A crônica domingueira

A primeira professora é como uma estrela guia que ilumina o caminho da educação. A minha, que me ensinou o beabá em Afogados da Ingazeira, Deus já chamou, mas há outras, verdadeiros faróis da sabedoria, vagalumes que nos tiram a vedação e o lacro da ignorância, que também são eternas, inesquecíveis. E que continuam por aqui ainda a me inspirar.

Luiza Tadéia, que ilustra esta crônica recebendo o meu livro “Os Leões do Norte”, num encontro casual na loja de conveniência do posto Cruzeiro, em Arcoverde, foi o meu primeiro facho de luz como professora de Português em Afogados da Ingazeira. Uma gigante em sabedoria. Foi dela que recebi o primeiro norte da linguagem de texto.

Jaboatão dos Guararapes - Coleta de Lixo

Não escolhi o jornalismo. Com o tempo, compreendi que o jornalismo me escolheu no momento em que nasci. Ao entrar na Unicap no início dos anos 80, para cursar Jornalismo, já tinha as mínimas noções da profissão atuando no Sertão. Meu laboratório foi o Diário de Pernambuco, meu primeiro chefe Gildson Oliveira, um potiguar que arrebatou vários prêmios Essos.

O velho DP foi minha verdadeira universidade em Afogados da Ingazeira, onde fui correspondente, com extensão depois para todo o Pajeú. Mas nos bancos escolares, mergulhei no mundo da teoria e fiz amizades duradouras. Entre os que levantaram para orgulho dos pais o diploma de Jornalismo comigo, Italo Rocha, que também dividiu a bancada da redação do DP na cobertura de assuntos urbanos e policiais.

Petrolina - Destino

Chegou o dia delas! O que seríamos de nós sem elas? Louvemos nossas mulheres neste Dia Internacional da Mulher! Diz o princípio bíblico que a mulher foi gerada da costela de Adão. A costela, segundo o livro de Gênesis, simboliza que a mulher está ao lado do homem, não abaixo. Não foi criada para ser pisada, nem acima para dominar, mas perto do coração para ser amada.

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”, ensinou a filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir em sua obra “O Segundo Sexo”, na qual defende que o gênero é uma construção social e cultural, não um destino biológico. Ela argumenta que a sociedade molda comportamentos, impondo papéis femininos ao longo da vida.

Ipojuca - IPTU 2026

A casa onde crescemos não é apenas tijolo e cimento. É nossa história contada em cômodos. Toda casa dos pais guarda em si a lembrança daqueles que nela moraram. Em especial, dos seus primeiros moradores. Quem pode tirar da memória a casa em que nasceu ou viveu grande parte da infância e adolescência?

Estou lendo “O velho Graça”, biografia de Graciliano Ramos. Nela, o grande escritor alagoano, de quem sou fã, já tendo devorado quase todos os seus livros, como “Vidas secas”, “Caetés”, “Memórias do cárcere” e “São Bernardo”, viveu sua infância entre Quebrangulo e Viçosa. E assim descreveu o que ficou na sua memória de uma casa que tinha um ambiente comercial: “O cheiro de fazendas, de querosene e de açúcar”.

Caruaru - IPTU

Na virada de cada ano, cresci ouvindo que janeiro e fevereiro são meses perdidos no calendário, porque a corrida dos 365 dias só começa após o carnaval. Até lá, nada se resolve. Amigos, não se acham. Tiram férias. Políticos, fogem do Brasil. Vão desfrutar o frio, os vinhos e os encantos da Europa.

Tem gente com calendário anual de dez meses. Pulam janeiro e fevereiro, principalmente se o Carnaval acontece entre 15 e 20 de fevereiro. Esses ou são muito bem aquinhoados ou se enganam. Afinal, resultado não nasce de calendário, nasce de quem começa antes sem esperar o fim da folia.

Cabo de Santo Agostinho - Hospital das praias

Vivi muitos carnavais no Sertão, de onde venho. Lá, garoto, brincava os quatro dias de folia nos clubes. O Acai, Aero Clube de Afogados da Ingazeira, era a nossa Marquês de Sapucaí. Eu era feliz e não sabia!

Nos nossos carnavais, as palavras eram substituídas por sorrisos e o alto astral era linguagem universal da alegria. Uma época em que as almas se libertavam e os sonhos se tornavam realidade, através das fantasias coloridas.

Palmares - IPTU 2026

Tucano, a cidade, não a ave, está viva no meu imaginário desde garoto. Em Afogados da Ingazeira, cresci ouvindo Jocelina, a Joça, irmã de criação de minha mãe Margarida, enaltecer o município baiano e, mais do que isso, por várias vezes, juntar seus apetrechos e pegar a estrada em busca do seu paraíso.

Na verdade, não era tão paraíso assim. Joça praticou um êxodo sem fim para Tucano, mas sempre fazendo o caminho de volta. Não tenho a mínima noção das suas idas e voltas. Também não lembro se havia parentes seus por lá. Só lembro ela comentando comigo e minha família: “Estou de partida para Tucano. Aqui, não dá mais para viver”.

Olinda - Refis últimos dias 2025

Nas férias, que se estendem até o próximo dia 1, optei por um roteiro cultural, histórico e romântico: as cidades históricas de Minas Gerais. Na companhia adorável da minha Nayla, de suas primas Tayse e Kelly, esta com seu esposo Cid Severo, comecei por Diamantina, terra de JK, com suas ruas de pedras e paralelepípedos construídas pelo suor dos nossos ancestrais em busca de ouro e diamante.

Calçadas históricas cobertas de sangue dos chicotes em negros escravizados, lavadas por lágrimas de dor. Entre montanhas e pedras, a Diamantina de JK é uma joia inquebrantável, um tesouro no coração de Minas. Tem a musicalidade das serenatas, igrejas bicentenárias, cheias de ouro.

Quem nunca se debruçou numa janela e instantaneamente teve leves pensamentos, uma reflexão meteórica sobre a vida, que atire a primeira pedra! A janela é um filtro para a alma, como definiu Mário Quintana, na sua genialidade prosaica.

Cronista refinado das montanhas mineiras, Paulo Mendes Campos ganhou o coração dos cariocas, no Rio das suas paixões, quando fez uma declaração de amor do alto de uma janela. “A janela é ponto de partida de amores impossíveis”, atestou, contemplando o Largo da Carioca da sua inseparável janela.

No interior, onde fui criado, banco de praça é uma instituição. Qualquer matuto tem essa firme convicção. Em Triunfo, voltei ao tempo em que era feliz e não sabia em Afogados da Ingazeira. Sentei-me num banquinho e fiquei a contemplar, com os olhos abugalhados, um cenário deslumbrante: casarios coloniais e uma bela obra de arte mais que centenária: o cine-teatro Guarany.

Antônio Maria, grande cronista, poeta e compositor, que saiu do Recife para brilhar no Rio de Janeiro, dizia que o banquinho de praça é um grande lugar, onde o homem pode encontrar-se consigo mesmo para um ajuste de contas. Que nunca seria possível num bar, porque seria preciso ajeitar o laço da gravata, enxugar o suor da testa, sorrir e cumprimentar.