A mulher daquele vídeo não era Yasmin Qureshi, não era afegã e não estava participando de um debate no Afeganistão. Seu nome é Riham Said, apresentadora da televisão egípcia, e a cena aconteceu no Egito, em abril de 2013, durante uma entrevista exibida pela Al-Nahar TV com o xeque Youssef Badri. Quando se retorna à história verdadeira e se abandona a versão fabricada pelas redes, o episódio não perde força. Ao contrário. Torna-se mais humano, mais complexo e talvez ainda mais revelador, porque deixa de ser uma parábola construída pela internet para recuperar o conflito real entre uma mulher, um homem, uma interpretação religiosa e o direito de escolher.
Antes mesmo de as câmeras registrarem o confronto que percorreria o mundo, uma questão já incomodava Riham. O religioso havia estabelecido como condição para conceder a entrevista que ela cobrisse os cabelos. A apresentadora colocou o hijab, mas percebeu uma contradição difícil de aceitar. Fora do ar, longe dos olhos dos telespectadores, Badri conversava normalmente com mulheres que não estavam usando véu. Diante das câmeras, porém, exigia que ela se cobrisse.
Foi nesse ponto que aquilo que poderia ser apenas uma entrevista começou a revelar uma questão muito maior.
Riham quis saber por que precisava colocar o hijab somente quando o público estivesse olhando. Se o religioso podia falar com ela normalmente sem o véu nos bastidores, por que sua aparência deveria mudar quando as câmeras fossem ligadas? A pergunta atingia uma fronteira delicada entre fé e aparência, convicção e representação, espiritualidade e poder. O que incomodava a apresentadora não era simplesmente usar um lenço sobre os cabelos. Era a sensação de estar representando uma personagem para satisfazer a exigência de outra pessoa.
A conversa avançou e o ambiente se tornou cada vez mais áspero. Riham questionou o comportamento do convidado, contestou suas posições e recusou-se a assumir uma postura de submissão diante da autoridade religiosa que ele pretendia exercer naquela entrevista. Em determinado momento, levou as mãos ao hijab e o retirou.
Aquela imagem duraria poucos segundos, mas sobreviveria muito mais do que a discussão que a produziu.
Badri exigiu que ela voltasse a cobrir os cabelos. Riham recusou. Sua resposta continha o núcleo moral de tudo o que estava acontecendo naquele estúdio: se um dia usasse aquele véu por convicção religiosa, seria por Deus, não por imposição daquele homem.
É preciso compreender essa distinção para não cometer contra a própria história uma violência interpretativa.
O episódio não deveria ser apresentado como a vitória de uma mulher sobre o hijab, muito menos como uma condenação às milhões de mulheres muçulmanas que cobrem os cabelos ou o rosto por decisão própria. O véu pode representar fé, tradição, identidade, pertencimento e espiritualidade para incontáveis mulheres. Retirá-lo contra a vontade de alguém seria tão autoritário quanto obrigá-la a usá-lo. A grande questão daquela noite não estava no tecido. Estava na escolha.
Uma mulher pode desejar cobrir os cabelos e outra pode desejar deixá-los descobertos. Uma pode encontrar no hijab uma profunda expressão religiosa, enquanto outra pode entender que sua fé não exige aquilo. As duas somente serão verdadeiramente livres quando nenhuma autoridade política, religiosa, familiar ou social puder transformar sua própria interpretação em uma sentença sobre o corpo alheio.
Foi justamente essa fronteira que apareceu diante das câmeras naquele estúdio egípcio.
A liberdade raramente chega à vida das pessoas na forma grandiosa que os discursos costumam anunciar. Muitas vezes ela aparece em decisões cotidianas tão pequenas que quase passam despercebidas. Escolher uma profissão. Entrar numa escola. Caminhar sozinha por uma rua. Expressar uma opinião. Vestir determinada roupa. Descobrir os cabelos. Cobri-los. Dizer sim. Dizer não. A dimensão política dessas escolhas somente se torna evidente quando alguém tenta retirá-las.
Por isso o gesto de Riham permanece tão atual.
