Novidade na corrida presidencial, o psiquiatra e escritor Augusto Cury (Avante) se coloca como o “candidato mais bem preparado” para resolver a questão da desigualdade no Brasil. Em entrevista ao podcast Direto de Brasília, o intelectual falou da postulação, da desesperança dos brasileiros e fez acenos ao Nordeste. “Muitos candidatos nunca plantaram uma horta e querem decidir o destino da agricultura”, ironizou.
Logo de cara, porque um escritor tão bem-sucedido resolve entrar para a política?
Muito obrigado pela pergunta. Quero dizer que não amo poder e não preciso do poder. Como psiquiatra mais lido do mundo, talvez eu jamais devesse entrar no teatro da política. Como escritor brasileiro mais lido no Brasil no século XXI, também não. Mas é porque eu não preciso que estou entrando. Estou me pré-candidatando porque sou contra a radicalização e a polarização, e porque sou a favor de 210 milhões de brasileiros. É o Brasil dos nossos filhos, dos nossos netos, é o Brasil dos nossos sonhos.
O Brasil é historicamente um país desigual, em especial com o Nordeste. Como enxerga a região?
O Nordeste brasileiro é mais do que uma região, é uma poesia. Conheço todos os estados do Nordeste, tenho um caso de amor com a população nordestina, que é uma das populações mais generosas, mais altruístas e mais solidárias do mundo. E o Nordeste, em destaque o semiárido, que preenche cerca de 12% a 15% do território brasileiro, sempre foi desprezado. Se eu sentar na cadeira de presidente, o Nordeste vai ser contemplado como jamais foi. Precisamos transformar o Nordeste em centro de proteína animal, de fruticultura, de horticultura. Tenho sonhado e escrito, enquanto tem muitos candidatos que nunca plantaram uma horta e querem decidir o destino da agricultura.
De que forma seria isso?
Nós precisamos transformar o Nordeste numa região de milhões de microempreendedores. Por isso também quero dizer que tenho desenhado o Banco do Empreendedor. Metade do BNDES não pode servir só às grandes empresas, tem que servir ao microempreendedor. Metade do dinheiro que vem da Petrobras, os dividendos do Banco do Brasil e da Caixa Econômica têm que suprir um Banco do Empreendedor. Temos que trazer dinheiro de fora também. Esse é o sonho que eu quero transformar em realidade no Nordeste brasileiro, e infelizmente não vejo nenhum candidato falando sobre isso. Os candidatos falam de partidos, brigam um com o outro, mas eles não pensam de maneira consistente como eu penso, porque conheci a dor humana de perto. Eu vi pessoas à beira do suicídio, pais desesperados que não conseguem alimentar os seus filhos, mães angustiadas porque não conseguem ver que seus filhos um dia terão uma oportunidade na sociedade porque não têm condições de estudar. Por isso me coloco como o candidato mais bem preparado para resolver essa gravíssima equação da desigualdade no Brasil.
Quando o seu nome foi colocado na discussão, muita gente fala de sua falta de experiência política. Como convencer o eleitor sobre isso?
Eu não tenho experiência política de fato, mas quem tem experiência levou o Brasil a esse estado. Será que quem tem experiência é de fato um bom administrador? Eu não tenho nem quero ter essa experiência política de conchavos, de proteção, de amigos, de projetos pessoais. Tenho experiência de gestão. Meus projetos abarcaram milhões de pessoas, de pais e professores. Sou empresário e não apenas intelectual, e tenho vários projetos também de prevenção de suicídio gratuitamente e de transtornos psíquicos em vários países do mundo. Não tenho a experiência clássica, mas tenha certeza de que eu tenho a experiência que os políticos tradicionais nunca tiveram. Não é um projeto Augusto Cury, é um projeto para o Brasil. E sou um colecionador de amigos, vou convidar as melhores mentes da política e as melhores mentes da iniciativa privada para construir o Brasil dos nossos sonhos.
Tem alguma estratégia para superar uma polarização em que dois candidatos somam quase 80% dos votos?
Minha mente tem o melhor do capitalismo, mas meu coração tem o melhor do social. Não o socialismo, o social, porque lidei e tratei da dor das pessoas a vida toda, fiz mais de 20 mil sessões de psicoterapia e atendimentos psiquiátricos. Eu sei o que é a dor, eu vi a dor de perto e quero comunicar para as pessoas que é possível ter um coração social, que cuida dos direitos humanos, que protege as crianças. Quero mostrar que é possível fazer uma política econômica, de Estado, educacional e industrial que contemple os 210 milhões de brasileiros. Acredito que o brasileiro é muito inteligente e vai entender a diferença de uma pessoa que não é radicalizada, que é contra a radicalização e a polarização, com mente capitalista e coração social, com 100% de projeto e 0% de ataques pessoais.
Sua obra mais famosa no mundo é “O Vendedor de Sonhos”, que inclusive foi adaptada para o cinema. O político é um vendedor de sonhos?
