Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Ele passou de um momento a uma era. Está no caminho do trabalho, no trânsito, no elevador, no grupo da família, na notificação do celular, na conversa no bar, nas manchetes, nas redes sociais, nos palácios e nos barracos, nos gritos e nos sussurros “você viu o que aconteceu?” ou “você ainda está aí?”. O medo está em toda parte, em corações e mentes. Mergulhamos na era do medo industrializado, absoluto, solene e perene.
Antes, ele chegava em ondas: no jornal da manhã, no telejornal à noite. Agora é fluxo. A tecnologia criou o grande aquário da ansiedade, iluminado 24 horas por dia, borbulhando. Quem está dentro não dorme; cochila. A exceção agora é regra. Alerta virou rotina; prudência e paranoia se confundem. E o mundo, que sempre foi perigoso, agora parece estar à beira do apocalipse.
Leia maisUrgência é modelo de negócio. A internet não premia a verdade, premia a audiência. E nada prende mais um ser humano do que a ameaça, a sensação de insegurança. O algoritmo é pastor do pânico: conduz seus rebanhos pela trilha programada, porque sabe que, na sua métrica, o medo vale mais que a esperança. A esperança exige tempo, comparação, paciência, sonho. O medo exige um clique. É rápido, instintivo, rentável, fecha a mente e faz a pessoa se entregar inteira. Nada é realidade, apenas barulho.
A grande mídia não inventou a tragédia. Mas integra o mercado da tragédia cotidiana, seja na Ucrânia, em Minneapolis, São Paulo, Rio, Paris ou Adis-Abeba. No mundo da concorrência brutal por cliques e audiência, a política só tem dois lados, a notícia virou espetáculo e o espetáculo vive de sangue, escândalo e desgraça. O fato passou a ter formato. Paz não rende, é invisível. A percepção coletiva se deforma e a violência chega até nós cada vez mais violenta, seja em filmes, séries, stories, memes, na política, no esporte ou na arte. Está sempre lá.
Entre o medo contemporâneo e o antigo há uma diferença essencial: antes era apenas emocional, agora é estrutural. Uma parte da sociedade teme menos o assaltante do que o mês que vem. Teme não ter dinheiro para o aluguel, o mercado, os boletos acumulando, o hospital que não atende, a escola que não ensina, o Estado que não chega, os impostos que não param de subir. Um medo que trabalha em silêncio como ferrugem. Carcomendo.
A insegurança econômica virou estilo de vida. Quando o futuro deixa de ser construção para virar aposta, a mente entra em modo sobrevivência. Difícil planejar, cooperar, confiar. Pressa agora é virtude. Cautela, desconfiança.
Crime é muito mais que o batedor de carteira ou o assaltante armado. É engrenagem a controlar territórios, mercados, transportes, gás, internet, água, votos, proteção e tem até tribunal próprio. Marcha à ré civilizatória. Homem lobo do homem. Violência administrada faz o cidadão falar baixo e aprender a ser cego. Mordaça coletiva. Não precisa prender jornalista, basta fomentar a sensação de que perguntar custa caro, como quem assopra brasas no leito da fogueira.
Confiança virou artigo de luxo. Terreno perfeito para a política do medo, o atalho mais antigo do manda quem pode e obedece quem tem juízo. No poder do medo, ou você está comigo ou com meu inimigo. Sem meio termo. Reto e direto. O inimigo pode ser o comunismo, o fascismo, o golpe, o sistema, o globalismo, o Estado policial, a ditadura do Judiciário, a ditadura militar, os diferentes, LGBTQIA+, não importa. O medo é a arma mais democrática que existe: serve a qualquer ideologia.
A indústria do medo vende soluções para si mesma. Seja grande ou pequeno, caro ou barato, fugaz ou duradouro. Na vitrine está o medo de perder a reputação, o que nesta era digital significa perder a identidade. Qualquer um é destruído em minutos pelo recorte fora de contexto, a acusação vazia ou mentira bem editada. O pavor de ser cancelado, exposto, ridicularizado, perseguido.
Medo agora é cultura, linguagem, hábito. Gente se alimentando dele vorazmente: é ruim, mas é energia imediata, adrenalina pura. Viver do medo e com medo. Há aqueles com medo de Trump, os que temem globalistas, fascistas, islamitas, Deus, o diabo e há os apavorados com a perversão e a pedofilia. Para aplacar temores, uns consomem barbitúricos, outros cocaína, muitos preferem álcool, uns poucos oram. E assim o mundo vai sendo conduzido por fantasmas.
Nesta época tão desgastante e cansativa, onde a contemplação perde para a ansiedade, o vício é estar sempre conectado, ligado, alerta. O medo é a essência do sistema. Move dinheiro, elege, dá e tira poder, vende produto, justifica abuso, sustenta narrativas, aprisiona corações, amores, afetos. Esvazia a inteligência coletiva. E uma sociedade emburrecida é uma sociedade de joelhos.
Aos poucos as pessoas começam a entender que é preciso domar o medo. Tratá-lo não como realidade absoluta, mas como parte dela. Entendê-lo como um sentimento tão humano quanto a coragem, o amor ou a alegria. Shakespeare escreveu que “de todas as paixões vis, o medo é a mais maldita”. Juscelino Kubitschek sabia disso quando disse que Deus o havia poupado do sentimento do medo. Não por acaso ele se tornou o símbolo dos anos dourados do Brasil.
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