Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Houve um tempo, nem tão distante, em que os ícones da esquerda latino-americana eram conhecidos por suas atitudes e princípios morais. Essa foi sua marca registrada durante décadas. Pepe Mujica andando de Fusca e recusando o palácio presidencial para seguir vivendo numa chácara nos arredores de Montevidéu. A coragem do prêmio Nobel Adolfo Pérez Esquivel em defender os direitos humanos quando a Argentina vivia sob o jugo da sangrenta ditadura de Videla.
O poeta Pablo Neruda, outro prêmio Nobel, foi candidato a presidente do Chile em 1969. Salvador Allende, eleito naquele pleito e deposto por um golpe militar, morreu com a Constituição debaixo do braço e um Kalashnikov na mão dentro do palácio bombardeado. Muito antes, veio Jorge Eliécer Gaitán, cujo assassinato, em 1948, incendiou Bogotá. Para milhões de colombianos pobres, ele era uma promessa da política sem os vícios da oligarquia. Essa esquerda vendia um ativo moral valioso: a ideia de que a honestidade era essencial ao projeto de poder.
Leia maisEstamos assistindo ao enterro desse ativo. Nos últimos meses, quase simultaneamente, governantes da esquerda latino-americana deixaram o poder carregando processos, prisões e escândalos que, em conjunto, formam um quadro, no mínimo, deplorável. É como se a esquerda tivesse perdido a bússola.
Gustavo Petro encerra o mandato colombiano durante investigação do Ministério Público sobre a rede de tráfico de influência liderada por Juliana Guerrero, linda e sexy aliada de 23 anos. O próprio Petro a apresentou durante reunião de governo como futura vice-ministra da Juventude. Juliana, que Andrea Petro, filha do ex-presidente, trata como uma espécie de sugar baby, virou uma usina de encrencas. Não pôde ser nomeada vice-ministra, porque apresentou diploma falso, mas mesmo assim continuou sendo a querida do velho Gustavão.
Ele mantinha affair simultâneo com a influencer Gabriela Muñoz, 20 anos, do mesmo naipe de Juliana, acusada de tráfico de influência na Aerocivil, a Anac colombiana. Petro sairá da Casa de Nariño para a decrepitude. Até o candidato Ivan Cepeda, por ele apoiado na eleição presidencial, reconheceu publicamente nas redes sociais o enrosco do ex-presidente.
Cristina Kirchner cumpre prisão domiciliar, condenada em última instância pela Justiça argentina no caso Vialidad, depois de mais de uma década sendo protegida por foros, prescrições e adiamentos que sua militância transformou em narrativa de perseguição judicial.
O boliviano Evo Morales, processado por manter relação com adolescente de 14 anos, por ele engravidada quando ainda era presidente, foi premiado com mandado de prisão na quarta-feira (29). É acusado de terrorismo e insurreição armada, depois de liderar bloqueios de estradas paralisando o país por quase dois meses, com único objetivo de derrubar o presidente Rodrigo Paz. Está foragido.
No Peru, Pedro Castillo segue preso, condenado por tentar fechar o Congresso e governar por decreto, partindo para o chamado golpe de Estado de manual, depois de assumir prometendo romper com “a velha política”.
No Chile, Gabriel Boric encerrou o mandato em março debaixo de críticas de quem o ajudou a se eleger. Sindicalistas, ambientalistas, o movimento mapuche e feministas o acusam de ter administrado o Estado sem cumprir promessas de ruptura que fizeram dele, em 2022, o rosto da nova esquerda latino-americana. O escândalo envolvendo seu ex-subsecretário do Interior, Manuel Monsalve, preso por abuso sexual, e as acusações que o presidente enfrentou de desvios de verbas envolvendo ONGs, mostram não só desgaste, mas decadência.
Mas isso não nos dá o direito de dizer que a esquerda se tornou igual à direita que combateu nos anos 1960 e 1970. As ditaduras de direita daquele período praticaram terrorismo de Estado, sumiço e extermínio de opositores. Eram governos exercidos unicamente pela força.
Confundir corrupção administrativa, nepotismo político ou mesmo tentativas de golpe com o aparato de morte de Pinochet, Videla ou Banzer é uma simplificação que mais serve às narrativas das redes sociais do que à História. Tudo considerado, a distinção não absolve. Só dribla o erro de medir tudo pela mesma régua.
O que de fato parece estar em curso é outra coisa, talvez mais banal e, por isso, preocupante: o esgotamento do capital moral que sustentou a esquerda latino-americana desde os tempos dos anarquistas no fim do século 19 e início do 20. Salvador Allende, Gaitán ou Esquivel operavam em contextos de escassez de poder, quando a esquerda era essencialmente oposição perseguida, e honestidade pessoal, condição de sobrevivência política. A geração de Hugo Chávez, Nicolás Maduro, Miguel Díaz-Canel, Daniel Ortega, Petro, os Kirchner ou Evo Morales, administrou Estados por anos ou décadas, e o poder prolongado, como costume, criou clientelismo, dependência de operadores de conveniência e convicção de que os fins justificam os meios.
Num delírio, Petro virou sugar daddy da influencer de 20 anos e da assessora sexy de 23 anos, dona de diploma falso. Enquanto Morales, depois de engravidar a menina de 14 anos, fez dos movimentos sociais genuínos arma para retomar o poder. Cristina Kirchner usou e abusou do poder e acabou condenada. Cada um com seu pecado, todos são variações do mesmo padrão de escolha do caminho oposto ao dos fundamentos de Mujica, Allende, Neruda ou Esquivel.
A esquerda do passado produziu intelectuais, poetas, advogados de direitos humanos, políticos acima de qualquer suspeita e até mártires. A atual produz operadores. Os escândalos de 2026 estão recheados de assessoras de conduta duvidosa, esquemas de tráfico de influência, desvios de dinheiro e prisões preventivas.
Nada disso significa que a direita latino-americana herdará automaticamente a autoridade moral que a esquerda perdeu. Historicamente, ela também produziu seus próprios escândalos e cumplicidades. Por isso, nunca é demais lembrar da sabedoria de Pepe Mujica ao analisar a crise da velha esquerda em pleno século 21:
“A esquerda errou, permaneceu estagnada no tempo e presa na literatura de uma época em um mundo que mudou. Esquerda é empatia, é solidariedade e é preocupação com a desigualdade. É sonhar com o mundo um pouco mais justo e com a humanidade mais nobre. É o que a esquerda tem de mais bonito”. A essência daquele sonho perdido.
Leia menos


















