Por Nayla Valença*
O que é o São João? É uma festa popular e religiosa celebrada principalmente no mês de junho, ligada ao nascimento de São João Batista. Mas, para nós nordestinos, especialmente sertanejos, o São João sempre foi muito mais do que uma data no calendário.
São João é cheiro de fogueira, milho assado, sanfona tocando ao longe. É quadrilha, xadrez, bandeirinhas coloridas, reencontros, fé e pertencimento.
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Mas como viver, sentir e transmitir para as novas gerações o que realmente é o São João se, aos poucos, estamos transformando nossa maior expressão cultural em apenas mais um grande festival?
Um festival parecido com tantos outros espalhados pelo país. Somos grandiosos justamente porque somos diferentes. Nossa força sempre esteve na autenticidade: na música, na dança, nas vestes, nos costumes, nos sabores, nos cheiros, nas cores e em tudo aquilo que representa nossa lida e nossa história.
E talvez seja justamente isso que estamos perdendo. Porque quando tudo vira igual, a identidade morre. Como nossos filhos, nossos netos e as futuras gerações compreenderão o que são raízes, pertencimento e identidade cultural se aquilo que deveriam vivenciar como tradição passa a ser apenas entretenimento?
Não se trata de dizer que outros ritmos não são belos. São. O sertanejo, o samba, a MPB e tantos outros fazem parte da riqueza cultural brasileira.
Mas precisamos nos perguntar: por que retirar justamente do São João aquilo que o torna único? Temos um patrimônio cultural imenso cantado e defendido por grandes nomes como Luiz Gonzaga, nosso eterno rei do baião, e por tantos outros que carregaram e continuam carregando nossa identidade, como Santana, Flávio José e tantos representantes da nova geração do forró. Aliás, por falar neles, as estrelas consagradas do forró, estão sem palco nos principais polos juninos do Nordeste.
Adianta o forró ser Patrimônio Imaterial do Brasil e agora candidato a patrimônio pela Unesco se nem no Nordeste os artistas, berço deles, são contratados? O que vemos, infelizmente, são os artistas tradicionais, quando lembrados, sem ter direito a cantar em palcos para grandes plateias, como os contratantes fazem com os “importados”.
Se temos algo tão forte, tão bonito e tão nosso, por que abrir mão disso? Talvez o problema não seja apenas perguntar “cadê o nosso São João?”. Talvez seja perguntar: “O que estamos fazendo para que ele continue existindo?”
*Bióloga
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