Por João Alberto – Social 1/JC
Com uma trajetória marcada pela advocacia, pelo Direito Eleitoral, pela atuação institucional e pelo ensino, Diana Câmara construiu uma carreira pautada pelo estudo, pelo trabalho e pela defesa da Justiça. Advogada há 21 anos, foi três vezes conselheira estadual da OAB, presidiu importantes comissões, participou da criação de instituições voltadas ao Direito Eleitoral e atua há mais de 16 anos como professora. Casada com Celso e mãe de Lorenzo, Diana também encontra na família uma de suas principais fontes de inspiração. Nesta entrevista, Diana fala sobre sua formação, os caminhos que percorreu na advocacia, e os desafios e aprendizados ao longo da carreira.
O que despertou sua vontade de ser advogada?
Desde criança eu dizia que queria ser advogada. Não houve um episódio específico que determinasse essa escolha; era algo que parecia já fazer parte de mim. Sempre tive um senso de justiça muito presente, e a injustiça, em qualquer situação, sempre me incomodou profundamente. Entrei na faculdade de Direito muito jovem, aos 17 ano, com a certeza de que havia escolhido o meu caminho.
Leia maisVocê vem de uma família sem tradição na área jurídica?
Meu pai, que faleceu em 2023, era comerciante, e minha mãe, hoje aposentada, foi pedagoga e professora de escola pública. Nenhum dos dois era do Direito, mas me deram algo muito importante: valores, disciplina e a compreensão de que o conhecimento e os estudos seriam o maior patrimônio que poderiam deixar para mim. Minha trajetória profissional, por isso, foi construída passo a passo, com muito trabalho, dedicação e compromisso.
Como foi seu início?
Comecei como estagiária do Tribunal de Justiça de Pernambuco, na 7ª Vara de Família. Depois, veio a experiência em escritório de advocacia e, em 2010, fundei o Câmara Advogados, inicialmente em uma pequena sala alugada no Recife Antigo. Mais tarde, o escritório seguiu para a Ilha do Leite, onde funciona até hoje.
Tenho muito orgulho de olhar para esses 21 anos desde que me formei em Direito e reconhecer uma caminhada construída desde o início, sempre sustentada pelos valores que recebi em casa. Meu marido também não é da área jurídica, é engenheiro civil, e sempre foi um grande apoiador da minha trajetória.
Qual foi o momento que você considera um verdadeiro divisor de águas na sua trajetória?
Foi a decisão de abrir meu próprio escritório, em 2010. Eu ainda era uma advogada jovem e comecei de forma simples, em uma pequena sala alugada no Recife Antigo, mas com a vontade de construir uma advocacia com a minha identidade e os valores nos quais acreditava. A partir dali, vieram os desafios de empreender, conquistar clientes, formar equipe e construir credibilidade. Foram anos de trabalho até o escritório se consolidar e minha atuação se ampliar para as áreas acadêmica, institucional e associativa.
Quais os tipos de demanda que mais chegam no seu escritório?
Hoje, o escritório tem atuação diversificada, mas três áreas concentram boa parte das demandas: Direito à Saúde, Direito Administrativo e Direito Eleitoral.
No Direito à Saúde, defendemos pacientes em questões envolvendo planos de saúde, tratamentos, medicamentos e cirurgias. No Direito Administrativo, atuamos na advocacia pública e consultiva, especialmente junto a municípios e gestores públicos. Já no Direito Eleitoral, área à qual me dedico há muitos anos, assessoramos candidatos, partidos e agentes políticos, tanto na consultoria quanto no contencioso.
Como foi sua trajetória na OAB?
A OAB ocupa um lugar muito especial na minha trajetória. Fui eleita três vezes para o Conselho Estadual da OAB Pernambuco e atuei em diferentes espaços da Ordem, na OAB/PE, no Conselho Federal e junto às subseccionais e à advocacia do interior. Uma experiência marcante foi presidir a Comissão de Relações Institucionais da OAB/PE, que me permitiu representar a advocacia e ampliar o diálogo com o Judiciário, os demais Poderes e diferentes instituições. Também foi muito importante estar próxima da advocacia do interior, conhecendo suas dificuldades e demandas.
