A ex-deputada federal e pré-candidata ao Senado, Marília Arraes (PDT), avalia que a eleição desse ano será novamente “crucial para a democracia”. Em entrevista ao podcast ‘Direto de Brasília’, ela analisou o cenário nacional, com escândalos pipocando no palanque do adversário Flávio Bolsonaro (PL), reforçou a importância de união em torno do presidente Lula (PT) e disse que seria importante que a governadora Raquel Lyra (PSD) saía “de cima do muro” para que o petista possa ter mais um palanque em Pernambuco.
A senhora está como pré-candidata ao Senado pelo campo do presidente Lula, que já ressaltou a importância de ter aliados na Casa devido aos tensionamentos, como o caso do Jorge Messias. Como avalia o quadro atual?
Acredito que ficou bem claro para o Brasil o que houve no Congresso Nacional. Foram dois recados em dois dias seguidos, a rejeição do nome de Messias e a derrubada do veto do presidente Lula ao PL da Anistia disfarçada, que eles chamam de dosimetria. E o recado é que a politicagem está acima dos interesses do povo. Isso leva a uma urgência ainda maior de renovação para a Casa. O centrão, que não está preocupado em dar suporte às políticas públicas necessárias para o povo, promoveu uma tentativa de barganha em relação a alguns assuntos que eram de interesses pessoais desses parlamentares. Por exemplo a CPI do Banco Master.
Leia maisE como responder a isso?
Também é necessário que o presidente Lula mande esse recado institucional de que ele não vai se render à politicagem que está sendo feita no Congresso Nacional. E mandar o recado para a população que é urgente que a gente fazer essa mudança em 2026. Esse ano vai ser praticamente uma nova Constituinte, em que a gente vai estabelecer a maioria necessária para defender a Constituição promulgada em 1988, e defender a nossa democracia, que é muito jovem, para que a gente possa consolidar o processo democrático no Brasil, que vem sendo construído desde a década de 80.
Foi noticiado que o presidente Lula vai insistir com a indicação do Jorge Messias, que é pernambucano, para o Supremo Tribunal Federal (STF). Na sua visão, seria uma decisão correta ou ele deveria colocar outro nome depois do que ocorreu no Senado?
Quem sou eu para contestar uma decisão do presidente. O que tenho a dizer é que concordo totalmente que Messias é um grande nome, principalmente da nossa geração. Fui contemporânea dele no curso de Direito na Universidade Federal de Pernambuco. Desde sempre ele foi extremamente dedicado, é um dos quadros jurídicos mais preparados do Brasil, tem esse compromisso em defender a democracia, que é o papel da Suprema Corte. Acho que é uma decisão acertada do presidente Lula, infelizmente nós não estamos lá ainda para fazer a defesa dessa proposta, mas vamos estar aqui torcendo.
Essa semana houve o episódio com o Flávio Bolsonaro (PL), que acabou por aumentar a diferença nas pesquisas, que vinham equilibradas. Acha que ele estaria ficando inviabilizado?
Se a pré-candidatura dele está em viabilizada ou não, é uma avaliação dele e do grupo político dele. Agora, fiquei estarrecida de que ele tinha tomado para si o papel de acusador de que o Banco Master era do presidente Lula, quando não tem nenhum indício de qualquer contato com o banqueiro Daniel Vorcaro. E Flávio sabia que trocava áudios, que tinha pedido dinheiro, que Vorcaro tinha destinado milhões para essa biografia, que mais deve ser um filme de terror, do pai dele. E teve a grande hipocrisia de chegar e acusar. Isso que me deixou estarrecida.
Esse escândalo seria então uma pá de cal, como se diz no jargão popular?
Ele teve envolvimento com miliciano, com rachadinha, com lavagem de dinheiro, com loja de chocolate, com compra de diversos imóveis em dinheiro vivo. Teve envolvimento em vários escândalos de corrupção, o pai dele roubou joias que eram presentes oficiais para o estado brasileiro. O fato dele estar envolvido em mais um escândalo de corrupção não me deixa estarrecida, mas sim que ele tinha tido a imensa cara de pau de chegar e fazer um papel de acusação de que a esquerda que era envolvida com o Banco Master, quando está provado que é ele que está envolvido até a testa, nem é até o pescoço. O que a gente precisa fazer aqui é fortalecer a pré-candidatura à reeleição do presidente Lula, para que a gente garanta um projeto popular no Brasil, defendendo a democracia, para que o povo pobre volte a ter lugar no orçamento da República.
