À medida que forem acontecendo os debates, nós vamos ter a alteração e a manifestação real da população, e estamos muito confiantes na vitória.
Camilo então fica para o chamado pós-Lula?
Eu aprendi que é sempre bom ter humildade no coração. Nós temos uma eleição para acontecer em outubro, então vamos cuidar dessa eleição. É muito importante reeleger o presidente Lula, para o meu estado do Ceará, para o nosso povo, o Nordeste e para o Brasil. O pós-Lula nós vamos construir com muita tranquilidade. Eu aprendi que liderança não se constrói em gabinete nem na decisão de alguém. Liderança é esforço pessoal, é relacionamento com o povo, com as lideranças políticas. E, mais importante, candidatura a presidente, a governador ou a prefeito, são as circunstâncias do momento da decisão que definem. Nosso querido Camilo Santana é um homem muito maduro. Ele sabe que quem fica pensando muito nisso só tem uma certeza: de que não será (candidato). Então ele se concentra em trabalhar, em fazer o melhor pelo Brasil e pelo Ceará.
Mas ele pode ser presidenciável a partir de 2030?
Se ele vai ser ou não vai ser, a gente não sabe. Pode acontecer de ser. A gente tem que dar o melhor de si naquilo que está fazendo, e as circunstâncias do momento é que vão definir se a pessoa é ou não é candidato. E, não sendo, não tem problema. Pode ser outro companheiro ou outra companheira. O importante é que a gente tenha compromisso com um projeto e com as políticas que vão melhorando a vida do povo brasileiro e a vida do povo cearense. Eu estou governador, mas podia ser outro companheiro. O importante é que a gente garanta a melhoria da educação, da saúde, da segurança, do emprego. Estamos na política para isso, não para disputar cargos. Nós disputamos cargos para realizar essas políticas, e o Camilo é um mestre, é uma referência de como se comportar na vida pública e como trabalhar para fazer essas políticas acontecerem no dia a dia.
Qual será o maior desafio do Brasil para os próximos quatro anos?
A segurança pública é o maior desafio do país hoje. A presença das facções ocorre em todo o território nacional, e é por isso que eu entendo que precisamos da aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública e da aprovação da Lei Antifacção. Precisamos avançar na integração das nossas forças para agir de maneira conjunta. A América inteira tem tido esse problema de facções atuando de maneira muito intensa, pelo grande volume financeiro com que atuam. Nós precisamos fazer um trabalho de enfrentamento nas ruas, mas também um trabalho de inteligência, de asfixiar financeiramente essas organizações. Somente no nosso governo, já houve o bloqueio de R$ 3,3 bilhões de facções atuando no Estado do Ceará, autorizado pelo Poder Judiciário. Então precisamos ter ainda mais instrumentos legais para fazer um enfrentamento da cúpula e do aspecto financeiro das organizações. Precisamos de uma colaboração institucional dos Três Poderes para que a gente possa fazer um enfrentamento vitorioso dessas facções no Brasil.
O governo foi muito criticado por extinguir o Ministério da Segurança Pública e depois mandar um plano de segurança ao Congresso Nacional. Acha que foi tardia a proposta?
O tempo que a PEC está lá demonstra a dificuldade que temos no tema. Eu sou favorável que o governo tivesse, inclusive, um Ministério da Segurança Pública. Há muito tempo defendo que precisa haver uma separação do Ministério da Justiça e do Ministério da Segurança Pública, e, evidentemente, todos os entes federados, estados e a União, retardamos para estruturar as nossas polícias, as nossas forças no enfrentamento dessas facções. Fomos reestruturando, e não tínhamos também um aspecto legal. Agora que temos, é fazer o trabalho para enfrentar essas organizações efetivamente. O tempo foi aquém do que era necessário, isso eu tenho que concordar, mas estamos trabalhando intensamente para enfrentar essa dificuldade.
Quais foram os resultados no Ceará?
Temos feito um trabalho muito intenso. Nós apresentamos uma redução de 40% de homicídios e demais crimes violentos intencionais. E também redução da ordem de 50% de crimes violentos patrimoniais, o roubo. Isso fez com que o Ceará pudesse, no ano passado ainda, ter uma redução de quase 8% dos homicídios. Nesse primeiro semestre, já podemos dizer que o Ceará está fora dos dez estados mais violentos, estamos hoje em 11º. E Fortaleza, que era a quarta cidade mais violenta do país, passou para 18ª. Isso é fruto de mais de cinco mil homens e mulheres contratados para a Polícia Civil e a Polícia Militar, um aumento de 800% no trabalho da área de inteligência, de reestruturação de todas as forças.
Em Pernambuco, o ex-prefeito João Campos (PSB) brigou para ser o palanque único de Lula. Isso acontecerá com o senhor no Ceará? O quão Lula ainda é importante, principalmente nos estados do Nordeste?
Acho que são realidades muito distintas, cada estado tem uma realidade muito específica, mas eu considero muito importante a identidade política com o presidente Lula. Mas considero que o fator fundamental para quem é governador é a avaliação que a população tem do governo, das entregas que fizemos. Isso vai nos permitir ter uma vitória eleitoral muito significativa do nosso projeto no estado do Ceará, e tudo isso só é possível graças também à colaboração com o governo do presidente Lula. Tenho certeza de que o povo vai avaliar que é melhor ter um governador de mãos dadas com o presidente Lula, para fazer tanto quanto nós estamos fazendo ou mais, do que ter alguém que vai querer ficar brigando e brigando, e que a entrega reduz muito. Então a nossa convicção é de que o nosso povo vai fazer a escolha para que esse projeto possa acelerar, dar salto de qualidade para poder melhorar ainda mais a vida do povo cearense.















