Por Rinaldo Remígio*
Nestes últimos dias, ao percorrer as páginas dos blogs, ouvir as rádios do nosso Pernambuco e acompanhar as entrelinhas das declarações políticas, me deparei com mais um daqueles momentos que revelam, não apenas o jogo do poder, mas, sobretudo, a essência da convivência democrática.
Li, ouvi, comparei versões — como sempre faço, com o cuidado de quem não deseja apenas repetir notícias, mas compreender o que está por trás delas. E foi assim que cheguei à fala do prefeito do Recife, João Campos, comentando a saída do ex-prefeito de Petrolina, Miguel Coelho, de sua base política, agora alinhado à governadora Raquel Lyra.
Leia maisConfesso: não vi ali um rompimento. Vi política em seu estado mais legítimo.
João Campos, jovem, mas já calejado pelo ambiente público, escolheu o caminho do respeito. Disse que há encontros e desencontros — e há mesmo. Quem viveu um pouco mais sabe que a política não é uma estrada reta; é cheia de curvas, atalhos, retornos inesperados. O que chama atenção, no entanto, não é a divergência, mas a forma como ela é tratada. Não houve ataque. Não houve desqualificação. Houve reconhecimento. E isso, convenhamos, não é pouca coisa nos tempos atuais.
Por outro lado, Miguel Coelho segue seu curso. Político de raízes firmes no Sertão, conhecedor da realidade de um Pernambuco profundo — aquele que vai além da capital e pulsa forte nas margens do São Francisco — faz uma escolha que carrega estratégia, mas também visão de futuro.
Ao se aproximar da governadora Raquel Lyra, Miguel não apenas muda de lado; ele se reposiciona. E política é isso: movimento. É leitura de cenário. É saber onde se pode contribuir mais — e, claro, onde se pode crescer.
Já a governadora, por sua vez, demonstra habilidade. Ao acolher um nome com densidade eleitoral e capilaridade no interior, fortalece sua base e, ao mesmo tempo, organiza o tabuleiro para o que virá. Não se trata apenas de governar o presente, mas de construir o amanhã.
E nós, eleitores? Assistimos. Mas não apenas como espectadores passivos. Observamos, analisamos, sentimos. E é nesse ponto que faço minha reflexão mais pessoal: há algo de positivo nesse cenário. Ver jovens lideranças — cada uma com seu projeto, com suas ambições — conseguindo divergir sem romper pontes, é um sinal de maturidade institucional.
A democracia não exige concordância permanente. Exige respeito. Divergir, sim. Romper, nem sempre. Reencontrar-se, muitas vezes.
Talvez o maior ensinamento deste episódio seja justamente esse: a política não precisa ser um campo de guerra. Pode — e deve — ser um espaço de construção, onde posições diferentes coexistem sem que isso signifique inimizade.
No Sertão, aprendemos cedo que o mundo dá voltas. Que hoje se caminha por uma vereda, amanhã por outra. Mas o que não pode se perder é a capacidade de olhar no olho, apertar a mão e reconhecer o outro como parte do mesmo chão.
Entre encontros e desencontros, Pernambuco segue escrevendo sua história. E nós seguimos lendo — atentos, críticos, mas, acima de tudo, esperançosos.
*Professor universitário aposentado, administrador, contador pela FACAPE – Petrolina e mestre em economia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), memorialista e cidadão sertanejo apaixonado por Pernambuco.
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