Os produtores negaram que haja dinheiro do banco Master no filme. Há suspeitas de que esse dinheiro que ele pediu tenha sido para manter o irmão Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A senhora também tem essa suspeita?
Não cabe a mim suspeitar de algo ou não. O que eu digo é que não me surpreenderia se fosse verdade, porque é uma prática da família Bolsonaro. Isso sim já é comprovado, é uma prática, eles são usuários de expedientes de corrupção para manter suas benesses. Se isso for verdade, realmente não me causará surpresa alguma coisa.
A eleição para o Senado é crucial para o campo progressista hoje?
Na verdade, tem sido prioridade do presidente Lula já há algum tempo, desde a eleição passada, quando ele disputou seu terceiro mandato. Mas a gente está vendo que cada vez mais há um conflito, uma crise institucional no Brasil que precisa ser solucionada e pacificada. Para isso precisamos ter uma representatividade importante no Senado Federal, garantir uma maioria de senadores e senadores que defendem a democracia, que defendem o campo progressista e que garantam a governabilidade do presidente Lula. Esse direcionamento do presidente é acertado, e a estratégia está sendo montada no país para que a gente tenha uma maioria progressista na Casa.
Acredita que pode haver debate sobre pedidos de impeachment de ministros no do STF em breve?
É importante que a gente tenha uma maioria para justamente evitar determinadas questões que afetam a democracia, a soberania nacional, os interesses da população, a governabilidade e a harmonia entre as instituições. O Senado é a casa da maturidade, em que há ponderações necessárias e não há lugar para extremismos. A gente tem que ter diálogo, tem que voltar a estabelecer a pacificação do Brasil. Quando se fala de impeachment de um ministro do STF ou de presidente da República, é algo muito grave. Que recado a gente passa para o exterior? Qual a segurança que o Brasil está passando para o investidor que vem de fora? Isso vai se refletir na economia, na vida do trabalhador e da trabalhadora. Tudo isso precisa ser ponderado pelo Senado Federal, que é a casa da maturidade, e esperamos estar lá para participar dessa discussão com muita responsabilidade.
Qual seria sua posição em relação a um eventual pedido impeachment de ministros do Supremo?
impeachment do ministro do Supremo é algo que tem que ser feito só em último caso, e com todas as provas possíveis. Tenho uma responsabilidade muito grande em defender a Constituição, em avaliar juridicamente todas as situações. A gente não pode chegar e defender impeachment de um ministro da Suprema Corte Nacional simplesmente por questões políticas, porque a gente acha que ele está tomando posições políticas a favor de um lado que nos desagrada. Ter políticos atacando a Suprema Corte é muito grave. Há 10 anos, quando a gente estava lutando contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), eu jamais ataquei as instituições. A gente tem que ter respeito por essas figuras, então é preciso uma investigação muito aprofundada e uma justificativa jurídica muito além da política para que a gente possa avaliar um processo de impeachment de um ministro da Suprema Corte. Tem que ser feito com responsabilidade com o Brasil.
Essa pauta então seria apenas dos candidatos bolsonaristas…
Sem dúvida. Quem está defendendo isso é o bolsonarista que ataca as instituições sempre, que quer ver o Brasil em guerra. A gente quer ver o Brasil em paz. Passamos por várias questões, a Lava Jato, o golpe parlamentar, jurídico e midiático que houve com a presidenta Dilma, onde ela sequer foi declarada inelegível. A gente passou por tudo isso e ninguém nunca viu a esquerda e a centro-esquerda pedindo impeachment de ministro do Supremo. A gente está vendo esse debate agora. De antemão, posso dizer que sou contra impeachment de ministro do Supremo. A gente precisa ter diálogo e harmonia entre os três poderes, que aliás existem para serem harmônicos e contribuírem entre si para o desenvolvimento, o progresso e a democracia do país.
A senhora teve atritos no passado com seus companheiros de chapa, João Campos (PSB) e Humberto Costa (PT). O clima hoje está 100% pacificado?
