Por Letícia Lins
Do OxeRecife
O Brasil perdeu um grande intelectual, pensador, transgressor, filósofo, “pai” de uma geração de cineastas que agitaram o século anterior com produção de filmes super oito, a bitola possível com que se fazia cinema nas gerações passadas. Entre os seus “filhos” encontram-se Paulo Cunha, os saudosos Amin Steaple e Geneton Moraes Neto, que não mais estão aqui para lhe prestar homenagem. Mas Paulo, hoje professor da Universidade Federal de Pernambuco, exaltou em suas redes sociais, aquele que foi um “brilhante pensador e criador” e também, um dos seus “maiores amigos”. Jomard partiu, aos 89 anos, e será sepultado às 16h deste Dia da Criança e Nossa Senhora Aparecida, no Cemitério de Santo Amaro.
Para Paulo Cunha, ele “vai fazer uma falta enorme” e “grande parte da alegria de Pernambuco adormece”. Sim, Jomard fará muita falta, aos amigos, aos alunos, aos seguidores, aos amantes dos seus “atentados poéticos”, como ele costumava chamar os irreverentes versos que costumava distribuir por e-mail para os amigos. Sua mente brilhante sempre fervilhou. Talvez por isso tenha sido um dos intelectuais perseguidos pela ditadura militar de 1964, que não gostava de seres pensantes.
Leia maisEle havia sido convidado pelo educador Paulo Freire para integrar o Serviço de Extensão da Universidade Federal de Pernambuco. Chegou a ser preso, no mesmo ano do golpe militar e até dividiu cela com o militante comunista Gregório Bezerra, um das lendas da esquerda pernambucana. Foi aposentado precocemente, mas continuava dando aulas e cursos em Campina Grande, em João Pessoa, e onde fosse chamado.
É um dos precursores do tropicalismo, e admirado por artistas como Gilberto Gil e Caetano Veloso. Também era amigo do polêmico cineasta Glauber Rocha. Foi um dos autores do primeiro manifesto tropicalista, movimento de brasilidade que pipocaria logo depois. Era impossível ficar indiferente à irreverência, à sabedoria e à perspicácia de Jomard. Ele tinha o dom de mostrar a direção, nortear vidas. Que o diga o professor de Literatura da UFPE, Anco Márcio, que o viu pela primeira vez, quando tinha apenas 17 anos e cursava o científico.
Em suas redes sociais, ele lembrou que quase ainda “um moleque”, em 1982, conheceu Jomard em uma livraria do Recife, quando este fazia uma de suas habituais performances. “Naquela noite, todo um mundo se abriu para mim”, lembra. Os dois se tornaram amigos, e para Anco, Jomard era “a mente mais inquieta que conheci, mais livre, mais transgressor, mais verdadeiro, uma metralhadora giratória”.
Convivi muito com Jomard. A gente sempre se encontrava na Rua Sete de Setembro, nos saudosos tempos da Livro 7, que reunia os intelectuais do Recife. Mas a lembrança mais inquietante aconteceu em um carnaval do Recife, quando me defrontei, na Rua da Aurora, na sexta-feira à noite com o criador de “O Palhaço Degolado” e do “Inventário do Feudalismo Cultural“. Estávamos na gestão Jarbas Vasconcelos como Prefeito do Recife, e era o primeiro ano em que a alegoria gigante do Galo da Madrugada era montada sobre a Ponte Duarte Coelho.
Penso que eu ia me encontrar na sexta-feira com o pessoal do Bloco “Nem sempre Lili toca flauta“. Ao encontrar Jomard com uma câmera, em plena Rua da Aurora, ver o carnaval fervendo na sexta-feira, e presenciar a dificuldade dos operários para acabar de montar a alegoria, brinquei com ele, na qualidade de porta-estandarte da “Troça Nóis Sofre Mais Nóis Goza”. É que ninguém conseguiua colocar a cabeça do Galo.
“Jomard, no próximo carnaval não estarei só no “Nóis sofre mais nóis goza”, pois vou fundar outro bloco em homenagem a esse Galo sem Cabeça, em pleno carnaval. O bloco se chamará “O Galo Degolado”. Passou o tempo, um dia Jomard me chama para a estreia de um filme dele, cujo título não lembro mais. Era um filme meio sombrio, todo mundo acompanhava em silêncio, mas a gargalhada era geral, quando eu aparecia, do nada, falando no “Galo degolado”. Só Jomard mesmo, para me aprontar uma dessa… Jomard era assim. Filmava o que via e o que vivia. Na foto acima, ele documenta Lula, quando este era ainda um líder operário.
Posteriormente, a cineasta Luci Alcântara fez um documentário sobre a vida e obra do nosso mestre. Hoje meu amigo Mucíolo Ferreira, que trabalhou na Prefeitura e que via Jomard lá, quando chefiava o setor de cultura da PCR, lembrou que trabalhou com ele na primeira gestão de Jarbas. “Foi dele e de Marcelo Mário de Melo a ideia de levar o carnaval do Recife para a parte peninsular da cidade. Dois gênios que tiveram o olhar futurista, vanguardista, para o que é hoje o fantástico carnaval do Recife Antigo”, diz. Da Bahia, o antropólogo Fernando Batista lamenta o encantamento de Jomard. “Foi lutar por nós do outro lado”… Que Deus o tenha, Jomard, e que você continue agitando lá por cima. Você fará falta para sempre, em nossas mentes e corações. E rogai por nós…”
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