Por Flávio Chaves*
Há cidades que apenas existem. E há Carpina, que respira, canta, dança e se multiplica em vozes quando janeiro se despede e fevereiro se prepara para florescer em cores. Lá, entre as calçadas de calor e as esquinas de saudade, vive um Carnaval que não se limita ao calendário: ele habita o espírito. E nesse transe de alegria ancestral, a Bazuca Cana Clube, fundada em 1966, se ergue como uma tempestade de riso e rebeldia, soprando sua música como vento que varre a mesmice.
No princípio, era apenas um pequeno anexo: um cômodo modesto, acanhado em tamanho, mas colossal em destino. Entre paredes simples e janelas que deixavam o sol escorrer em fiapos dourados, nascia um reduto que logo deixaria de ser apenas abrigo de estudos para tornar-se território de sonhos. Birau, ao herdar aquele espaço deixado pelo irmão Edinaldo, plantou ali as sementes da transgressão criativa. Cercado por seus companheiros, jovens feitos de carne e sonho, alma e tambor, fez da pequena casa o epicentro de uma revolução bem-humorada, onde cada gole de cachaça era também um brinde à liberdade.
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A Bazuca nasceu sob a égide de um princípio inegociável: a contestação a tudo e a todos, com especial destemor diante do status quo. Era mais que um grito: era gargalhada contra o autoritarismo, deboche diante da caretice e resistência embebida em poesia. Cada um de seus fundadores carregava não apenas um nome, mas uma centelha dessa chama inaugural.
Destacaram-se, ao lado do incansável Birau, Quincas Lapa, dono de uma voz que ecoava como manifesto; Edson Chagas, coração cantante das serenatas apaixonadas; os irmãos Chico Merondia, Neném e Joca, arquitetos da harmonia nas cordas dos violões; Jóia da Celpe, que fazia o cavaquinho conversar com a madrugada; Gilvan Nery, Mauro Luiz Barros, Hildebrando Marques (o lendário Panduca, mestre da sanfona), Lapenda, Quito, Fred Saldanha, Gil Guedes Jairo Cordeiro e Fernando Monteiro, homens que não apenas fundaram um bloco, mas acenderam uma chama que viraria tocha nos carnavais futuros.
Ali, as tardes se alongavam em serenatas, as madrugadas amanheciam em rimas, e o verbo era sempre conjugado no tom da ousadia. Inspirados por figuras míticas da música popular, Noel, Cartola, Pixinguinha, Nelson Gonçalves, Chico, entre outros, os bazuqueiros criaram um altar profano onde se cultuava o que havia de mais sagrado: a irreverência.
Cada sexta-feira da semana pré-carnavalesca era um comício da alegria. Os bazuqueiros, depois de sacramentarem o espírito com goles generosos de cana, saíam pelas ruas da cidade como se fossem cometas de carne e osso, brilhando em cada esquina, desafiando os muros invisíveis da ordem. Sobre bancos de feira, palanques improvisados, proferiam discursos incendiários, enquanto a sanfona, os violões e o cavaquinho costuravam os sentimentos em canções que vibravam como estandartes sonoros.
A autoridade tentou silenciar a festa, a polícia se posicionou, a Igreja bradou. Mas a Bazuca não se deteve. Passou, com seus refrões desafiadores, como um cortejo de luz atravessando as sombras do conservadorismo. Era mais que carnaval. Era liberdade encarnada em marcha.
Na sede, onde os homens se reuniam para discutir o mundo entre uma dose e uma metáfora, falava-se de tudo: política, filosofia, amores, pecados, e até da vida alheia com a delicadeza de quem esculpe uma estátua com palavras. Ali se forjavam ideias como quem compõe um samba: com cadência, ironia e paixão.
E neste Carnaval de 2026, o tempo faz uma reverência em tom maior a três nomes que são colunas memoráveis da história da festa. Gil Guedes, liderança que defendeu com garra o Clube Lenhadores, tratando-o como templo sagrado da cultura; Haroldo Salgado, guardião da história e da institucionalidade carnavalesca, era presença firme nos dias de glória e nos momentos de luta. E Pitaco, folião de raiz, dono de uma borracharia que era mais um ponto de encontro da alegria. Pitaco, que cantava loas à burra que comia milho e, aperreada, comia arroz, como quem transforma até a dureza da vida em rima popular. Um trovador das ruas, um símbolo da espontaneidade que a festa de Momo celebra.
Com o passar dos anos, a Bazuca se expandiu como o próprio Carnaval de Carpina: agregando trios elétricos, bandas, orquestras, agremiações irmãs de outras cidades. Cada nova geração que vestia a camisa da Bazuca recebia, junto ao copo cheio da cerimônia de batismo, a responsabilidade de carregar o estandarte invisível da ousadia.
E se hoje ela segue desfilando, não é por nostalgia, é por pertinência. Porque ainda há muros a serem pulados, ordens a serem subvertidas e canções a serem cantadas como atos de resistência e ternura.
Porque, no fim, ser Bazuqueiro é isso: olhar o mundo com olhos de folia e dizer, entre um gole e um refrão, que a liberdade também sabe frevar e sonhar.
*Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
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