Por Marcus Prado – Diario de Pernambuco
O texto do jornalista André Guerra, “Retorno dos homens, fúria dos deuses” (“Diario de Pernambuco”, 16 de Julho/26), sobre o filme “A Odisseia”, do famoso diretor Christopher Nolan — inspirado no épico do poeta grego Homero (928a.C.998a.C.), será visto como um bom roteiro de leitura para quem deseja assistir ao filme, que promete ser um dos gigantes de bilheteria na atual temporada.
Faz lembrar, o texto de André, um tempo e tradição de profissionais ligados à Sétima Arte que passaram pela redação do DP. Isto sem falar da contribuição, como analistas de clássicos da cinematografia mundial no Suplemento Literário do DP, dos filósofos pernambucanos Lourival Vilanova, José Souto Maior e Evaldo Coutinho, professores de Filosofia da UFPE — tendo Evaldo ampliado suas pesquisas na obra monumental “A Imagem Autônoma”.
Leia maisTamanho domínio e erudição tinham sobre o tema que, se não fosse a escolha pela cátedra, teriam sido autores de obras fundamentais sobre a hermenêutica da linguagem, a essência fílmica. Para eles o filme não era apenas um produto de entretenimento ou um simples registro da realidade, mas um produto complexo que exige um processo de interpretação — uma “leitura” ativa — para desvelar as camadas de sentido que residem além da superfície da imagem.
A Odisseia, adaptada para o cinema diversas vezes, tema pleno de desafios, inspirador do filme de Nolan (Custou na nossa moeda R$ 1, 3 bilhão), é um dos pilares da literatura ocidental atribuído a Homero e centra-se no Odisseu (conhecido pelos romanos como Ulisses), A obra descreve sua jornada de dez anos para retornar a casa após o fim da Guerra de Troia.
O Odisseu de Homero não é um herói definido apenas pela força física, mas, acima de tudo, pela sua astúcia, inteligência e resiliência. Ele é o “homem de muitos recursos”, capaz de criar estratégias brilhantes — como o famoso Cavalo de Troia — para superar obstáculos que pareciam impossíveis (belo e inspirador, por sinal, o Cavalo de Troia de Francisco Brennand).
Não sei dizer se Nolan, para produzir o seu filme, teria lido, entre as suas fontes de consulta, o que disse um dos mais eruditos filósofos brasileiros, Damião Berge (1895-1978), teólogo, historiador da filosofia e frade franciscano, tão admirador de Joaquim Nabuco. Ele destaca em seu monumental livro “O Logos Heraclítico” (Editora Vozes, páginas 154-158). — já comentado por mim — o que Heráclito de Éfeso disse a respeito de Homero.
Para se ter uma ideia, o julgamento de Heráclito, no dizer de Berge, foi um dos confrontos intelectuais mais famosos de seu tempo. Vejamos: para Heráclito, o poeta épico “falhava” em compreender a realidade profunda e o Logos, a razão universal que rege o cosmos, focando apenas na superfície das coisas. “Houve ali uma incapacidade de transcender o imediato em direção ao Logos”, “o que descreve uma verdadeira condição de miopia ontológica”; “(…) imerso no fluxo incessante das aparências, é incapaz de decifrar a gramática invisível que estrutura a existência”.
“Ao focar apenas na superfície, o sujeito habita o ‘plano do ruído’. Nesse estágio, “a realidade é percebida como uma sucessão caótica de eventos, objetos e sensações sem coesão”. Heráclito, muito temido no seu tempo, o Gregório de Matos da Jõnia, teve um famoso defensor:Werner Jaeger (1888=1961), na sua também monumental “Paideia”.
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