Por Zé Américo Silva*
Ao ressuscitar o discurso contra as urnas eletrônicas, o candidato parece preparar uma justificativa para uma derrota que parte de seus próprios aliados já considera possível
Toda campanha presidencial atravessa momentos de dificuldade. A diferença está na forma de enfrentá-los. Há candidatos que respondem às adversidades ampliando o diálogo com a sociedade. Outros preferem construir uma narrativa para explicar antecipadamente um eventual fracasso.
É essa impressão que transmite Flávio Bolsonaro ao voltar a questionar a credibilidade das urnas eletrônicas, repetindo a estratégia adotada por seu pai em 2022. Não se trata de uma denúncia inédita, mas da retomada de um discurso que já foi analisado e rejeitado pela Justiça Eleitoral.
Leia maisO episódio ganha contornos ainda mais simbólicos porque o Tribunal Superior Eleitoral voltou a rebater essas alegações sob a presidência do ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro. Isso desmonta a narrativa de perseguição política e reforça que a resposta veio da própria instituição responsável por garantir a lisura do processo eleitoral.
Ao mesmo tempo, a campanha acumula desgastes sucessivos. As investigações envolvendo recursos destinados à produção do documentário Dark Horse, os desdobramentos relacionados ao empresário Daniel Vorcaro e outros episódios recentes mantêm o candidato permanentemente na defensiva, desviando o foco do debate sobre propostas para o país.
No plano político, o isolamento tornou-se ainda mais evidente. A decisão da Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, de não integrar a candidatura de Flávio Bolsonaro retirou dele uma das mais importantes bases partidárias do país. A perda não é apenas eleitoral; ela possui forte valor simbólico. Quando partidos com grande capilaridade preferem manter distância de um candidato, transmitem ao eleitor a percepção de que já enxergam limites para sua viabilidade.
Também pesam os efeitos da atuação internacional de Eduardo Bolsonaro durante a crise comercial entre Brasil e Estados Unidos. Independentemente das justificativas apresentadas pela família, consolidou-se entre muitos brasileiros a percepção de que interesses eleitorais acabaram se confundindo com interesses nacionais. Em uma eleição presidencial, soberania costuma ser um tema que mobiliza sentimentos muito além das disputas partidárias.
Nesse ambiente, voltar a atacar as urnas eletrônicas parece cumprir uma função política bastante clara: preparar o terreno para contestar um eventual resultado desfavorável. É como se a explicação para a derrota começasse a ser construída antes mesmo da votação.
Naturalmente, eleições são decididas nas urnas, não nas pesquisas nem nas análises de bastidores. O eleitor continua sendo o único árbitro da democracia. Mas campanhas emitem sinais. E quando um candidato perde apoios relevantes, enfrenta sucessivos desgastes políticos, vê crescer seu isolamento e passa a dedicar mais energia à desconfiança sobre o processo eleitoral do que à apresentação de um projeto de governo, transmite uma mensagem difícil de ignorar.
Talvez o maior adversário de Flávio Bolsonaro hoje não seja Lula. Talvez seja a percepção de que sua campanha deixou de disputar o futuro para começar a administrar uma possível derrota. E quem passa a questionar a legitimidade da eleição antes de ela acontecer, muitas vezes revela que já não confia na própria capacidade de vencê-la.
*Jornalista e consultor de marketing político
Leia menos