O vendedor de sonhos não é um vendedor de ilusões. O vendedor de sonhos no livro é alguém que ensina as pessoas a nunca desistirem da vida. A cada 40 segundos uma pessoa morre pelas próprias mãos. Suicídios, a cada 4 segundos, alguém pensa em suicídio. E toda pessoa que, na verdade, pensa em suicídio ou tenta o suicídio, na realidade, tem fome e sede de viver, não quer matar a sua vida, quer sim eliminar sua dor, sua angústia e sua ansiedade. Então o vendedor de sonhos na obra é alguém que resgata as pessoas. Eu não quero ser um vendedor de ilusão em hipótese alguma. Minha pré-candidatura é muito séria, foi muito pensada e não de hoje. Há mais de 12 anos eu tenho falado para minha família desse desejo.
Como foi a reação deles?
Quando comentei com as minhas filhas e com minha esposa, elas choraram. Em hipótese alguma elas queriam que eu enfrentasse essa batalha, que entrasse num ambiente onde há tantas pessoas que se digladiam, que criticam outros sem generosidade, que amam o poder e querem fazer de tudo para alcançar o poder. Eu não amo poder, não preciso do poder, eu tenho o que esses políticos sonham e talvez nunca alcancem, que é prestígio nacional e internacional. Portanto estou fazendo porque não preciso, estou fazendo porque eu tenho um caso de amor com a sociedade brasileira e com a humanidade. Temos que fazer o Brasil grande, mas temos que fazer também a humanidade grande, porque afinal de contas a vida é muito breve e nós devemos amar a nossa família chamada família humana.
O que apontaria como o grande diferencial da sua postulação?
A minha voz talvez seja a única que aborda 100% de projetos e 0% de ataques pessoais. Reitero, a minha voz como pré-candidato à Presidência da República é a única contra a polarização e contra a radicalização.
Caso eleito, já iria trabalhar pela reeleição, como é comum de se ver pelo Brasil?
Quero mudar a regra do debate. Se eu tiver o privilégio de ser o presidente do país, quero ser por quatro anos. Eu não sou contra a reeleição, porque o poder não me seduz. Mas eu quero preparar o caminho para novos líderes, para que façam melhor do que eu. Porque o culto à celebridade, o culto ao poder, para mim são sintomas de uma sociedade doente. Meu objetivo é preparar os alicerces para os próximos 25 anos do Brasil até 2050. Não um projeto de partido, de Augusto Cury. Eu passo logo. Daqui a pouco eu vou para a solidão de um túmulo, eu morro como qualquer mortal. Temos que deixar um legado para os nossos filhos, os nossos netos, para os estudantes, para as mulheres, para os adultos e também para os idosos.
Doutor, as campanhas presidenciais são cada vez mais caras, cifras de dezenas de milhões. Como lidar com isso, já que seu partido não figura entre os maiores de recursos financeiros?
Bom, eu quero fazer a campanha mais barata, sem fundo partidário, mais pacífica, mais inteligente e mais propositiva da história do Brasil. Este é o meu sonho, e eu tenho contagiado todo o meu time com a tese de 100% projetos e 0% de ataques pessoais. E vocês sabem, grande parte das pessoas rejeita os primeiros colocados. É talvez a política decidida pela rejeição. Como pode isso? É a era da desesperança. Eu quero mostrar que é possível fazer um novo tipo de política, elegante, generosa, inteligente e regada a propostas. Eu quero fazer 10 mil comitês, 10 mil clubes de empreendedorismo, 10 milhões de empreendedores, um Banco do Empreendedor para contemplar os sonhos dos jovens e dos adultos. Se eu anunciar isso, quem sabe cada vez mais a sociedade brasileira vai voltar a ter um romantismo para mudar esse país, e não vai ficar em duas famílias, a família Lula da Silva e a família Bolsonaro, dois grupos lutando entre si.
O senhor falou também que entrou em contato com a dor de muitas pessoas. Qual é a maior dor do Brasil hoje?
É não ter esperança, é saber que a comida está muito cara. Talvez mais de 100 milhões de brasileiros vão ao supermercado e percebem que seu salário não consegue nutrir suficientemente a família, não há esperança de oportunidade de trabalho. A maior dor hoje é saber que há 53 milhões de famílias no Bolsa Família, mas elas não podem assinar carteira ou ter uma microempresa para complementar sua renda, porque o governo federal pune com a perda do benefício. Eu ajustarei o Bolsa Família. É um notável projeto, mas precisa de ajustes. Há muitas dores que invadem o brasileiro, talvez a dor também do radicalismo e da polarização, ninguém aguenta mais duas famílias, dois grupos lutando contra si e esquecendo 210 milhões de brasileiros que estão no meio. Não é possível isso, por isso estou me colocando como pré-candidato, por amor ao brasileiro e à nação brasileira, por amor aos meus filhos, aos meus netos, aos filhos de vocês e aos seus netos.


















