
Por Gastão Cerquinha Neto*
Clima global
O que acontece no clima global influencia diretamente o nosso dia a dia, mesmo quando ocorre a milhares de quilômetros de distância. Alterações na temperatura dos oceanos, na circulação dos ventos, nas correntes marítimas e na atuação de sistemas meteorológicos modificam a forma de distribuição da chuva e a temperatura em diferentes partes do planeta.
Quanto mais compreendemos esses processos, maior é nossa capacidade de antecipar tendências climáticas e nos preparar para seus impactos. Afinal, podemos passar por secas severas, comprometendo o abastecimento de água nas cidades; perdas na agricultura devido à redução das chuvas; ondas de calor mais frequentes e intensas, especialmente em regiões mais populosas; aumento do risco de incêndios florestais; ocorrência de chuvas extremas em algumas regiões; além de impactos sobre a geração de energia hidrelétrica, e outras atividades que dependem dos recursos hídricos.
Leia maisAquecimento do oceano
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento acima da média nas águas do Oceano Pacífico Equatorial. Seus efeitos se propagam pela atmosfera e alteram a circulação dos ventos, influenciando o clima em diferentes partes do mundo, inclusive no Nordeste brasileiro. No Brasil, geralmente provoca o aumento das chuvas na Região Sul e a redução nas regiões Norte e Nordeste.
Para o Nordeste, isso significa uma maior probabilidade de estações chuvosas mais fracas, estiagens prolongadas e temperaturas mais elevadas, especialmente entre o verão e o outono, período que concentra grande parte das chuvas na região.
No entanto, é importante destacar que o El Niño não determina exatamente como será o clima em um determinado local. O fenômeno aumenta a chance de seca no Nordeste, mas não impede que ocorram episódios de chuva intensa. Esses eventos continuam sendo possíveis, embora tendam a ser menos frequentes do que em anos sem a influência do El Niño.
Impacto não é uniforme
Embora exista uma tendência geral de redução das chuvas, os impactos não são uniformes. No sertão, o El Niño costuma provocar secas mais intensas. Já no litoral, o comportamento é mais complexo, uma vez que as chuvas dependem também de sistemas meteorológicos locais, como as ondas de leste.
Assim, mesmo em anos de El Niño, episódios de chuva intensa podem ocorrer na faixa costeira. Ou seja, o fenômeno reduz a chuva em média, mas não elimina o risco de eventos extremos, permanecendo a atenção para a possibilidade de ocorrência de alagamentos, inundações e deslizamentos.
Super El Niño
Cientistas usam o termo Super El Niño quando as temperaturas da superfície do mar ultrapassa 2 ºC acima da média histórica. Para este ano, os modelos climáticos indicam a possibilidade de que as anomalias cheguem próximas de 3 °C, o que colocaria este evento entre os mais intensos já registrados.
Os últimos grandes episódios classificados como Super El Niño deixaram impactos marcantes no Brasil. Em 1982–1983, a seca severa a excepcional chegou a atingir 17,8% do território nacional, concentrando-se sobretudo no Nordeste e em partes da Região Norte. Já em 2015–2016, no semiárido nordestino: no trimestre de setembro a novembro de 2015, 19,2% do país encontrava-se sob seca severa a excepcional, com redução das chuvas, pressão sobre os reservatórios e prejuízos para a agricultura.
Em 2016, o Maranhão chegou a registrar 26 ondas de calor ao longo do ano, ilustrando como esses eventos podem combinar déficit hídrico e temperaturas extremas. Na região Norte, o evento de 1997–1998 também esteve associado a uma das grandes secas registradas na Amazônia, além do aumento das ondas de calor em diferentes estados.
Atuação dos governos
Diante dessa previsão, os governos podem se preparar de forma antecipada para reduzir os impactos do El Niño. Entre as principais medidas estão o reforço do monitoramento, garantindo o pleno funcionamento de radares, pluviômetros e estações hidrológicas operadas por instituições especializadas; a utilização de previsões para subsidiar o planejamento e a tomada de decisões; a ampliação dos estudos e do mapeamento de áreas de risco sujeitas a enchentes, secas e deslizamentos; e o fortalecimento da integração entre os órgãos de meteorologia, recursos hídricos e Defesa Civil.
Também é importante preparar planos de contingência para o abastecimento de água, a agricultura, a saúde e a resposta a desastres, além de investir na melhoria da infraestrutura de abastecimento, permitindo o acesso a diferentes fontes de água.
Paralelamente, campanhas de orientação à população podem contribuir para evitar queimadas, reforçar os cuidados durante períodos de calor intenso, informar moradores de áreas sujeitas a enchentes ou deslizamentos sobre rotas de evacuação e orientações da Defesa Civil, bem como orientar produtores rurais na adaptação dos calendários agrícolas e no planejamento do uso racional da água.
*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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