Por Roberto Almeida*
O jornalista Magno Martins publica sempre uma crônica aos domingos. É quando se dá ao luxo de deixar a política de lado, às vezes, elaborando textos com um quê literário.
Gosto de quem escreve bem. Clarice Lispector era uma espécie de maga (ou seria fada?) das letras. Luís Fernando Veríssimo, que morreu neste sábado, 30 de agosto, era um mestre da crônica. “Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca”, escreveu uma vez o genial escritor gaúcho.
“Hoje é domingo, missa e praia, céu tem de anil, tem sangue no jornal, bandeiras na avenida…”. Aos domingos, costumo lembrar o início dessa música, da parceria do Raul Seixas com o Paulo Coelho. Pegando o mesmo caminho do amigo Magno, eis aqui a minha crônica de domingo, na tentativa de escrever um texto mais elaborado, quem sabe mais profundo.
Leia maisNormalmente o título só vem depois. Mas este aí acima veio antes da primeira palavra. Política porque todos se interessam pelo assunto, até os que dizem não gostar da atividade e até demonstram rancor ou raiva em relação a vereadores, deputados, prefeitos, governadores e presidentes da República.
Na próxima terça, depois de amanhã, portanto, começa o julgamento de Jair Bolsonaro. Dele e de algumas figuras que fizeram parte do seu governo. Ele cometeu muitos crimes. É preciso ser ignorante ou fanático (os as duas coisas) para não admitir isso.
Mas o ex-presidente, basicamente, será julgado pela tentativa de golpe de Estado, que incluía um plano para matar autoridades. Ainda não será responsabilizado, dessa vez, pelo que estou informado, por negligência durante a pandemia, tentativa de vender joias que não eram suas, movimentação financeira atípica e muito mais coisa. Não dá para relacionar tudo aqui.
Basta de política, hoje é domingo! Vamos aguardar a decisão da Suprema Corte brasileira.
Futebol já tivemos desde ontem, com o time do Santa Cruz vencendo o América por 1 x 0, com um gol sofrido, na raça, marcado no final da partida. Caso o tricolor pernambucano pelo menos empate no jogo que será disputado em Natal, no próximo domingo, sairá da infame série D, que não é seu lugar, para a série C, que já é um pouquinho melhor.
E o Náutico, com um time praticamente reserva, sobrou em campo contra o Ituano de São Paulo. Três a zero e podia ter sido mais, pois a bola foi na trave duas vezes e o Hélio Borges desperdiçou uma ótima chance frente a frente com o goleiro.
Esse técnico do Timbu, o Hélio dos Anjos, sabe demais de futebol. Mesmo quando bota pernas de pau em campo exige tanto deles que terminam jogando como se fossem bons de bola.
Chegamos, enfim, a melhor parte da crônica. Mulheres! O humorista Ronald Golias, na sua famosa escolinha, uma vez disse que mulher é um luxo, é tudo. Que só pensa nelas. E quando vem a sua cabeça um caminhão, está carregado de mulheres.
A foto que ilustra o texto traz um casal de mulheres: Nanda Costa e sua companheira de 10 anos, Lan Lanh. O ensaio fotográfico foi feito por uma verdadeira artista, de nome Mari França. Ficou lindo demais. Sem apelar para a vulgaridade. O nu de Nanda está natural, bonito mesmo. No Instagram eu fiz uma notinha com a foto e coloquei um áudio de Fagner cantando “Oh My Love”, de John Lennon. O artista cearense canta um trecho em inglês e outro em português. A voz agreste de Fagner interpretando a canção na língua de Shakespeare, com acompanhamento até de violinos é uma das melhores coisas que já ouvi na música popular.
Um esclarecimento: o ensaio de Nanda e Lan teve a pretensão de recriar uma foto icônica de John Lennon e Yoko Ono, em 1980. O mesmo ano em que o Beatle foi assassinado. O ensaio conduzido pela Mari França foi feito no último 29 de agosto, o Dia da Visibilidade Lésbica.
No começo citei a Clarice Lispector, que fazia sinfonia com as palavras. A escritora, que nasceu na Ucrânia, mas passou a infância no Recife e se tornou brasileiríssima, escreveu um conto intitulado “O Ovo e a Galinha”.
É incrível como ela, refletindo sobre um ovo em cima de uma mesa, escreve tão bonito, um texto bem profundo. Outro dia, pensando nesse conto da Clarice, eu tentei o mesmo exercício tendo como objeto a cama. E contei toda uma história, fiz dezenas de reflexões a respeito do objeto que nos acolhe para descansar, dormir, fazer amor e muito mais. Não sei se consegui despertar o interesse dos meus queridos leitores e leitoras.
Mas quero que essa crônica domingueira passe a emoção do gol, a tensão do julgamento do século e a sensação que não existe nada mais belo do que a mulher. Viva o Náutico, o Santa, a Nanda Costa, Lan Lanh e Mari Fernandes.
*Jornalista
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