Por Gastão Cerquinha Neto*
Enquanto alguns tentam negar as consequências das mudanças climáticas, muitos já sofrem seus efeitos, evidenciando que seus impactos atingem as populações de maneiras distintas e que a condição de pobreza é um dos principais fatores que determinam essa vulnerabilidade. O acesso à saúde, à moradia em áreas protegidas, ao ar-condicionado, ao abastecimento de água e à alimentação não chega a todos. Vivemos em um mundo de extremos climáticos e precisamos de soluções urgentes.
Estima-se que pelo menos 5 milhões de pessoas vivam em áreas de risco de deslizamentos ou inundações no Brasil. O número de pessoas em risco é bem maior quando incluímos impactos de ondas de calor, secas e incêndios florestais. Neste momento, o Rio Grande do Sul ainda se recupera da 2ª onda de cheias em menos de 15 dias nas bacias dos rios Jacuí, Taquari-Antas, Caí e Sinos, inundando diversas cidades pelo caminho, com previsão de mais uma enchente no início da próxima semana.
Leia maisA população de Goiana, em Pernambuco, foi atingida duas vezes por inundações no mesmo período chuvoso este ano. A primeira em 1º de maio e a segunda em 28 de junho. As cidades da Zona da Mata Norte, como Vicência, Timbaúba e Nazaré da Mata, são obrigadas a todos os anos conviverem com as inundações e agora com mais frequência.
Calor na Europa
Na Inglaterra, a agência ambiental declarou estado de seca em mais da metade do país, devido ao clima quente e seco que está afetando os recursos hídricos, momento em que se preveem restrições no abastecimento. As paisagens, que se assemelham às savanas africanas, e os barcos sobre o leito dos rios secos assustam e dão a dimensão dos efeitos. Mais de 20 milhões de pessoas já estão sujeitas a restrições ao uso de água.
Países como França e Itália enfrentam temperaturas que superam 10 °C acima da média para o período. Na Alemanha, quase 10 mil pessoas já morreram devido a complicações relacionadas ao calor excessivo. A Europa é o continente que mais aquece no planeta, de acordo com o Instituto Copernicus, órgão de monitoramento climático da União Europeia. Os dados têm mostrado que o continente registra taxas de aquecimento quase duas vezes superiores à média global. Enquanto o mundo aqueceu, em média, 1,4 °C em relação ao período pré-industrial, na Europa, o aquecimento médio chegou a 2,5 °C.
Enquanto as temperaturas batem recordes, países tentam recorrer a técnicas tradicionais para amenizar o calor. Assim como ocorre na Grécia, conhecida por sua arquitetura de cor branca, a França passou a pintar telhados e até as ruas de branco com tinta à base de cal. Se antes o preto do asfalto retinha o calor até derreter o piche, agora a estratégia consegue reduzir em até 5 °C a temperatura das superfícies.
Ações no Brasil
Já está terminando o prazo para que os estados e municípios apresentem ao governo federal suas prioridades e planos para o enfrentamento dos efeitos do El Niño. A ideia é distribuir as responsabilidades com quem atua diretamente com a população, atendendo as necessidades básicas.
Esta semana, durante reunião ministerial, o governo anunciou a liberação de R$ 1,3 bilhão do orçamento, especificamente para combater os efeitos do El Niño. A preocupação maior do governo são os impactos para a produção agrícola, prevista para ser afetada por secas e incêndios nos próximos meses. Além de outras ações, está prevista a aquisição de 390 mil toneladas de arroz e milho para recomposição dos estoques públicos nacionais, e a distribuição de 350 mil cestas básicas a povos indígenas, comunidades quilombolas e outros povos e comunidades tradicionais.
De acordo com a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, a situação do abastecimento de água no Nordeste está mais tranquila para os riscos de escassez. Devido às últimas chuvas na região, principalmente na bacia do rio São Francisco, os reservatórios conseguiram restabelecer um volume equivalente de 74,8%, superior aos últimos dois anos. Com essa condição, aliada à capacidade de distribuição dos sistemas do Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF), espera-se atender as necessidades de abastecimento nos quatro estados beneficiados.
Cidades-esponja
Com destaque na China a partir da década de 2010, as cidades-esponja são uma solução de planejamento urbano projetada para lidar com os desafios relacionados à água, funcionando como um sistema de drenagem que absorve, armazena e purifica a água da chuva de forma natural. O conceito combina o conhecimento tradicional milenar de agricultores com novas tecnologias ocidentais de infraestrutura verde.
O governo da China criou um programa centrado nessa ideia, lançado no final de 2014, dois anos após grandes inundações devastarem Pequim. Em vez de afastar a água com canais de concreto, essas cidades buscam imitar a natureza e incorporar soluções naturais na infraestrutura urbana. A implementação desse modelo traz benefícios climáticos diretos, pois ajuda a mitigar os impactos das ilhas de calor urbanas, auxiliando na redução das temperaturas por meio de elementos como telhados verdes, que diminuem o calor e melhoram a eficiência energética dos imóveis.
Na proteção contra inundações, essa abordagem atua em três frentes: retém a água próxima ao local onde a chuva cai com jardins de chuva e pavimentos permeáveis, reduz a velocidade do escoamento nas encostas por meio de biovaletas e vegetação e cria espaços para acomodar temporariamente a água nas áreas mais baixas e de várzea. Com isso, rompe com o paradigma de conduzir a água rapidamente para jusante, reduzindo a formação de enxurradas e a transferência das inundações para outras regiões. Para ampliar sua aplicação no Brasil, especialistas defendem um modelo híbrido que combine infraestrutura verde e cinza, adaptado às características das cidades, com intervenções descentralizadas, aproveitando espaços já existentes, como canteiros, praças e estacionamentos. Dessa forma, é possível aumentar a resiliência urbana e reduzir os impactos das mudanças climáticas.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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