A passagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelo Recife no fim da semana passada foi marcada por uma saia-justa provocada pela presença da governadora e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), no hotel em que o petista se hospedou.
Lula foi à capital pernambucana para participar de um ato com o candidato a governador João Campos (PSB), adversário de Raquel. Apesar de apoiar o ex-prefeito do Recife, o petista tem evitado criticar a atual governadora, que, por sua vez, faz uma campanha desvinculada da disputa presidencial e vinha fazendo gestos ao chefe do Executivo. As informações são do jornal O GLOBO.
Em Pernambuco, o apoio de Lula é considerado um fator importante para quem quer sair vitorioso —em 2022, ele teve 66,93% dos votos válidos no segundo turno, ante 33,07% de Jair Bolsonaro (PL).
Leia maisAo longo de seu mandato, Raquel Lyra manteve uma boa relação com o Palácio do Planalto. O ex-ministro da Casa Civil Rui Costa defendia, inclusive, que Lula deveria optar por ter dois palanques em Pernambuco, tese rechaçada pelo grupo de João Campos.
Logo após o início oficial da campanha, Lula gravou um vídeo de apoio para o ex-prefeito usar no horário eleitoral, após cobranças incisivas do aliado. Mas a ideia inicial da campanha presidencial era evitar a ida ao estado, justamente para não causar mal-estar com Raquel Lyra e impedir que um descontentamento a levasse a fazer algum gesto em direção a Flávio Bolsonaro (PL). Diante de uma eleição acirrada, aliados do petista dizem que ele não pode prescindir de apoios.
Mas conforme as pesquisas mostravam um cenário apertado na disputa pelo governo pernambucano, o ex-prefeito, que também é presidente nacional do PSB —maior partido aliado do PT na eleição nacional—, intensificou as pressões sobre a coordenação para que o presidente fosse ao estado. Lula então aceitou ir ao Recife.
A viagem foi planejada em detalhes pelo comando da campanha petista para evitar ruídos com a governadora. Eles afirmaram a Raquel que não haveria ataques a ela tampouco à sua gestão. Na noite de quinta-feira, véspera do ato de Lula com João Campos, porém, os esforços quase caíram por terra.
Integrantes da campanha de Lula dizem que o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que cuida da segurança do presidente da República, detectou a presença de Raquel no Novo Hotel, localizado no bairro do Recife antigo, onde o presidente ficaria hospedado. O coordenador-geral da candidatura e presidente do PT, Edinho Silva, estava em Maceió acompanhando comício com Lula quando foi avisado e acionou Gilberto Carvalho, ex-ministro e responsável pela agenda do presidente na campanha.
Horas antes, Carvalho já havia tido uma conversa com a governadora para explicar os motivos da ida de Lula ao estado. Segundo relatos, foi um telefonema tenso, com Raquel irritada e demonstrando contrariedade com a presença do presidente em Pernambuco.
No início da campanha, Raquel aparecia à frente com folga nas pesquisas de intenção de voto, mas o cenário mudou: pesquisa Quaest divulgada nesta terça mostra os dois empatados numericamente em 42%. Nas últimas semanas, a campanha da governadora ficou pressionada após vir à tona um vídeo, de maio de 2025, em que ela sugere a realização de uma laqueadura em uma mulher sem que ela soubesse da cirurgia.
Quando Gilberto Carvalho foi alertado que a candidata à reeleição estava no hotel onde Lula se hospedaria, o responsável pela organização da agenda da campanha do petista voltou a conversar com a governadora. Disse que o presidente não queria enfrentar o constrangimento de encontrá-la e que, se ela insistisse em permanecer no local, Lula dormiria em Maceió e só viajaria no dia seguinte para a capital de Pernambuco.
Ainda segundo relatos, Raquel se ofendeu, negou a Gilberto Carvalho que tivesse a intenção de forçar um encontro com o presidente e disse que usa espaços daquele hotel como ponto de suporte de sua campanha. A interlocutores, não escondeu o descontentamento com o episódio, disse ter ficado chateada e destacou a boa relação que mantém com o entorno do presidente da República. Procurada, via assessoria de imprensa, a governadora não respondeu.
Um interlocutor da candidata diz que há cerca de duas semanas ela frequenta o local e tem à sua disposição uma sala de conferências e um quarto para se preparar, principalmente, para debates eleitorais. Esse aliado de Raquel acusa a campanha de João Campos de criar o que classifica como narrativa mentirosa de que ela buscaria um encontro com o petista para gerar um mal-estar e prejudicar a candidata.
Após os esclarecimentos, Lula manteve o plano de passar a noite no Recife e não se encontrou com a governadora no hotel. Ele foi recebido na base aérea por João Campos e os candidatos ao Senado que têm seu apoio, Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT). O registro foi publicado nas redes sociais do ex-prefeito.
Já Raquel Lyra não estava no hotel quando o presidente chegou. Ela gravou um vídeo, de sua casa, naquela noite para defender o fim das bets no país e elogiar a postura do petista no enfrentamento a esse tema. “Combater as bets exige coragem, firmeza e decisão política. É um problema que vai muito além das diferenças partidárias e precisa ser enfrentado de frente. Essa é a nossa escolha, assim como a do presidente Lula. Podem contar comigo nessa luta”.
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