Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
A deputada Tabata Amaral (PSB-SP) foi processada por um famoso site de fofocas na internet, que tem nada menos que 25 milhões de seguidores. O site queria – não conseguiu – que ela retirasse um vídeo na qual ela mostrava um curioso processo.
No meio das notas em que contava que o ex-BBB tinha começado a namorar modelo famosa, o site começava a publicar notícias sobre políticos, algumas elogiosas e outras críticas. Depois, críticas ao Banco Central, quando o banco começou a tomar medidas até liquidar o Banco Master. E que coincidência havia por trás de mesclar sua fofoca costumeira com notas políticas? O patrocínio de uma importante casa de apostas do tipo bet.
Leia mais“Percebe a engrenagem?”, questiona Tabata. “Essa máquina de fofocas entra em ação quando certos interesses precisam ser defendidos”. Tabata faz o fio do processo. “Dinheiro de aposta financia página de entretenimento; página de entretenimento faz propaganda política disfarçada de entretenimento; página disfarçada ataca quem investiga a corrupção e promove quem protege o esquema”, enumera ela.
Eis aí mais um risco do bilionário esquema das bets: o jogo que hoje vicia e adoece famílias quer eleger sua bancada política. “Enfrentamos hoje o maior lobby existente no Brasil”, acusa Tabata Amaral, em conversa com o Correio Político. Na semana passada, ela e um grupo suprapartidário, do qual fazem parte desde a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), à esquerda, à senadora Damares Alves (Republicanos-DF), à direita, lançaram no Congresso a campanha “Brasil contra as bets”, destinada a coibir o crescimento desse tipo de aposta no país.
O atual peso publicitário das bets não precisa nem ser descrito em números. É evidente a qualquer momento em que se ligue uma televisão. Vai crescer fortemente às vésperas da Copa do Mundo. Mas, como mostra Tabata, pode seguir de forma mais subliminar até outubro, quando acontecerão as eleições para presidente, governador e parlamentos.
O movimento do qual faz parte Tabata não quer proibir o jogo. Mas restringir o seu avanço, especialmente a partir da publicidade. Estabelecer que haja sobre ele o mesmo tipo de restrição de propaganda que há hoje no Brasil sobre cigarros e bebidas alcoólicas, o que reduziria fortemente a sua presença.
O grupo integrado por Tabata Amaral é iniciativa da Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental. Porque a epidemia das bets já se tornou um caso grave de saúde pública. Segundo relatório do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), 1,4 milhão de brasileiros têm hoje Transtorno de Jogo.
Diz ainda o estudo do Ieps que um impressionante número de 10,9 milhões de pessoas já têm hoje envolvimento com jogos de apostas com potencial de dano de saúde mental. São potenciais viciados que irão engordar o segmento de mais de um milhão que hoje a saúde brasileira já trata.
É perigoso, portanto, alerta Tabata Amaral, que tudo isso hoje aconteça livremente, com forte exposição de propaganda. Que não somente estimula novos apostadores pelo esporte, patrocinando times e campeonatos de futebol, como também irriga páginas de influenciadores que tratam de eleger uma bancada do jogo.
Disposta a enfrentar esse lobby, Tabata compara a luta com a que conseguiu aprovar o Estatuto da Criança e Adolescente para ambiente virtual, que ficou conhecido como ECA Digital. “O movimento não começou com o vídeo do Felca. O vídeo do Felca o impulsionou”, explica ela.
Tabata refere-se ao vídeo no qual o influenciador Felca mostrava o processo de adultização de crianças a partir de páginas na internet. O trabalho de Felca chocou o país e criou o ambiente para a aprovação do ECA Digital. “Precisamos agora chocar o país com a ameaça das bets”, diz Tabata Amaral.
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