Por João Carvalho*
Eu vi o Recife mudar. Não foi de longe, nem apenas pelas manchetes que acompanho há tantos anos como jornalista. Vi de perto, como morador desta cidade, como pesquisador e também como alguém que conhece por dentro o serviço público, suas dificuldades, seus limites e o esforço necessário para transformar uma ideia em algo que realmente chegue à população. Talvez por isso o que aconteceu no Recife nos últimos anos tenha me chamado tanto a atenção.
João Campos chegou à Prefeitura muito jovem e trouxe consigo uma pressa que, a meu ver, tinha menos a ver com aparecer e muito mais com fazer. A vida das pessoas não espera o tempo da política. A mãe que precisa de uma creche, a família que mora numa área de risco, o jovem que busca uma oportunidade e a criança que precisa de atendimento médico vivem urgências reais. E foi essa sensação de urgência que começou a aparecer na cidade.
Leia maisQuando João assumiu, o Recife tinha pouco mais de seis mil vagas de creche. Quando deixou a Prefeitura, eram 19.418. Ele havia prometido dobrar a oferta e terminou entregando mais que o triplo. Mas esse número ganha outra dimensão quando a gente pensa no que existe por trás dele. São milhares de crianças acolhidas e milhares de famílias que puderam reorganizar a própria vida. São mães que passaram a ter mais condições de trabalhar e crianças que começaram a ter acesso mais cedo à educação, à alimentação e ao cuidado.
O Embarque Digital nasceu com a mesma lógica. O Recife já possuía um dos principais polos tecnológicos do país, mas muitos jovens vindos da escola pública continuavam vendo aquele universo como algo distante. A Prefeitura decidiu aproximar essas duas realidades e passou a financiar integralmente cursos superiores de tecnologia.
Ao mesmo tempo, outras áreas da cidade começaram a sentir esse ritmo de trabalho com intervenções nos morros, novas pontes, investimentos em saúde, habitação, espaços públicos e serviços digitais. Algumas obras foram criadas naquela gestão, outras foram retomadas depois de anos de espera. Mais importante do que fazer uma lista é perceber que a cidade ganhou movimento.
Talvez por isso tenha tanta força simbólica a imagem do último dia de João Campos como prefeito. Em abril de 2026, antes de deixar o cargo, ele inaugurou o Hospital da Criança do Recife Antônio Carlos Figueira. Encerrar um ciclo político entregando um hospital dedicado às crianças diz muito sobre uma forma de entender o serviço público, principalmente quando se olha para tudo o que veio antes.
É evidente que nenhuma dessas realizações pertence a uma pessoa sozinha. Uma cidade é construída pelo trabalho de servidores, técnicos, professores, médicos, engenheiros, operários e de milhares de pessoas que dificilmente aparecem nas fotografias das inaugurações.
Existem recursos vindos de diferentes esferas de governo, projetos que atravessam administrações e políticas que dependem de equipes inteiras para funcionar. Quem conhece a administração pública sabe disso. Mas também sabe reconhecer o peso que uma liderança tem para colocar uma máquina desse tamanho em movimento.
Foi exatamente isso que percebi nesses anos. Uma administração inquieta, com disposição para fazer, cobrar, entregar e procurar soluções. Uma gestão que parecia entender que um mandato passa depressa demais para quem está esperando por uma resposta. E talvez exista nisso alguma coisa daquela história que Pernambuco conhece tão bem.
Miguel Arraes compreendeu a política como instrumento para chegar à vida das pessoas, especialmente daquelas que durante muito tempo foram esquecidas pelo poder. Eduardo Campos, décadas depois, levou essa mesma disposição para outro momento da história, combinando sensibilidade social, planejamento, acompanhamento e uma enorme vontade de realizar.
João pertence a outra geração, fala outra linguagem e vive um mundo completamente diferente, mas há um fio que atravessa essas histórias.
Esse fio não é simplesmente o sobrenome. Sobrenome não constrói creche, não ergue ponte, não forma um jovem e não abre hospital. O que atravessa essas gerações é uma determinada compreensão da política, aquela em que governar significa trabalhar muito, estar perto das pessoas e entender que o resultado precisa ser percebido para além dos gabinetes.
Talvez seja isso que mais me chama a atenção em João Campos. Ele poderia ter usado a juventude como justificativa para andar devagar, mas preferiu transformá-la em energia. Poderia ter administrado a Prefeitura preocupado apenas em atravessar o mandato, mas escolheu agir como quem sabia que havia muito a fazer e pouco tempo para fazer.
Quem viveu o Recife nesses últimos anos percebeu uma cidade em movimento, e eu digo isso com a experiência de quem já acompanhou muitos governos, muitas promessas e muitos discursos.
A política ganha sentido quando toca a vida real. Isso acontece quando uma criança encontra uma vaga na creche, quando um jovem da escola pública chega à faculdade, quando uma família consegue dormir com mais tranquilidade durante a chuva ou quando uma mãe entra num hospital público com o filho nos braços e encontra atendimento.
É nesses momentos que o discurso perde importância e o serviço público mostra sua verdadeira razão de existir.
Arraes compreendeu isso no seu tempo. Eduardo também. E, olhando para o Recife que vi mudar diante dos meus olhos, percebo em João uma continuidade dessa maneira de enxergar a política, com intensidade, proximidade e vontade de realizar.
E talvez seja justamente essa disposição que Pernambuco mais precise reencontrar agora. Um estado que já foi protagonista do desenvolvimento do Nordeste não pode se conformar em viver apenas da lembrança do que já foi. Pernambuco precisa voltar a acreditar em si mesmo, recuperar sua capacidade de realizar, transformar anúncio em entrega e fazer o desenvolvimento chegar a quem está esperando por ele há tempo demais.
Há uma inquietação espalhada pelo estado. Ela está no jovem que quer uma oportunidade, no trabalhador que espera emprego, no empresário que precisa de infraestrutura, na família que cobra saúde e educação, no interior que quer crescer sem precisar olhar sempre para a capital. Pernambuco não pede favor. Pede movimento. Pede trabalho. Pede a coragem de voltar a sonhar grande.
Porque existe uma grandeza pernambucana que nunca desapareceu. Ela apenas precisa voltar a ser despertada. Está na nossa história, na nossa cultura, na capacidade de reagir, criar e avançar mesmo quando tudo parece difícil. Está numa vontade de trabalhar com o coração, aquela vontade que João já entendeu e fez disso uma meta.
Pernambuco já soube, no passado, mostrar ao Brasil a força que carrega.
Está na hora de lembrar disso outra vez.
O verdadeiro Leão do Norte precisa voltar a rugir.
*Jornalista, pesquisador e mestrando em Ciências da Religião
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