Por Thomas Traumann
Do jornal O Globo
A política é a única atividade em que se pode ressuscitar sem precisar morrer antes. Em três anos e três meses como ministro da Fazenda do terceiro governo Lula, Fernando Haddad morreu e reviveu meia dúzia de vezes. Foi torpedeado por outros ministros, abandonado pelo Congresso e viu seu sobrenome transformado em “Taxad”, numa chacota com a alta dos impostos.
Ao mesmo tempo, ajudou a aprovar a ambiciosa reforma tributária, tirou do papel a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais e comandou o crescimento do PIB por três anos seguidos, os maiores feitos de Lula 3. Na última quinta-feira (19), depois de meses de suspense, Haddad anunciou que será novamente candidato do PT ao governo de São Paulo. Com chances reduzidas de vitória, o criticado Haddad se transformou, ironicamente, na principal cartada para Lula conseguir no estado de São Paulo os votos necessários para um Lula 4.
Leia maisHaddad não era a primeira opção de Luiz Inácio Lula da Silva para ministro da Fazenda quando eles conversaram em novembro de 2022, em Sharm El Sheikh, cidade egípcia que sediou a Conferência de Meio Ambiente da ONU. Sem se fixar num nome, o então presidente eleito chegou a pensar no senador Jaques Wagner. Mas Haddad tinha um plano. Ele enumerou a Lula as várias renúncias fiscais obtidas por grupos econômicos ao longo dos governos Dilma, Temer e Bolsonaro e como esses recursos poderiam bancar a concretização da promessa eleitoral de “botar o pobre no orçamento e o rico no Imposto de Renda”. Haddad saiu da conversa como ministro.
“Haddad tem um plano” foi a frase mais repetida nas entrevistas com seus agora ex-auxiliares.
A relação entre o presidente e o ministro, contudo, começou ruim e teve pontos mais baixos do que altos. Ainda antes da posse, Lula desautorizou a decisão da Fazenda de repor os impostos federais sobre combustíveis, e permitiu que o adiamento fosse anunciado pela então presidente do PT, Gleisi Hoffmann. Em janeiro, sem combinar previamente com Haddad, Lula disse à repórter Natuza Nery, da GloboNews, que a autonomia do Banco Central era “uma bobagem” e que a redução da meta de inflação “só obriga (o governo) a arrochar mais a economia”. O mercado financeiro, que nunca gostou de Lula, passou a considerar Haddad um pato manco.
Em 2018, publiquei o livro “O Pior Emprego do Mundo”, sobre a delicada relação entre ministros da Fazenda e presidentes. Recontando essas conexões desde Delfim Netto com Costa e Silva em 1967, até Henrique Meirelles com Michel Temer em 2018, concluí que o ministro da Fazenda vive sob a pressão diária de ser demitido se não trouxer respostas positivas para índices como os da inflação, desemprego, crescimento, dívida externa, déficit e juros. O presidente, em compensação, só se preocupa com um número, o da sua popularidade. A relação de Lula com Haddad serve como livro-texto da tese.
Sem a garantia de ter 100% do apoio do presidente, Haddad montou no Ministério da Fazenda uma equipe da sua absoluta confiança, como Dario Durigan, Rogério Ceron, Marcos Pinto, Robinson Barreirinhas e Laio Morais. “A gente entrou já com desconfiança da direita e sabotagem da esquerda”, lembra um dos principais auxiliares de Haddad. Por várias vezes ao longo do mandato, Haddad precisou de ajuda de ex-ministros como Aloizio Mercadante, Guido Mantega e Jacques Wagner para convencer Lula de suas ideias.
Em outubro de 2023, quando Haddad colecionava vitórias como a aprovação da reforma tributária do consumo, Lula desautorizou publicamente o fim do déficit fiscal, a principal promessa da Fazenda para o mercado financeiro. “Eu sei da disposição do Haddad, mas vou dizer para vocês que nós dificilmente chegaremos à meta zero (de déficit público). Se o Brasil tiver um déficit de 0,5%, o que que é? De 0,25%, o que é? Nada. Eu não vou estabelecer uma meta fiscal que me obrigue a começar o ano fazendo corte de bilhões nas obras que são prioritárias”, afirmou Lula.
Embate interno
Em dezembro, durante encontro nacional do PT, Gleisi Hoffmann chamou a política econômica de Haddad de “austericida” por ter imposto um limite aos gastos públicos. Lula ficou neutro na disputa.
Os ataques da esquerda do PT geravam sentimentos contraditórios no mercado financeiro. A Faria Lima havia se divertido distribuindo memes com Haddad como “Taxad”, depois que ele baixou a taxa das blusinhas chinesas. Porém, sob o ponto vista do mercado, a opção de Lula a Haddad seria pior.
No segundo semestre de 2024, o mercado se estressava com a substituição do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, por Gabriel Galípolo, ex-número 2 da Fazenda. Lula inicialmente topou um pacote ajuste fiscal, mas quando a Fazenda propôs mexer no índice de reajuste do salário mínimo e na fórmula dos gastos mínimos com saúde e educação, ele estrilou. Depois de dois meses de debates diários, Lula aceitou um pacote mínimo de ajuste, mas somente se acompanhado do anúncio da isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, que Haddad planejava divulgar em meados de 2025.
