Mesmo no calorzão do Sertão, o cafezinho das três da tarde, servido com guloseimas inesquecíveis, como broa, tapioca, pãozinho na manteiga e bolo de caco, em Afogados da Ingazeira, onde chorei no ventre da minha mãe, se traduziu em algo tão forte na minha infância e adolescência que segue guardado no melhor cantinho das memórias saudáveis e saudosas.
Grande, de madeira de lei — que cupim não rói, como diz a canção ariana —, a mesa, envernizada pelo amor, cabia todos, igual a coração de mãe. As conversas, divertidas, matavam o tempo que passa lento no chão de vidas secas, como quem não quer ir embora.
Leia maisUm cafezinho quente tem o poder de deixar a alma mais leve e o dia mais gentil, dizia minha saudosa flor Margarida. Mamãe tinha mãos de fada na cozinha. Seu bolo de caco era um manjar dos deuses. Naquela época, inculto, não tinha a menor ideia do que representava a simbologia do café.
Não sabia que a vida começa a fazer sentido depois do primeiro gole de um cafezinho, que o seu aroma é o abraço que desperta a alma e organiza os pensamentos.
Em Brasília, terra dos meus sonhos e da felicidade, hoje compreendo porque o jornalista Romualdo de Souza criou o seu próprio espaço para uma coluna sobre café. Além de bom cafezeiro, dá aula sobre a cultura do café no Brasil e no mundo.

Anda com um bornal nos ombros levando seu cafezal, com água quente para ele próprio preparar e servir o cafezinho quentinho na hora aos seus convivas, políticos e jornalistas. Um ritual sagrado para ele, que vibra e se emociona, esbanjando charme e sabedoria.
Romualdo é daqueles fanáticos por café que nos convence que entre um gole e outro a conversa flui, o tempo desacelera e a amizade se aquece. Mais do que isso, prova que pequenos momentos podem ser grandes fontes de prazer. Convites inusitados como os dele para um café no meio da tarde, em meio ao turbilhão político do Congresso, nunca é só sobre a bebida.
É sobre quem escolhe sentar do seu lado, para deixar a vida nos levar mais aquecida. Tomar um cafezinho servido por ele representa muito mais do que matar a sede ou consumir uma bebida. É um convite para uma pausa na rotina, um abraço quente em forma de xícara, pretexto perfeito para uma boa conversa, momento de excelência, dedicado a si mesmo ou a quem ele tem o prazer da companhia.
Um cafezinho é sensacional. Na verdade, a gente finge que é só uma xícara de café, mas em certos dias ele é quase um abraço. Um gesto contra a rotina, uma pequena revolução de calma no meio do caos.
Parar para um café é lembrar que o tempo não precisa ser apenas pressa. Vamos tomar um café? Eis o código mais bonito para dizer: eu quero estar um instante com você.
A história do café no Brasil começou em 1727, quando Francisco de Melo Palheta trouxe as primeiras mudas da Guiana Francesa para Belém, no Pará. O cultivo cresceu muito no Sudeste e virou a base da economia e da política do país nos séculos XIX e XX. Coube ao atrevido sargento-mor Francisco de Melo Palheta trazer mudas clandestinas para o Pará.
A planta serviu apenas para consumo interno e vendas pequenas. Só em 1760, o café chegou ao Rio de Janeiro e se espalhou. O cultivo cresceu forte nas serras do Rio, de São Paulo e de Minas Gerais, com mão de obra de pessoas escravizadas e isso com o tempo fez o Brasil virar o maior produtor de café do mundo.
Fiz esta crônica para dizer, enfim, que um bom cafezinho serve para despertar o corpo, acalmar a mente, aproximar pessoas e transformar instantes simples em grandes momentos de prazer. O primeiro gole dá o combustível que desperta a alma, a coragem necessária para enfrentar a maluca rotina do dia.
Entre conversas descontraídas e silêncios confortáveis, o cafezinho aproxima corações e inspira boas amizades. Que, a partir de hoje, depois desta crônica, que cada gole seja também uma nova forma de ver o mundo para você, caro leitor.
Afinal, não tenha a menor dúvida: um bom café nos faz apreciar as coisas simples da vida. É uma obra de arte, assim como a vida bem vivida.
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