A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) procurou o marqueteiro Paulo Vasconcelos após a saída do publicitário do comando da comunicação de Ronaldo Caiado (PSD), anunciada nesta segunda-feira. O coordenador político da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), fez o contato e sugeriu uma conversa do marqueteiro com Duda Lima, atual responsável pela estratégia eleitoral de Flávio, para somar à equipe. Vasconcelos, porém, recusou a aproximação. O motivo apontado foi uma questão ética relacionada à sua atuação, até esta semana, no campo adversário.
A procura ocorre depois de Vasconcelos deixar o QG de Caiado em meio a divergências sobre os rumos da campanha, uma delas justamente relacionada a Flávio. O marqueteiro era contrário à estratégia de intensificar os ataques ao candidato do PL. A ofensiva vinha sendo adotada como uma forma de aumentar a repercussão de Caiado nas redes sociais e buscar espaço na disputa presidencial. As informações são do jornal O GLOBO.
Leia maisNos bastidores da campanha, havia uma divergência sobre até que ponto esse enfrentamento poderia se converter em uma estratégia eleitoral mais ampla. De um lado, a aposta era que elevar o tom contra Flávio ajudaria Caiado a ganhar tração nas redes e a se diferenciar do candidato apoiado por Jair Bolsonaro. De outro, havia o diagnóstico de que o governador poderia chegar à propaganda eleitoral na televisão sem uma mensagem própria suficientemente consolidada caso concentrasse parte de sua comunicação no confronto com o adversário.
O episódio envolvendo Romeu Zema (Novo) chegou a ser usado nas discussões como exemplo dos riscos dessa estratégia. Durante a pré-campanha, o então governador de Minas elevou o tom contra Flávio após a divulgação de um áudio em que o senador negociava com o banqueiro Daniel Vorcaro o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Zema gravou um vídeo em que classificou a conversa como “imperdoável” e um “tapa na cara” dos brasileiros, numa tentativa de marcar posição diante do candidato do PL.
A ofensiva provocou reação de integrantes do PL e também abriu uma crise dentro do próprio Novo, que mantém alianças com os bolsonaristas em diferentes estados. Correligionários consideraram a manifestação “precoce” e “precipitada”, e Zema chegou a ganhar internamente o apelido de “Amoêdo 2”, numa referência ao fundador da legenda, João Amoêdo. Candidato ao Planalto em 2018, Amoêdo declarou voto em Lula quatro anos depois, em oposição à candidatura de Bolsonaro, e acabou deixando o partido após ser suspenso pela legenda. Zema, por sua vez, disse posteriormente que havia agido de acordo com seus princípios e valores, mas tratou a controvérsia como “página virada”.
No antigo núcleo de comunicação de Caiado, o episódio era citado como um alerta para o risco de apostar no confronto com Flávio para ganhar repercussão imediata sem conseguir transformar o embate em crescimento eleitoral.
As divergências iam além da relação com Flávio. Outro ponto de atrito era o modelo de tomada de decisões dentro da campanha. Integrantes da equipe se queixavam de que definições estratégicas acabavam submetidas a uma espécie de “assembleia”, com diferentes vozes participando das discussões e sem uma coordenação que tivesse a palavra final sobre a comunicação.
A participação da família de Caiado nessas decisões também provocava incômodo. As diferenças chegaram à própria identidade visual da candidatura. Houve resistência no entorno do governador à marca elaborada para a campanha, que acabou substituída por uma nova identidade visual às vésperas do lançamento da candidatura.
Com a saída de Vasconcelos, Marcos Carvalho, que já coordenava a atuação da campanha nas redes sociais, assumiu o comando da comunicação. A mudança ocorre justamente dias antes da propaganda eleitoral na televisão, área de especialidade do marqueteiro que deixou a equipe.
Vasconcelos continuará trabalhando nas eleições deste ano. Ele permanece à frente da comunicação do governador Mateus Simões (PSD) na disputa em Minas Gerais e do presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), no Rio de Janeiro.
Primeira opção de Flávio
A investida desta semana reedita uma aproximação que antecede a própria montagem da atual equipe de comunicação de Flávio. Vasconcelos era o nome preferido do senador para comandar sua campanha presidencial antes das passagens de Marcello Lopes e Alexandre Oltramari e da chegada de Duda Lima. Os dois chegaram a conversar sobre uma possível parceria.
Mineiro, Vasconcelos comandou o marketing da campanha presidencial de Aécio Neves em 2014 e, entre 2018 e 2022, trabalhou em diferentes campanhas para governos estaduais. Flávio chegou a sondá-lo quando começou a estruturar sua candidatura ao Planalto.
Naquele momento, porém, Vasconcelos tinha compromisso com Caiado. A possibilidade de trabalhar com Flávio chegou a avançar diante de um cenário em que Ratinho Junior era apontado como provável candidato do PSD à Presidência. Se isso se confirmasse, a expectativa era que Caiado deixasse a corrida presidencial e pudesse liberar o marqueteiro.
O desenho mudou quando Ratinho decidiu permanecer no governo do Paraná e Caiado se tornou o candidato presidencial do PSD. Vasconcelos permaneceu com o ex-governador goiano, enquanto Flávio seguiu em busca de um nome para comandar sua comunicação.
Desde então, a campanha do senador passou por duas mudanças nessa área até chegar a Duda Lima.
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