Os dois tiveram uma conversa tensa. O ministro alertou que a reação do mercado seria péssima. Lula disse que seu subordinado não entendia de política. Em duas semanas, o dólar saltou de R$ 5,70 para R$ 6,30 e só voltou depois que o Banco Central torrou R$ 20 bilhões de reservas internacionais para controlar o câmbio. A taxa Selic que estava em 11,25% ao ano chegou meses depois a 15%, maior índice em vinte anos. Lula e Haddad ficaram mais três meses sem se falar a sós.
Em 16 de fevereiro de 2025, enquanto Haddad estava em missão oficial na Arábia Saudita, Lula promoveu uma reunião com cinco ministros e dois líderes do PT na Granja do Torto para discutir a queda na popularidade com a crise do Pix, o rumor instigado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) de que o governo pretendia taxar as transações financeiras. O ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira, mostrou pesquisas indicando que as causas para a queda da popularidade eram a alta dos preços dos alimentos, a taxa das blusinhas e o boato do Pix, todos temas da área econômica.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendeu a saída de Haddad, em tabelinha com o chefe da Casa Civil, Rui Costa. Lula não aceitou a proposta, mas também não defendeu seu ministro da Fazenda. A medida de fiscalização da Receita sobre o Pix, origem do rumor de taxação, foi cancelada.
Quando finalmente Lula e Haddad voltaram a conversar, no fim de março de 2025, o ministro conseguiu que Lula aceitasse um aumento de impostos para tapar as despesas. Como a Fazenda sabia que o Congresso não iria aprovar uma nova taxa, decidiu-se aumentar a arrecadação via Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que não precisa de aprovação do Legislativo. A reação dos bancos, financeiras e comércio varejista foi tão gigante, que o Congresso considerou o novo IOF ilegal.
O Ministério da Fazenda estava sob cerco e alguns assessores conversaram sobre deixar o barco. Refugiado num restaurante simples na Vila Planalto, em Brasília, o núcleo duro da Fazenda se lamentava quando Haddad disse que a marca da sua gestão era ter enfrentado os lobbies das empresas de apostas, das fintechs e dos milionários que pagam pouco imposto. O marqueteiro do PT, Otávio Antunes, transformou a ideia na campanha da Taxação BBB: bilionários, bancos e bets. Foi a virada.
Produzida com uso de inteligência artificial, a campanha do PT do “nós contra eles” foi a primeira vitória da esquerda no campo digital. Pressionado pelos ataques nas redes sociais, o Congresso não reagiu quando o STF deu ganho de causa ao governo na cobrança do IOF e depois aprovou por unanimidade a proposta de isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, com cobrança de um imposto mínimo sobre os mais ricos como queria Haddad. De patinho feio, Haddad havia dado ao governo Lula uma espinha dorsal.
Balanço do mercado
O tom mais político de Haddad coincidiu com o rompimento das suas pontes com o mercado. Para a imensa maioria da Faria Lima, a gestão Haddad foi leniente com a dívida pública — que segundo os dados do Banco Central subiu para 78,7% do PIB — e priorizou o aumento da carga tributária, que chegou ao recorde histórico de 34,1% do PIB.
“O Haddad é sobretudo um político e um político com pretensões eleitorais fortes e de um presidente que não tem o menor apreço pelo fiscal”, critica o pesquisador do Insper Marcos Mendes, ex-secretário do Ministério da Fazenda no governo Temer. “Essa falta de convicção é o cerne do problema. O arcabouço fiscal que ele criou é cheio de exceções. Eles acham que fazem equilíbrio fiscal pelo lado da receita, sem cortes de gastos.”
Prestigiado, Haddad começou a falar em sair. Considerava que não tinha mais dívidas com Lula ou o PT, e recebeu convites para lecionar no exterior. A relação de Haddad com o presidente mistura admiração mútua e amor filial, mas também doses de cobrança e ressentimento.
A ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, derrubando o favoritismo da reeleição de Lula, obrigou Haddad a ceder às necessidades eleitorais do PT. Quatro anos atrás, Lula só venceu Jair Bolsonaro porque Haddad teve o melhor desempenho de um petista no estado de São Paulo. Agora, Haddad enfrenta o favoritismo do governador Tarcísio de Freitas, mas a sua missão real é ajudar Lula a perder de pouco num estado francamente oposicionista. Haddad vai aproveitar a campanha para defender seu legado como ministro — e quem sabe — se posicionar para o pós-Lula. Como diriam seus assessores, Haddad tem um plano.
As idas e vindas do ministro na Fazenda
- Ataques do PT – No início do de governo, a política econômica de Haddad foi chamada por Gleisi, então presidente do PT, de “austericida” por ter imposto um limite aos gastos públicos. Lula ficou neutro.
- Memes com Taxad – Haddad centralizou os ataques às decisões tributárias do governo nas redes. A “taxação das blusinhas” e a aprovação da regulamentação da reforma tributária levou a uma onda de memes.
- Novo IOF – O aumento do imposto levou a uma queda de braço com o Congresso e a uma reação no mercado, mas levou a um alinhamento no governo em favor do discurso de justiça tributária.
- Isenção do IR – A aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, com cobrança de um imposto mínimo sobre os mais ricos, virou uma das principais apostas eleitorais de Lula 3.

























