Por Antonio Magalhães*
O ovo, uma maravilha da engenharia biológica, vem transcendendo suas funções vitais de reproduzir a vida em seres ovíparos e alimentar animais e humanos para atuar na política brasileira com muito destaque: um poderoso togado, conhecido como “cabeça de ovo” por sua calvície, complica mais a vida dos brasileiros do que os efeitos negativos pelo consumo descontrolado do alimento.
Como efeito colateral por críticas a esta figura ovoide, o fulano corre o risco de sofrer uma investigação policial, processo judicial ou até mesmo prisão. Um perigo pior do que a infecção pela bactéria Salmonela, que infecta 1% dos ovos de galinha e pode levar à morte crianças e idosos. E, curiosamente, como o ciclo reprodutivo das galinhas que libera um ovo a cada 24 horas, o espaço de tempo das crises políticas nacionais têm quase o mesmo ritmo: uma denúncia de corrupção ou outro mal-feito é substituída por um crime semelhante em dias, assim sucessivamente.
Leia maisDias desses, o próprio presidente Lula fez uma analogia com o ovo de uma serpente e o bolsonarismo. No entender do governante petista, a transparência natural do ovo permite claramente ver o réptil já perfeito que nascerá. Lula repete uma metáfora, difundida por um filme de Ingmar Bergman, de 1977, para algo que parece inofensivo no início, mas que guarda um mal terrível em gestação, prenúncio de uma catástrofe futura. Esta é a visão própria do presidente, sem comprovação, de que seria um risco para a democracia a eleição de Flávio Bolsonaro para a Presidência da República. Pura falação.
E neste mundo da política, o ovo tem sido também uma arma de protesto contra autoritários, uma saraivada de claras e gemas voadoras contra aqueles que traem seus eleitores ou cidadãos. Uma expressão crítica costumeira que vem atingindo governantes e seus egos gigantes. Hoje, os seguranças das “celebridades” têm sempre à mão um guarda-chuva, o instrumento mais eficaz para proteger o chefão ou chefona do bombardeio aéreo do “Gallus gallus domesticus”
Diante de tanta negatividade registrada nos parágrafos anteriores, há uma metáfora antiga que aponta o ovo com um poder criativo e de inovação de quem fez algo primeiro: é o chamado “Ovo de Colombo” que apresenta soluções simples e óbvias para problemas que pareciam impossíveis, mas que só são reconhecidas após serem reveladas. A lenda diz que Cristóvão Colombo, descobridor da América, equilibrou um ovo quebrando sua ponta, respondendo aos críticos que qualquer um poderia fazê-lo, mas só ele teve a ideia.
Talvez o Brasil precisasse de um Cristóvão Colombo com suas soluções simples e óbvias para desfazer este nó jurídico que foi imposto ao país pelos ministros da Suprema Corte. O Colombo imaginário apenas sugeriria obediência a Constituição Federal de 1988 na sua plenitude, determinando o respeito a toda legislação infraconstitucional. Simples assim. Seria um passo gigantesco em direção à democracia plena.
Já o ovo na história, no mundo da imaginação e na fé cristã aponta para a possibilidade de renascimento. A casca rompida é a vida que recomeça. Durante séculos ele tem estado à mesa como símbolo de celebração e abundância, sentimentos tão bem registrados plasticamente pelo artista pernambucano Francisco Brennand nas suas esculturas defronte do Marco Zero do Recife. É o alimento do dia a dia dando lições profundas de vida. É isso.
*Jornalista
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