É sempre bom a gente deixar claro algumas questões. A política é a arte do diálogo e de construir pontes. O fato de haver alianças não significa que há 100% de convergência, muito pelo contrário. Significa que temos a maturidade de passar por cima de eventuais divergências e priorizar as convergências. Houve sim alguns desentendimentos de natureza política, não diretamente com o ex-prefeito João Campos, mas com o conjunto de que ele fazia parte na época, em relação a posicionamentos político ideológicos. Foi sempre foi essa nossa questão e discussão. Hoje o PSB e João Campos são uma base importantíssima de apoio ao presidente Lula e à democracia. Nossa aliança começou num momento extremamente crítico da política nacional, em 2022, quando a gente estava vivendo o embate de Lula e Bolsonaro. A gente precisou se unir para garantir que um governo popular e que defendesse a democracia fosse eleito no Brasil. Então foi uma aliança extremamente bem construída e consolidada.
E com relação a Humberto?
As eventuais divergências eram quando eu fazia parte do PT e que tínhamos divergências internas, e que obviamente foram superadas. É essencial que Humberto esteja no Senado, ninguém tem dúvida da firmeza de posicionamento dele, assim como eu tenho certeza de que o Brasil não tem dúvida de que lado eu estou. Então não tem porquê nós não estarmos juntos nisso. O projeto é muito maior, vai muito além de divergências pontuais ou do passado. A gente tem que olhar para o futuro do país, para a democracia, para o Brasil que a gente quer entregar para os nossos filhos.
A senhora chegou a conversar com a governadora Raquel Lyra, e se especulou que poderia ir para a chapa dela. Naquela conversa, a senhora já sabia que seria escolhida para a chapa de João Campos?
Sobre esse encontro com a governadora Raquel Lira, conversas fazem parte do diálogo político. Eu mesma não considero que tenha nenhum inimigo na política, de maneira alguma. Mas qualquer conversa feita comigo, eu deixo bem claro de que lado estou, o que defendo e o que pretendo fazer. Essa aliança sempre foi construída ao lado de João Campos, porque ele ideologicamente está do mesmo lado que eu. Diferente da governadora Raquel Lyra, que prefere focar em assuntos que não são prioridade para a democracia e para o Brasil, e ter uma aliança com pessoas que defendem impeachment de ministro de STF, que defenderam a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Com esse tipo de gente eu não posso me misturar. Mas não significa que a gente não trave um diálogo por Pernambuco, que a gente não possa tentar construir o melhor para o Brasil. Se ela quiser declarar apoio ao presidente Lula, acho que seria importantíssimo.
Ela não dá sinais de que faria algo nesse sentido…
Se ela fizesse, seria muito bom, mas a opção dela é diferente. Eu tenho respeito por esse posicionamento, mas sempre ficou muito claro que meu lado era o lado de Lula. E esse lado é o lado em que estão João Campos, está Humberto Costa e Sílvio Costa Filho (Republicanos), que tem seu irmão Carlos Costa na nossa chapa.
A estratégia então será nacionalizar a disputa?
Veja bem, o próprio Fernando Lyra, tio da governadora, dizia que o povo identifica bem quem está do lado de lá e quem está do lado de cá. E está bem afirmado quem defende o projeto do presidente Lula, as lideranças políticas que historicamente estiveram do lado de cá. E tem muita gente que defende Bolsonaro, como Gilson Machado, Mendonça Filho, o próprio Anderson Ferreira, no palanque da governadora. É uma pena isso, mas se ela quiser apoiar o presidente Lula, qual é o problema? A gente precisa de apoio para o presidente Lula, a gente precisa ganhar essa eleição. Então tem que sim aceitar todo apoio. Agora, o povo vai definir bem quem é do lado de lá e quem é do lado de cá. Não sei se ela vai sair de cima do muro e defender o presidente Lula, até porque ela não fez isso na outra eleição, que era crucial. E essa eleição é crucial também. Ela insiste em se colocar em cima do muro e dizer que tanto faz, acho isso uma pena. Gostaria muito de ter vários palanques para o presidente Lula, não somente aqui, mas em outros estados.
Leia menos






