Treze anos se passaram desde aquela entrevista. O vídeo atravessou idiomas e plataformas, foi cortado, republicado, reinterpretado e finalmente recebeu uma identidade que nunca possuiu. Em algum ponto dessa longa viagem digital, a apresentadora egípcia transformou-se numa suposta jornalista afegã chamada Yasmin Qureshi e o Egito tornou-se Afeganistão.
Curiosamente, a falsificação encontrou força porque foi projetada sobre uma realidade em que a liberdade das mulheres realmente sofreu um dos mais violentos retrocessos do mundo contemporâneo.
Desde a retomada do poder pelo Talibã, em agosto de 2021, as mulheres e meninas afegãs passaram a conviver com uma sucessão de medidas que reduziram drasticamente sua presença na vida pública. Cinco anos depois, organismos das Nações Unidas registram mais de uma centena de decretos e determinações dirigidos aos direitos, à circulação, à educação, ao trabalho e à participação social das mulheres. A ONU Mulheres descreve o país como palco da mais grave crise de direitos das mulheres do mundo contemporâneo. A escola talvez seja a imagem mais cruel desse processo.
No mesmo mundo em que milhões de famílias acordam suas filhas pela manhã e reclamam porque elas demoram para se preparar para a aula, meninas afegãs chegam a determinada idade e descobrem que o caminho para a escola terminou. A UNESCO informou em agosto de 2026 que aproximadamente 2,4 milhões de meninas foram excluídas do ensino secundário desde 2021. O Afeganistão permanece como o único país do planeta onde meninas e mulheres são formalmente proibidas de seguir a educação além do nível primário, enquanto as mulheres continuam impedidas de frequentar universidades desde 2022.
É possível registrar esses números numa tabela e seguir adiante. Mais difícil é perceber as vidas que existem dentro deles. Cada menina afastada de uma sala de aula representa um futuro interrompido antes de começar. É uma médica que talvez nunca possa exercer a medicina, uma professora impedida de ensinar, uma engenheira que não poderá concluir sua formação, uma jornalista cuja voz talvez não alcance uma redação, uma mulher obrigada a assistir ao próprio horizonte diminuir não por ausência de talento, inteligência ou vontade, mas porque alguém decidiu previamente qual deveria ser o tamanho de sua existência.
A restrição vai muito além da escola. Dados divulgados pela ONU Mulheres em agosto de 2026 mostram uma sociedade na qual a presença feminina nos espaços públicos foi sendo progressivamente comprimida. Metade das mulheres entrevistadas relatou sair de casa apenas uma ou duas vezes por mês. Educação, emprego, justiça, saúde, circulação e participação social passaram a constituir diferentes faces de um mesmo processo de apagamento.
É impossível olhar para essa realidade e não voltar à velha imagem de Riham levando as mãos à cabeça num estúdio do Cairo.
Ela estava no Egito, não no Afeganistão. Enfrentava um religioso diante de uma câmera, não um regime que controla praticamente todas as dimensões da vida feminina. Tinha possibilidade de discordar, argumentar, retirar o hijab e deixar o programa. Muitas mulheres no mundo não possuem sequer esse repertório elementar de escolhas.
É justamente aí que uma história ocorrida no Egito em 2013 encontra, sem precisar de nenhuma falsificação, a realidade do Afeganistão de 2026.
As circunstâncias são diferentes, os países são diferentes, as personagens são diferentes, mas a pergunta atravessa as fronteiras: quem possui autoridade sobre a decisão de uma mulher?
Essa pergunta precisa ser feita com cuidado porque o debate frequentemente cai em dois autoritarismos que se apresentam como opostos, embora nasçam da mesma pretensão de controle. De um lado, sociedades e governos que obrigam mulheres a cobrir o corpo em nome da religião ou da tradição. De outro, projetos políticos que pretendem determinar como uma mulher deve vestir-se em nome de uma concepção estatal de secularismo ou emancipação.
Nos dois casos, alguém escolheu por ela. Nenhum governo liberta uma mulher substituindo uma imposição por outra. Nenhuma sociedade se torna verdadeiramente livre apenas mudando a direção da ordem. A mulher obrigada a colocar um véu e a mulher proibida de usá-lo compartilham, apesar das circunstâncias distintas, uma violação essencial: outra pessoa reivindicou autoridade sobre uma decisão que deveria começar em sua própria consciência.
