Neste espaço de memórias históricas e também afetivas, segue abaixo este belo depoimento do compositor Jota Michiles, entrevistado de ontem no Sextou. Se você tem uma foto histórica no seu baú e deseja vê-la postada neste quadro, envie agora pelo WhatsApp: (81) 9.8222-4888.
Leia maisAh, e tudo se foi tão ligeiro! Meus 8 anos naquele domingo de Carnaval, 4 de fevereiro de 1951, ameaçado por densas nuvens no céu, findando por desabarem num violento temporal na noite daquela terça-feira de Momo, fazendo encerrar mais cedo a folia nas ruas e nos Clubes, ao som da marchinha “Tomara que Chova”, cantada por Emilinha Borba.
Hoje, chego aos 80, mergulhado nas proustianas recordações do meu tempo de menino da periferia do Recife, ouvindo nas ruas os alegres vendedores ambulantes nos seus pregões matinais: “Chora menino pra chupar pitomba!!!”…”Mangaba, olha mangaba!!!”…”Vassoureiro!!! Espanador, vasculhador, esteira de Angola, colher de pau, rapa-coco e grelha!!!”
Admirado com suas emboladas, sempre os seguia até certa distância, quando ouvia o grito de dona Maria, minha mãe: -Venha embora, menino!!! -No rádio da vizinhança, me encantava ouvindo os baiões de Luiz Gonzaga, os frevos de Zumba, Levino, Capiba, Nelson Fereira, e o malabarismo rítmico de Jackson do Pandeiro.
Num pequeno casebre de palha, ali no bairro Ponto de Parada, de noite, já deitado numa rede pra dormir, pegava no sono ouvindo ao longe o batuque assombroso do maracactu de Dona Santa. Acho que ali nascera a inspiração que hoje me fez compor “Recife Nagô”.
Nessa caminhada musical, tive minha primeira canção, um bolero, VOCÊ ME MALTRATOU, gravado por Victor Bacelar, no Rio de Janeiro. Dois anos depois, julho de 1964, uma pré Jovem Guarda, aconteceu meu segundo grande momento, ao gravar um calipso, NÃO QUERO QUE CHORES, com o grupo vocal The Golden Boys, lado “B” de um Compacto Simples da Odeon, cujo lado “A” trazia “Quero Afagar Tuas Mãos”, uma versão de “I Want To Houd Your Hand” dos Beatles. Naquele momento, houve até um comentário de que os quatro rapazes ingleses estariam a regravar minha música, o que, infelizmente, não aconteceu!
Em seguida, setembro de 1966, a grande arrancada foi ganhar o primeiro lugar no concurso “Uma Canção para o Recife”, instituído pela Prefeitura da Cidade, na gestão do Prefeito Augusto Lucena. Festival esse, realizado no palco da TV Jornal do Commercio, dentro do Programa “Noite de Black-Tie” comandado pelo notável apresentador Luiz Geraldo.
Minha marcha, RECIFE MANHÃ DE SOL, foi a vencedora, concorrendo com os mais consagrados compositores daquele momento, entre as mais de duzentas canções inscritas, com direito a um bom prêmio em dinheiro, e o “Troféu Antônio Maria”, com placa de ouro, em homenagem ao memorável compositor pernambucano.
Nesse caminho, participei de vários outros festivais, com alguns prêmios, quando, em 1983, gravei um LP da Chantecler, nos estúdios da Rozenblit, cantando canções nordestinas, acompanhado pelo Quinteto Violado. Porém, foi a partir do Carnaval de 1986, com o “estouro” do frevo BOM DEMAIS, na interpretação do eletrizante Alceu Valença, que meu nome passou a ser destaque na cena carnavalesca.
O frevo, que até então andava um tanto adormecido, de repente se popularizou na boca do povo, nas ruas, nas orquestras, e nos Clubes, seguido de outros sucessos que vieram na interpretação do próprio Alceu Valença, e de outras luxuosas estrelas da MPB. Hits que ainda vão rolar por muitos e muitos fevereiros, numa fraternal gratidão aos meus saudosos heróis sem quadrinhos, seu Romeu e dona Maria, meus pais! E, viva a vida!!!”
(Jota Michiles)
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