Por Cláudio Soares*
Nos últimos anos, tornou-se comum nas redes sociais a exibição de imagens impactantes por parte de profissionais da odontologia: bocas mutiladas, dentes em estado avançado de deterioração, dentaduras, pacientes desdentados ou em condições de extrema vulnerabilidade. Publicações que, muitas vezes, são apresentadas sob o argumento de “antes e depois”, “conscientização” ou “resultado clínico”, mas que levantam uma questão incontornável: até que ponto isso é informação e a partir de quando se torna exploração?
A fronteira entre educação e sensacionalismo parece cada vez mais tênue. O que se vê, em muitos perfis profissionais, é espetacularização da miséria bucal. Imagens cruas, por vezes degradantes, são utilizadas como estratégia de engajamento, convertendo sofrimento humano em moeda de visibilidade digital.
Leia maisNão se trata de negar o valor científico ou educativo de casos clínicos. A odontologia, como ciência da saúde, exige registro, estudo e compartilhamento de experiências. O problema reside na forma, no contexto e, sobretudo, na intenção. A lógica algorítmica das redes sociais baseada em impacto visual e choque tem influenciado práticas que deveriam ser regidas por princípios éticos, não por métricas de curtidas.
Surge, então, um questionamento legítimo. Onde está o compromisso com a dignidade do paciente? Ainda que haja consentimento formal, é preciso refletir sobre a assimetria existente na relação profissional-paciente. O indivíduo exposto, muitas vezes em situação de fragilidade social ou econômica, compreende plenamente o alcance daquela divulgação? Está ciente de que sua imagem pode circular indefinidamente, sujeita a julgamentos, ridicularizações ou estigmatização?
Nesse cenário, causa estranheza o silêncio — ou, no mínimo, a atuação tímida dos Conselhos Regionais e do Conselho Federal de Odontologia. Órgãos que têm, entre suas atribuições, zelar pela ética e pela dignidade da profissão. A regulamentação existe, mas sua aplicação parece irregular diante da crescente banalização dessas práticas.
A omissão institucional, quando percebida pela sociedade, corrói a credibilidade da categoria. Afinal, se a própria entidade fiscalizadora não atua de forma firme, que mensagem está sendo transmitida? Que vale tudo em nome da autopromoção?
É urgente retomar o debate ético com profundidade. A odontologia não pode se permitir cair na armadilha da desumanização. Pacientes não são vitrines. Não são “cases de marketing”. São pessoas com história, dignidade e direito à preservação de sua imagem.
Mais do que nunca, é necessário que os Conselhos assumam um papel ativo, não apenas punitivo, mas também educativo. Que estabeleçam diretrizes claras, fiscalizem com rigor e promovam uma cultura profissional alinhada aos princípios da bioética. A saúde não pode ser transformada em espetáculo. E a dor, muito menos, em propaganda.
*Advogado criminalista e jornalista
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