Não se passa um mês sem que a gestão da governadora Raquel Lyra (PSD) não esteja imersa em escândalos. O mais recente, divulgado pelo portal Metrópoles, indica que o governo dela já repassou mais de R$ 160 milhões à Cetus Construtora, uma empreiteira de Minas Gerais contratada quando já estava inscrita no Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas (CEIS), o que torna ilegal a formalização de novos vínculos com a administração pública. Nos bastidores, o caso já vem sendo apelidado de “Raquelão da Educação”, em referência ao Petrolão ou ao Mensalão.
Há ainda outros agravantes, como a seleção da empresa sem processo licitatório e sem aval da Procuradoria-Geral do Estado (PGE), o que é obrigatório para contratações acima de R$ 1 milhão. Também pesa o fato de que, na mesma época, o Governo do Estado tinha sobre a mesa uma proposta mais vantajosa na mesma ata de registro de preços – da empresa BDT Engenharia –, mas, ainda assim, optou por pagar mais caro e ficar com os valores ofertados pela Cetus Construtora.
Leia maisO contrato, inicialmente de R$ 148,2 milhões, era referente à manutenção predial de escolas da rede pública estadual, mas ganhou um aditivo de R$ 37 milhões em novembro do ano passado, chegando ao máximo de R$ 185,3 milhões. Também foram denunciadas irregularidades como cobranças em duplicidade, superdimensionamento de serviços e subcontratações atípicas, além de obras em escolas não atestadas por quem vivencia a rotina das unidades, como alunos e professores.
Vale lembrar que as denúncias de irregularidades ocorrem um mês depois de outro escândalo atingir o Governo Raquel Lyra. Entre o fim de janeiro e o início de fevereiro, o Brasil se surpreendeu ao descobrir que a Polícia Civil de Pernambuco usou um aparato ilegal para monitorar adversários políticos da governadora. O caso gerou reação de políticos, juristas e entidades de defesa dos direitos humanos. Dias depois, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal investigasse o caso, causando um constrangimento nacional para o governo pernambucano.
Um pouco antes, outro escândalo. Denúncias indicaram que a Logo Caruaruense, empresa que tinha familiares de Raquel no quadro societário, operava em situação irregular havia três anos. A companhia de ônibus acabou fechada na mesma semana, e o presidente da Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal (EPTI), Antônio Carlos Reinaux, caiu. Seu sucessor, Yuri Coriolano, não ficou nem dez dias no cargo após virem à tona conversas dele com tom racista e misógino. Um pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) chegou a ser protocolado na Assembleia Legislativa, mas acabou arquivado.
A lista ainda tem denúncias mais antigas. Em agosto do ano passado, indícios de favorecimento em uma licitação de R$ 1,2 bilhão em dez anos para a publicidade institucional do governo, por pouco, não levou a outra CPI. Já em março do mesmo ano, vieram à tona 25 pagamentos de R$ 3 milhões ao Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Garanhuns. A unidade de saúde, que tem o marido da vice-governadora como sócio, recebeu os repasses quando Priscila Krause (PSD) ocupava a função de governadora de forma interina, o que reforçou a existência de um possível conflito de interesses.
Na área ambiental, o Governo Raquel Lyra também está em maus lençóis. Denúncias sobre pagamentos ao posto de combustíveis Vila Bela, situado em Fernando de Noronha e pertencente ao irmão do secretário estadual de Meio Ambiente, Daniel Coelho (PSD), já chegaram ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE). Daniel é a autoridade hierarquicamente superior à administração do arquipélago, o que pode indicar conflito de interesses na operação. A pasta dele também está na mira de denúncias de superfaturamento nos valores pagos para a castração de animais. Enquanto, no Recife, se desembolsa R$ 175 por procedimento, a gestão estadual gasta R$ 601 por cirurgia, gerando um sobrepreço de R$ 14,2 milhões.
Com esse volume de escândalos, Raquel vem apresentando dificuldades para sustentar o argumento de que não tolera corrupção, uma de suas principais bandeiras políticas. Tanto que, no caso da empresa Logo Caruaruense, não houve resposta. Simplesmente se anunciou o fechamento da companhia de ônibus, uma decisão familiar, e não da administração pública. Já no caso do hospital ligado à vice-governadora, a única reação de Raquel foi reclamar junto ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, sobre uma fiscalização do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (DenaSUS). Sinal de que a pressão de um escândalo atrás do outro vem tirando o sono de quem sonha com a reeleição em outubro.
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