Na verdade, o “rouba, mas faz” define o governante que, apesar de enfrentar recorrentes denúncias de desvios éticos e morais, mantém forte apoio popular devido à entrega de grandes obras públicas. Durante seus mandatos como prefeito e governador de São Paulo, Adhemar construiu marcos como o Hospital das Clínicas e a Rodovia Anchieta.
Nas décadas seguintes, Paulo Maluf tornou-se o herdeiro natural dessa mística política no imaginário paulista. Ele aprofundou o estilo realizador de grandes intervenções urbanas de engenharia, o que garantiu sua influência eleitoral por mais de trinta anos. Maluf ficou marcado ainda pela construção de grandes complexos viários em São Paulo, como o Minhocão (Elevado Presidente João Goulart) e as marginais Tietê e Pinheiros.
Diferente de Adhemar, que morreu sem condenações criminais, Maluf foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal em 2017 por lavagem de dinheiro, devido a desvios estimados em bilhões de reais em obras de sua gestão na Prefeitura.
Mas, passados tantos, poucos são os paulistas que deixam de reconhecer a importância de Adhemar e Maluf para o desenvolvimento do Estado e da capital paulista. De dez taxistas, porteiros de hotéis e populares nas ruas com os quais conversei, oito tiraram o chapéu para Maluf.
Me deparei, entretanto, com um mundo paulista profundamente decepcionado com a política, os políticos e descrentes no Brasil. Tudo devido a uma sequência de crises econômicas, casos graves de corrupção, polarização social intensa e a percepção de que os serviços públicos essenciais não atendem às necessidades básicas da população.
E tudo isso não se restringe apenas ao pensamento do desiludido cidadão paulista. O brasileiro em geral não aguenta mais pagar impostos, juros alarmantes e conviver com escândalos frequentes, desvio de dinheiro público, inflação alta, desemprego e o custo de vida pesado.
Mais do que isso, brigas constantes entre grupos políticos afastam o cidadão e geram um clima de ódio, sem contar com os serviços precários na saúde, educação e segurança pública. Políticos prometem mudanças nas campanhas, mas não entregam resultados depois de eleitos.
Conversei com um motorista de aplicativo que me disse não ter lembrança em quem votou nas eleições passadas e que não iria votar nas eleições de outubro próximo em político nenhum. Seu desencanto não é isolado. Reflete uma descrença geral da população. Na eleição de 2018, 27,7 milhões de eleitores se abstiveram no primeiro turno, e 30,1 milhões, no segundo. O número saltou para 32,7 milhões e 32,1 milhões, respectivamente, nas eleições de 2022.
Embora o voto seja obrigatório, a abstenção eleitoral tornou-se um fenômeno estrutural no país. Nas eleições municipais recentes, ela ultrapassou 30% em diversas capitais brasileiras. Em Porto Alegre, chegou a 34,8%; em Belo Horizonte, 31,9%; e, em São Paulo, 31,5%. Em algumas cidades, a soma de abstenções, votos brancos e nulos já se aproxima da votação obtida pelos próprios candidatos vencedores. A explicação para esse fenômeno não é apenas política. É também econômica.
Muitas pessoas simplesmente não desejam participar do processo democrático, seja porque não acreditam no resultado das eleições como instrumento de mudança social efetiva, seja porque não acreditam na democracia, ou simplesmente porque não se interessam.
O maior desafio hoje talvez não seja obrigar o eleitor a votar, que é o básico de uma democracia, mas fazê-lo acreditar que ele deve se engajar na política, participar, ser candidato e candidata e, se não for possível, pelo menos, votar, pois seu voto efetivamente produz transformação política.
Na verdade, independente do sentimento que encontrei na população paulista, quando parte do eleitorado conclui que segurança, educação, saúde e crescimento econômico continuarão insatisfatórios independentemente do resultado eleitoral, o voto perde relevância prática e política.
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