A primeira professora é como uma estrela guia que ilumina o caminho da educação. A minha, que me ensinou o beabá em Afogados da Ingazeira, Deus já chamou, mas há outras, verdadeiros faróis da sabedoria, vagalumes que nos tiram a vedação e o lacro da ignorância, que também são eternas, inesquecíveis. E que continuam por aqui ainda a me inspirar.
Luiza Tadéia, que ilustra esta crônica recebendo o meu livro “Os Leões do Norte”, num encontro casual na loja de conveniência do posto Cruzeiro, em Arcoverde, foi o meu primeiro facho de luz como professora de Português em Afogados da Ingazeira. Uma gigante em sabedoria. Foi dela que recebi o primeiro norte da linguagem de texto.
Leia maisNo colégio Normal em minha terra natal, Tadéia me deu puxões de orelha, notas baixas e me pôs de castigo. Mas, quando percebeu que os seus métodos estavam dando certo comigo, ficou feliz. E professor feliz é aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina, como dizia Cora Coralina em sua sabedoria poética das suas colinas de Goiás.
O reencontro com Tadéia se deu numa manhã ensolarada na lojinha do Cruzeiro, parada obrigatória dos matutos que fazem o vai e vem dos seus rincões para a capital. Depois de papear, recordar os bons e saudosos tempos, me despedi dela segurando firme nas suas mãos. Suspirei forte e disse: “Obrigado, Tadéia, por segurar minha mão e me ensinar a dar os primeiros passos no conhecimento das letras”.
E acrescentei: “Você transformou letras em palavras e sonhos em realidade. Com carinho e paciência, você plantou em mim a semente do saber”. Seus olhos lacrimejaram, os meus também. Nos abraçamos demoradamente. Nunca mais vou esquecer aquele reencontro de um começo de história de 50 anos passados.
A primeira professora deve ser tratada como deusa. Mais do que ensinar, ela cuida, dá conselhos, alivia dores, cicatriza feridas, renova esperanças. Professor é ato de amor e compromisso social. Exige paciência, resiliência para superar obstáculos estruturais e dedicação diária para enxergar e desenvolver o potencial de cada aluno.
Tadéia, tenho plena convicção, nasceu vocacionada para a docência, que não é apenas um dom inato, mas um ofício construído na prática, reflexão e formação contínua. Bons professores como ela são como uma vela: consome-se para iluminar o caminho para os outros.
Ser professor é carregar no peito o orgulho de quem transforma vidas por meio do conhecimento, da empatia e do exemplo. É assumir a missão de educar com paixão e coragem, mesmo diante dos desafios. Sorte tem quem, cedo na vida, encontra mestres que são dádivas abençoadas por Deus.
Sortudo fui em ter uma Tadéia logo na largada em busca do aprendizado. Professoras como ela são condutores de almas e de sonhos, lapidam diamantes. Não sou o primeiro nem serei o último a exaltar quem me ajudou a ser gente na vida pelos bancos escolares.
A grande Rachel de Queiroz, de “O Quinze” e “Memorial de Maria Moura”, escreveu crônicas de agradecimento aos seus professores, reconhecendo que a influência dos mestres vai além do conteúdo técnico. Moldam a confiança e o caráter do aluno. Dizia a sábia Rachel: “O tempo das lições dos que nos aprumaram no ensino não se apaga. Adormece”.
Em homenagem a Tadéia, extensivo aos professores em geral, recorro novamente a Cora Coralina, que nos deixou uma lição para o resto da vida: a educação floresce na humildade, no exemplo e na troca de saberes. Ensinar é também um ato de aprender. “O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes”.
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