Avanço de Lula na Quaest fortalece João e pressiona Raquel
A nova pesquisa Genial/Quaest divulgada, ontem, apontando um distanciamento maior do presidente Lula (PT) ante Flávio Bolsonaro (PL), produz efeitos que vão muito além da disputa presidencial. Ao mostrar o petista abrindo seis pontos de vantagem em um eventual segundo turno, o levantamento reforça um movimento político que pode ter consequências diretas sobre a eleição para o Governo de Pernambuco.
Num primeiro olhar, os números parecem tratar apenas da sucessão presidencial. Mas, em estados onde a imagem de Lula possui forte influência eleitoral, como Pernambuco, a pesquisa funciona também como um indicador da força dos palanques locais associados ao presidente. E hoje nenhum projeto político está mais claramente vinculado a Lula no Estado do que o liderado por João.
Leia maisO dado mais relevante da Quaest talvez não seja apenas a vantagem numérica de Lula. O que chama atenção é a reversão da tendência observada nos meses anteriores. Depois de um período marcado por oscilações e por uma percepção de maior equilíbrio na disputa nacional, o presidente volta a abrir vantagem e demonstra capacidade de recuperação eleitoral. Em política, a percepção muitas vezes produz efeitos tão importantes quanto os próprios números.
Quando um candidato é visto como favorito, tende a atrair apoios, consolidar alianças e reduzir espaços para adversários. Essa dinâmica é particularmente importante em Pernambuco. Historicamente, o eleitorado pernambucano demonstra forte identificação com Lula, não apenas por afinidade ideológica, mas também pela memória dos investimentos federais realizados durante os governos petistas e pela relação afetiva construída ao longo de décadas.
Não por acaso, mesmo em momentos de desgaste nacional do PT, Pernambuco permaneceu entre os estados mais favoráveis ao presidente. É justamente nesse ambiente que João construiu sua estratégia para 2026. Desde a consolidação da aliança entre PSB e PT, o socialista passou a ser percebido como o principal representante do campo político liderado por Lula em Pernambuco.
REFLEXOS – A aproximação foi fortalecida pela decisão do PT estadual de apoiar a candidatura de João Campos, pela presença frequente de lideranças petistas em seus eventos e pelas manifestações públicas de dirigentes nacionais que defendem um palanque unificado no Estado. A consequência prática é que uma eventual recuperação de Lula nacionalmente tende a produzir reflexos positivos para João Campos.

Raquel evita alinhamento – Isso ocorre porque a eleição estadual e a presidencial dificilmente caminharão de forma dissociada em Pernambuco. Quanto mais forte for a candidatura de Lula, maior será a tendência de transferência de prestígio para candidatos identificados com seu projeto político. Ao mesmo tempo, a pesquisa amplia um desafio estratégico para a governadora Raquel Lyra. Desde o início de sua gestão, Raquel tem buscado manter uma posição de equilíbrio em relação ao governo federal. Embora preserve uma relação institucional com Brasília, evita assumir um alinhamento político explícito com Lula.
Um problemão – Essa postura permitiu à governadora dialogar com setores distintos do eleitorado, mas pode se transformar em um problemão, caso a polarização nacional se intensifique. O motivo é simples: se Lula continuar crescendo e consolidando vantagem sobre os adversários, a disputa pernambucana tende a ser cada vez mais influenciada pela identificação dos candidatos com o presidente. Nesse cenário, João Campos parte com uma vantagem evidente.
Palanque único – Enquanto o vínculo de João com Lula é público, consistente e politicamente consolidado, Raquel corre o risco de ficar em uma posição intermediária, sem conseguir capturar integralmente nem o eleitorado lulista nem o eleitorado bolsonarista. Existe ainda um fator adicional. Diferentemente de eleições anteriores, quando Lula precisou conviver com múltiplos aliados disputando espaço em Pernambuco, o cenário atual aponta para uma convergência inédita: o presidente nacional do PT, lideranças do governo federal e dirigentes do PSB vêm sinalizando que o projeto prioritário do campo governista no Estado passa pela eleição de João Campos.

Forte indicador – Isso significa que o peso político, eleitoral e simbólico de Lula tende a ser direcionado de forma muito mais concentrada do que em ciclos anteriores. Por isso, a pesquisa Quaest deve ser lida não apenas como uma fotografia da corrida presidencial, mas como um indicador importante da correlação de forças em Pernambuco.
CURTAS
ATIVOS 1 – Se a tendência de crescimento de Lula se mantiver ao longo dos próximos meses, João poderá entrar na campanha de 2026 carregando dois ativos simultâneos: sua própria força política, construída a partir de sua trajetória administrativa e eleitoral, e a capacidade de mobilização do principal líder político do Estado. Em uma eleição que promete ser altamente nacionalizada, a vantagem de Lula deixa de ser apenas um dado da disputa presidencial e passa a representar um elemento estratégico central para a corrida pelo Palácio do Campo das Princesas.
ATIVOS 2 – Hoje, mais do que nunca, o fortalecimento de Lula nacionalmente parece caminhar na mesma direção do fortalecimento de João Campos em Pernambuco, estado onde o presidente tem entre 60% e 65% da preferência do eleitorado, com mais votos consolidados no Interior, da Zona da Mata ao São Francisco.
MAIORIDADE – A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou, ontem, por 44 votos a 18, a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. A medida é uma bandeira da oposição, enquanto o governo atua para evitar que ela entre em vigor.
Perguntar não ofende: Se Lula continuar crescendo, ganha no primeiro turno?
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