É por isso que a palavra mais importante desta história não é véu. É escolha. E talvez seja essa palavra que explique por que um pequeno confronto televisivo ocorrido em 2013 continua produzindo incômodo tantos anos depois.
Quando Riham retirou o hijab naquela entrevista, não começou uma revolução no Egito. Nenhuma multidão ocupou as ruas por causa daquele gesto. Nenhum regime caiu. Nenhuma lei foi imediatamente modificada. O estúdio continuou sendo um estúdio, as câmeras continuaram registrando a discussão e o mundo prosseguiu com suas contradições.
Mesmo assim, alguma coisa importante tinha acontecido. Uma mulher foi colocada diante de uma regra estabelecida por um homem e decidiu questionar a autoridade dele para estabelecer aquela regra sobre ela. É nesse instante que uma discussão sobre religião deixa de ser apenas uma discussão sobre religião e passa a revelar uma questão muito mais antiga: o poder.
Poder para estabelecer comportamentos. Poder para definir aparências. Poder para determinar quem pode estudar, trabalhar ou circular. Poder para dizer quais palavras uma mulher pode pronunciar, quais espaços pode ocupar, até onde pode ir e de que maneira deve apresentar seu próprio corpo à sociedade.
Toda forma de poder revela sua natureza quando encontra alguém mais vulnerável sobre quem pretende exercer controle. E poucas histórias humanas demonstram isso com tanta persistência quanto a longa disputa pelo direito das mulheres de governarem a própria existência.
Durante séculos, decisões fundamentais da vida feminina foram tomadas por outras pessoas e frequentemente apresentadas como proteção, tradição, moralidade, costume ou destino. Em diferentes tempos e sociedades, mulheres precisaram lutar para estudar, votar, administrar seus próprios bens, escolher uma profissão, terminar um casamento, participar da política, publicar livros, comandar empresas e ocupar espaços que hoje parecem naturalmente seus.
Nada disso foi concedido porque o mundo espontaneamente percebeu que estava errado. Direitos avançaram porque alguém decidiu contestar aquilo que parecia definitivo.
Por isso a cena de Riham Said merece ser observada para além do impacto visual de uma mulher retirando um véu. O instante mais importante não está nas mãos que alcançam o tecido. Está na consciência que antecede o movimento. Antes de retirar alguma coisa da cabeça, ela retirou daquele homem o poder de decidir em seu lugar.
Essa é a imagem que permanece. E ela permite olhar novamente para o Afeganistão, não para confundir duas histórias, mas para compreender o abismo existente entre possuir escolha e viver sem ela. Quando uma menina não pode entrar na escola porque o governo decidiu que sua educação terminou, a questão é poder. Quando uma mulher encontra portas fechadas no mercado de trabalho, a questão é poder. Quando precisa calcular se poderá sair de casa, com quem poderá caminhar e qual parte do corpo deverá esconder para evitar punição, a questão continua sendo poder.
Nenhuma dessas mulheres precisa retirar um véu diante de uma câmera para demonstrar coragem.
Para algumas, coragem é continuar estudando escondida. Para outras, é ensinar. É trabalhar. É escrever. É insistir em existir no espaço público. É preservar dentro de casa a convicção de que a realidade imposta ao redor não constitui necessariamente o destino reservado às suas filhas.
Existe uma tendência confortável de imaginar a coragem sempre em cenas espetaculares, mas algumas das resistências mais profundas acontecem sem testemunhas. Uma mulher pode desafiar uma estrutura inteira simplesmente recusando permitir que essa estrutura ocupe sua consciência.
Talvez por isso seja importante corrigir a identidade daquele vídeo. A internet criou uma heroína chamada Yasmin Qureshi porque talvez acreditasse que a verdade precisava de alguma ajuda para ser comovente. Não precisava. Riham Said estava ali.
Seu nome existia. Sua história existia. Seu enfrentamento existia. O religioso diante dela existia. As câmeras registraram o momento. O diálogo foi preservado. O conflito era suficientemente forte sem que fosse necessário transferi-lo ao Afeganistão ou inventar uma biografia para sua protagonista.
O jornalismo perde sua razão de existir quando começa a acreditar que uma mentira emocionante vale mais do que uma verdade complexa.
