Por Flávio Chaves*
Num tempo em que a pressa esvazia os gestos e a palavra parece perder sua morada, celebrar o Dia do Leitor é, mais do que um ato simbólico, um gesto de resistência espiritual. O leitor, esse ser silencioso que caminha por entre páginas como quem atravessa desertos e tempestades, mantém acesa a chama da escuta interior, aquela que não se apressa e ainda se comove.
Ler não é apenas decifrar signos sobre o papel ou a tela. É mergulhar numa vertigem que nos arranca do cotidiano e nos devolve à essência. O leitor é, antes de tudo, um viajante da alma, um exilado voluntário que se deixa conduzir por estradas invisíveis, onde a linguagem não é apenas meio, mas substância. Há, no ato de ler, uma espécie de fé, um pacto silencioso entre o que foi dito e o que será sentido, entre o que o autor revelou e o que o leitor reinventará com suas memórias, suas inquietações e seus próprios fantasmas.
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Por isso, mais do que homenagear a figura do leitor, é justo reconhecer a coragem que existe nesse gesto. É preciso coragem para abrir um livro como quem abre uma ferida e permitir que o texto nos atravesse, nos desloque, nos transforme. É preciso coragem para encontrar no outro, autor desconhecido ou amigo íntimo, os fragmentos daquilo que ainda não sabíamos que éramos.
O leitor é também um construtor do tempo. Enquanto o mundo insiste em correr rumo ao abismo da distração, ele permanece fiel à lentidão fecunda da leitura, ao silêncio grávido de sentidos, à solidão povoada que só os livros sabem oferecer. Em tempos de superficialidade, o leitor é o guardião da profundidade. Ele sabe que a leitura não é distração, é convocação. Que cada página lida abre uma porta para o outro, para o mistério, para a vastidão do humano.
Neste 7 de janeiro, quando se celebra o Dia do Leitor, vale lembrar que a data foi instituída em 1928, em homenagem à fundação do jornal cearense O Povo, na mesma data, pelo poeta e jornalista Demócrito Rocha. Senado Federal+1 E, para além da efeméride, que possamos reconhecer: sem leitores, a literatura seria apenas eco perdido no vazio, letra sem destino, grito que não encontra ouvido. O autor sonha, sim, mas é o leitor quem acorda o sonho. O autor acende a vela, mas é o leitor quem a carrega noite adentro, em silêncio, protegendo sua chama contra os ventos da indiferença.
Ser leitor é viver muitas vidas. É morrer um pouco a cada capítulo. É amar com intensidade personagens que jamais existirão fora das páginas. É carregar consigo palavras como se fossem pedras ou relíquias. É ter a alma habitada por vozes que falam por dentro, mesmo quando tudo, do lado de fora, emudece.
Por isso, neste dia, que a palavra nos una. Que os leitores sejam celebrados como devem ser, artífices da esperança, cúmplices da beleza, peregrinos de uma luz que só se acende quando olhos e palavras se encontram no escuro.
*Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
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