Por Igor Maciel – Jornal do Commercio
Era uma vez, um candidato ao Senado que não sabia se mudava o mundo ou comprava um sorvete. Seria compreensível, se a solução do mundo dependesse de um sorvete. Não depende. A indecisão é pior do que o caminho errado. Quem erra o caminho faz um retorno adiante, mas o indeciso bate no poste.
Esta coluna poderia promover um desfile de expressões desse tipo para tentar explicar a proporção dos ruídos que saíram do Palácio do Campos das Princesas, ontem, quando ao longo de algumas horas surgiram informações de que Túlio Gadêlha (PSD) havia desistido de ser candidato e depois “desistiu de desistir”. Mas é impossível normalizar a impressão de confusão e bagunça de uma chapa que, até o momento em que esse texto está sendo escrito, ainda não conseguia fechar seu registro no TSE para a campanha que já começa domingo (16).
Leia maisO dia havia começado com uma tentativa de demonstrar exatamente o contrário. Raquel Lyra (PSD) reuniu, pela primeira vez, sua chapa majoritária em agendas administrativas no Recife e em Olinda. Ao lado da vice Priscila Krause (PSD) e dos candidatos ao Senado, Eduardo da Fonte (PP) e Túlio Gadêlha (PSD), a governadora apresentou o time que pretende levar para a campanha. Era a imagem de unidade que faltara durante os meses de disputas e negociações pelas vagas.
Durou pouco. Horas depois, espalhou-se a informação de que Túlio havia “desistido da candidatura”. Não se tratava apenas de mais um rumor entre tantos que acompanharam a montagem da chapa. O deputado já havia adiado duas vezes o anúncio de seus suplentes, e diferentes veículos passaram a noticiar que a decisão de abandonar a disputa havia sido comunicada ao Palácio. A chapa apresentada pela manhã parecia ter perdido um integrante antes do fim do dia.
Uma reunião de emergência foi convocada no Palácio do Campo das Princesas. O encontro entrou pela noite, com a participação de integrantes do núcleo político, de Eduardo da Fonte e de Miguel Coelho. A presença de Miguel, que havia disputado até os últimos dias uma das vagas ao Senado, ampliou as especulações sobre uma possível substituição. Mais tarde, surgiu a versão de que a governadora havia “convencido Túlio a permanecer”. Mas até a “desistência de desistir” ficou pairando no noticiário sem conclusão, por horas. Só terminou quando, perto das 23h, o próprio Túlio escreveu no Instagram que, sim, “é candidato ao Senado”.
Quando uma campanha precisa reunir seus principais líderes durante horas apenas para confirmar se um candidato continuará sendo candidato, após as convenções e faltando 72h para o fim do prazo de registro, o problema já ultrapassou o limite do bom senso. Quem segura esse volante precisa indicar o caminho a seguir e garantir que os outros ocupantes do veículo sorriam, coloquem o cinto, acenem e parem de fazer bagunça, para a segurança de todos.
Uma chapa majoritária não é formada apenas por quatro nomes exibidos lado a lado no material eleitoral. Precisa funcionar como time, dividir agendas, defender candidaturas e oferecer aos aliados alguma previsibilidade. Prefeitos, deputados e lideranças locais precisam saber quem apresentar ao eleitor. A coordenação precisa definir onde cada candidato estará, qual discurso sustentará e de quem pedirá votos.
A instabilidade em torno de Túlio desorganiza tudo isso. As indefinições sobre suplentes reforçam a sensação de que nem mesmo as escolhas internas mais básicas foram concluídas. Em vez de começar a campanha apresentando propostas e ocupando o estado, o grupo permanecerá discutindo quem estará dentro dele até quando?
Durante meses, a disputa pelas vagas ao Senado favoreceu Raquel. Miguel Coelho (União), Eduardo da Fonte, Túlio Gadêlha e Fernando Dueire (PSD) orbitavam o Palácio em busca de espaço. A governadora permanecia no centro das decisões, enquanto aliados competiam por sua preferência. A indefinição podia ser interpretada como demonstração de força porque havia mais candidatos do que vagas.
Esse prazo terminou nas convenções. A partir delas, manter decisões abertas deixou de demonstrar poder e passou a sugerir falta de organização. Raquel conseguiu reunir muitos partidos, prefeitos e lideranças, mas agora precisa mostrar que essa quantidade pode ser convertida em sintonia eleitoral.
O desgaste não fica restrito à eleição para o Senado. É Raquel quem lidera a chapa e quem responde por sua capacidade de funcionar. Se os candidatos entram em conflito, ameaçam sair ou desconhecem o próprio destino, a desorganização é projetada sobre a candidatura ao governo. O eleitor pode não acompanhar cada disputa por suplência, pode nem saber o que diabos é um suplente ou para o que ele serve, mas compreende quando um grupo não consegue transmitir segurança sobre as próprias decisões.
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