Neste caso, a verdade é melhor. Porque ela permite contar duas histórias sem falsificar nenhuma delas.
A primeira pertence a uma apresentadora egípcia que, em abril de 2013, recusou-se a aceitar que um religioso determinasse como deveria apresentar-se diante das câmeras. A segunda pertence a milhões de mulheres e meninas afegãs que, em 2026, continuam vivendo sob um sistema que avançou justamente sobre esse território íntimo da escolha e transformou decisões pessoais em regras públicas.
Entre o Cairo daquele estúdio e o Afeganistão de hoje existe uma enorme distância geográfica, política e cultural. O que aproxima essas realidades não é uma peça de roupa. É uma disputa que acompanha a humanidade há muito tempo: quem possui o direito de escrever o destino de uma mulher?
Uma sociedade pode proclamar sua grandeza, celebrar suas tradições, exaltar seus valores e produzir discursos intermináveis sobre moralidade. Mas existe uma medida muito mais simples para avaliar o espaço real concedido à liberdade feminina.
Basta observar o que acontece quando uma mulher diz que deseja decidir.
Decidir se estuda. Decidir se trabalha. Decidir em que acredita. Decidir com quem se casa. Decidir se fala. Decidir se fica. Decidir se parte. Decidir como veste seu corpo. Decidir se cobre os cabelos. Decidir se não os cobre.
O grau de liberdade começa a aparecer na resposta que ela recebe. Riham recebeu uma ordem para recolocar o hijab e respondeu que não o usaria por causa daquele homem. Talvez esteja justamente nessa resposta a parte mais poderosa de toda a cena, porque ela não rejeitou a possibilidade da fé. Rejeitou a apropriação da fé por alguém que pretendia transformá-la em instrumento de autoridade sobre sua escolha.
Treze anos depois, assistir novamente ao vídeo significa compreender que o seu verdadeiro conteúdo nunca esteve apenas no instante em que uma mulher descobriu os cabelos. Está no momento em que ela reivindicou para si a responsabilidade de decidir por que os cobriria ou deixaria de cobri-los.
A distinção parece pequena. Na verdade, separa liberdade de submissão. Foi por isso que o mundo olhou.
E talvez continue olhando porque, apesar de todos os avanços que a humanidade gosta de celebrar, milhões de mulheres ainda vivem em lugares onde decisões elementares continuam dependendo da autorização de governos, autoridades religiosas, estruturas familiares e códigos sociais construídos sem que elas tenham participado de sua elaboração.
A velha gravação de 2013 sobrevive porque não pertence apenas ao seu tempo. Ela nos alcança agora.
Alcança cada sociedade que pretende discutir o corpo feminino sem ouvir a mulher que vive dentro dele. Alcança cada governo convencido de que pode transformar moralidade em coerção. Alcança cada religião quando a experiência espiritual de uma pessoa corre o risco de ser substituída pela autoridade de outra. Alcança também aqueles que, em nome da libertação, gostariam de determinar o que uma mulher deve retirar, vestir ou abandonar.
No fim, a história retorna ao ponto onde tudo deveria começar. Não ao véu. Não ao homem. Não à câmera. À mulher.
Porque uma liberdade que não inclui o direito de escolher deixa de ser liberdade no momento em que a escolha se torna inconveniente para alguém.
Riham Said não era Yasmin Qureshi. Não era afegã. Não estava em Cabul e não retirou uma burca durante um debate sobre direitos femininos. Era uma apresentadora egípcia diante de um religioso que condicionara a entrevista ao uso do hijab. Ela questionou essa condição, confrontou a contradição que enxergava e decidiu retirar o véu que havia colocado para recebê-lo.
A história verdadeira não precisa da fantasia que as redes lhe acrescentaram. Ela já carrega tudo aquilo que importa. Uma mulher. Uma imposição. Uma escolha.
E a coragem necessária para lembrar ao mundo que, antes de qualquer governo, tradição, interpretação religiosa ou expectativa social, existe uma consciência que pertence somente a ela.
Quando uma mulher decide por si mesma, talvez o gesto dure apenas alguns segundos.
Mas a liberdade reconhece imediatamente o seu significado.
Leia menos