Por Marcelo Tognozzi*
O Brasil acabou cercado por governos de direita. A partir de 7 de agosto, Abelardo de La Espriella (Defensores da Pátria), 47 anos, comandará a Colômbia depois de campanha dura, permeada de violência. Em junho de 2025, o então pré-candidato conservador Miguel Uribe Turbay foi baleado durante um ato político em Bogotá. Morreu 2 meses depois, em 11 de agosto. A forte polarização entre os apoiadores do presidente Gustavo Petro e os do candidato Iván Cepeda, ambos do Pacto Histórico, também veio acompanhada de confrontos armados entre dissidentes das Farc, guerrilheiros do ELN e grupos ligados ao narcotráfico. Foram muitos os mortos nas áreas rurais.
Toda a América do Sul vive uma polarização, com a esquerda fazendo das tripas coração para se manter no poder e tentando, quando derrotada, desestabilizar os eleitos, como acontece na Bolívia. O ex-presidente Evo Morales teima em fomentar protestos contra o presidente Rodrigo Paz, que foi obrigado a usar a força para conter as tentativas de derrubar seu governo.
Leia maisEspriella não terá vida fácil. A começar pelas negociações que terá de fazer com os partidos de centro e de direita num Congresso em que ninguém tem maioria. Não será tarefa simples para alguém que nunca exerceu o poder, mesmo tendo aliados importantes, como o ex-presidente Alvaro Uribe, que declarou abertamente o voto em Espriella.
A Colômbia está dividida, assim como a Bolívia, o Brasil ou o Peru, onde Keiko Fujimori lidera por margem estreita a apuração da eleição presidencial. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, cujo governo perseguiu e acabou com o grupo terrorista Sendero Luminoso. O líder do Sendero Luminoso, Abimael Guzmán, foi capturado em 1992 e apresentado à imprensa atrás das grades, na sede da polícia em Lima, numa demonstração pública de sua prisão.
Fujimori acabou metendo os pés pelas mãos. Renunciou por fax quando estava no Japão, em 2000, mas o Congresso rejeitou a renúncia e o destituiu por incapacidade moral. Mais tarde, foi preso no Chile, extraditado ao Peru e condenado por violações de direitos humanos. Libertado em 2023 por razões humanitárias, morreu no ano seguinte.
O governo de Abelardo de la Espriella começará num ambiente tenso, com uma forte oposição radical, que se acha dona das ruas e com o direito de criar todo tipo de problema. No 1º turno, o presidente Petro disse que não reconhecia o resultado, no que foi acompanhado pelos próceres do Pacto Histórico. Mais tarde, Cepeda acabou vencido pelo bom senso. Mas neste domingo, logo depois do pleito, Petro voltou a insinuar fraude eleitoral e a dizer que só os juízes diriam quem venceu de fato.
Depois da vitória de Milei na Argentina, Kast no Chile, Noboa no Equador e Paz na Bolívia, a onda de mudança varreu a América do Sul e o último bastião da esquerda é o Brasil de Lula.
Os resultados na Colômbia e no Peru afetam diretamente o Foro de São Paulo, espécie de clube da esquerda latino-americana. A Venezuela, que durante muito tempo se aliou ao Brasil no financiamento do Foro, agora virou um protetorado dos Estados Unidos e Cuba está sendo consumida por sua própria decadência.
O nome disso é fim de ciclo. Não é uma questão meramente ideológica ou de empatia, mas de uma transformação da realidade que tirou a esquerda latino-americana da zona de conforto. Isso tem muito a ver com a influência de Donald Trump, mas também com a fadiga do material depois de décadas de governos como os de Cristina Kirchner, Evo Morales, Lula e o bolivarianismo.
A alternância no poder é um dos pilares da democracia. Pode demorar um pouco mais ou um pouco menos, mas sempre acaba chegando. Foi assim com Getulio Vargas, que governou de 1930 a 1945, com os militares de 1964 a 1985 e os Kirchner que ficaram de 2003 a 2015.
Os resultados dos nossos vizinhos indicam que até a eleição de 4 de outubro teremos muitas emoções. Não é só o Brasil que está dividido. O continente inteiro rachou. Apertem os cintos. Até o fim da campanha será pressão o tempo todo.
*Jornalista e consultor independente
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