A França é um exemplo emblemático desse fenômeno. Berço de uma das mais importantes revoluções da humanidade, o país que consagrou o lema Liberté, Égalité, Fraternité — liberdade, igualdade e fraternidade — viu crescer expressivamente a influência da extrema direita liderada por Marine Le Pen.
Nas eleições legislativas de 2024, o Reagrupamento Nacional (RN) obteve uma votação expressiva no primeiro turno, colocando em evidência a possibilidade de uma profunda mudança na orientação política francesa. Entretanto, a reorganização das forças republicanas, especialmente da esquerda e do centro, impediu que a extrema direita conquistasse a maioria parlamentar.
A experiência francesa demonstrou que, apesar das divergências ideológicas, a defesa das instituições democráticas pode constituir um ponto de convergência entre diferentes correntes políticas.
O fenômeno, contudo, não se restringiu à Europa Ocidental.
Na Hungria, Viktor Orbán consolidou, durante dezesseis anos, um modelo de governo marcado por conflitos com instituições europeias, questionamentos sobre a independência dos meios de comunicação e críticas ao enfraquecimento dos mecanismos de controle democrático. Sua derrota, em 2026, para Péter Magyar, representou uma importante mudança no cenário político húngaro.
Na América Latina e na América Central, o avanço das forças conservadoras também ganhou dimensão expressiva. Paraguai, Argentina, Chile, Peru, Honduras e Costa Rica registraram vitórias de lideranças e partidos situados em diferentes campos da direita. Em El Salvador, Nayib Bukele consolidou um projeto político de forte concentração de poder.
Embora esses governos apresentem diferenças significativas entre si, seus resultados eleitorais revelam uma transformação no comportamento de parcelas importantes do eleitorado, frequentemente associada ao descontentamento com os partidos tradicionais, às dificuldades econômicas e à insatisfação com a capacidade de resposta das instituições.
É preciso reconhecer, inclusive, que parte desse avanço decorre das próprias dificuldades das forças progressistas em renovar suas propostas, compreender as transformações sociais e estabelecer um diálogo efetivo com as novas demandas da população.
A esquerda precisa se reinventar. Mas essa é uma reflexão que merece um debate específico e aprofundado.
Nesse cenário internacional, os Estados Unidosexerceram papel central.
Pela dimensão de sua economia, sua influência diplomática, seu poder militar e a presença global das grandes plataformas digitais americanas, o país tornou-se um dos principais polos de repercussão das disputas ideológicas contemporâneas.
Donald Trump transformou-se em referência para movimentos nacionalistas e conservadores em diferentes regiões do planeta. Seu estilo confrontador, o discurso antissistema e os ataques recorrentes a adversários e instituições contribuíram para redefinir a linguagem e os métodos de parte da direita internacional.
Entretanto, as eleições legislativas americanas de novembro de 2026 introduziram um novo elemento nesse cenário.
A vitória do Partido Democrata, que conquistou o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, além de ampliar sua presença nos governos estaduais, representou um significativo revés político para Trump e o Partido Republicano.
Mais do que uma disputa entre duas legendas, o resultado expressou a insatisfação de uma parcela importante da sociedade americana com os rumos do governo e recolocou em evidência a capacidade de reação do sistema democrático.
A derrota republicana também altera o equilíbrio institucional dos Estados Unidos, ampliando os mecanismos de fiscalização e de contenção política sobre o Executivo.
E é justamente aqui que surge a questão central: o enfraquecimento político de Trump poderá repercutir sobre os movimentos da direita radical em outras partes do mundo?
A resposta não é simples.
O trumpismo não surgiu exclusivamente da figura de Donald Trump. Ele é também expressão de transformações econômicas, culturais e sociais profundas, alimentadas pela insegurança, pela desigualdade, pela polarização e pela descrença nas instituições tradicionais.
Por isso, seria precipitado imaginar que uma derrota eleitoral americana pudesse, por si só, determinar o desaparecimento dessas forças políticas.
Entretanto, seria igualmente equivocado subestimar a dimensão simbólica e geopolítica do resultado.
A influência dos Estados Unidos ultrapassa suas fronteiras. Mudanças importantes em seu cenário político repercutem no debate internacional, nas alianças diplomáticas e nas estratégias adotadas por movimentos políticos de diferentes orientações.
No Brasil, a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2022, já havia demonstrado a capacidade de reorganização de uma ampla frente política em torno de uma alternativa ao governo de Jair Bolsonaro. A reeleição do nosso presidente, não ficará limitada às nossas fronteiras, indo espraiar a sua influência no cenário regional e internacional.
A experiência brasileira, assim como a francesa e, agora, a americana, evidencia a importância das articulações democráticas em sociedades profundamente polarizadas.
Mas o desafio não se encerra nas urnas.
A democracia não se fortalece apenas com a derrota de projetos autoritários. Ela precisa produzir resultados concretos, reduzir desigualdades, recuperar a confiança da população e oferecer respostas aos problemas reais que afetam a vida das pessoas.
É nesse terreno que se decidirá o futuro das forças democráticas e progressistas.
E o tabuleiro político mundial, como fica?
A história não avança em linha reta. Seus movimentos são marcados por conquistas, retrocessos, contradições e reações inesperadas.
O crescimento da direita radical nos últimos anos não significou o fim da democracia. Da mesma forma, os recentes resultados eleitorais não autorizam decretar o encerramento desse ciclo político.
O que se apresenta é uma disputa aberta sobre os valores, as instituições e os caminhos que orientarão as sociedades nas próximas décadas.
A defesa da democracia, do pluralismo, dos direitos humanos, da proteção ambiental, da paz e da solidariedade continuará exigindo compromisso político, participação popular e permanente vigilância das instituições.
Talvez estejamos diante de um momento de inflexão. Não necessariamente o fim da direita radical, mas a demonstração de que nenhuma liderança, por mais poderosa que pareça, está acima da soberania popular.
Afinal, os imperadores políticos também tropeçam. E, quando isso acontece, o impacto pode ultrapassar fronteiras.
Resta saber se as forças democráticas saberão transformar esse momento em uma oportunidade de renovação política e social, o que sinceramente, espero e é provável que possa acontecer.
Porque as mudanças históricas não nascem apenas dos palácios, dos parlamentos ou das urnas. Elas também emergem das ruas, das inquietações coletivas e das vozes que, mesmo silenciadas por algum tempo, voltam a se fazer ouvir.
O som da mudança tem muitas vozes. E a história continua sendo escrita por aqueles que se recusam a permanecer em silêncio.
*Ex-prefeito do Cabo de Santo Agostinho e de Jaboatão dos Guararapes e ex-secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco.
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