Você já sentiu que precisou provar mais por ser mulher?
Em alguns momentos, senti que, por ser mulher, precisava demonstrar mais para conquistar o mesmo espaço e reconhecimento. O Direito avançou, mas ainda há ambientes de poder e decisão historicamente ocupados por homens.
Nunca permiti que isso me paralisasse. Cada mulher que rompe uma barreira torna o caminho mais possível para as que vêm depois.
Como foi chegar à lista tríplice para desembargadora do TJPE pelo Quinto Constitucional?
Foi um processo muito intenso e de grande significado histórico, por ser a primeira vez que uma mulher chegava à lista tríplice da advocacia para o Quinto Constitucional no TJPE. Obtive 44 votos e empatei em primeiro lugar com o candidato posteriormente escolhido. Os votos mostraram que uma mulher poderia chegar ao primeiro lugar em um Tribunal tradicional como o TJPE. Tenho orgulho de ter ajudado a abrir esse caminho e, nesta nova eleição, coloquei novamente meu nome à disposição da advocacia pernambucana.
Como está sendo a campanha de 2026?
Está sendo intensa, mas a vivo com mais serenidade. A eleição anterior me ensinou muito sobre o processo do Quinto Constitucional e, principalmente, sobre a confiança da advocacia pernambucana. Recebi 5.293 votos, fui a candidata mais votada do interior e fiquei em primeiro lugar em diversas subseccionais.
Nesta campanha, fiz questão de retornar a muitas dessas cidades, não apenas para pedir novamente o voto, mas também para agradecer. Quem recebe tamanha confiança precisa saber honrá-la.
O que você trouxe de aprendizado da eleição anterior para esta campanha?
Hoje conheço melhor todas as etapas do processo e volto mais experiente e preparada. Os 44 votos que recebi no TJPE e o empate em primeiro lugar na lista tríplice também ampliaram minha percepção sobre a responsabilidade desse projeto. A eleição anterior não me deixou apenas votos, mas relações, aprendizados, gratidão e um compromisso ainda maior com a advocacia.
Homenagens ou reconhecimentos que significam muito para você:
O título de Cidadã Caruaruense me emocionou pela relação que construí com Caruaru e o interior de Pernambuco. A Medalha do Mérito Eleitoral Frei Caneca, do TRE-PE, tem valor especial por vir de uma instituição ligada à minha trajetória no Direito Eleitoral. Também foi uma honra receber da Câmara Municipal do Recife a Medalha de Mérito do Judiciário Ministro Djaci Falcão. Guardo ainda com carinho a primeira Medalha de Mérito da OAB Gravatá, especialmente por ter acompanhado a criação da subseccional.
Por que o estudo continua sendo uma prioridade para você?
Levo os estudos muito a sério. No Direito, não há espaço para acomodação: as leis mudam, a jurisprudência evolui e surgem novos desafios. Por isso, acredito que precisamos estudar e nos aprimorar permanentemente.
Há mais de 16 anos, também dou aulas voluntariamente de Direito Eleitoral na Escola Superior de Advocacia da OAB/PE. Ensinar me mantém em movimento e reforça minha convicção de que, quanto mais estudo, mais percebo o quanto ainda há para aprender.
Qual sua atuação à frente de comissões de Direito Eleitoral?
O Direito Eleitoral ocupa uma parte importante da minha trajetória. Na OAB/PE, fui membro, vice-presidente e presidente da Comissão de Direito Eleitoral. No Conselho Federal da OAB, fui secretária-geral da Comissão Especial de Direito Eleitoral. Também participei da fundação do IDEPPE e, em 2016, da criação de um congresso que se consolidou como um dos maiores de Direito Eleitoral do Norte e Nordeste. Sou ainda membro fundadora da ABRADEP. Em todos esses espaços, busquei contribuir para a qualificação da advocacia, o debate e o aperfeiçoamento do Direito Eleitoral.
Como você vê o papel da mulher no Direito Eleitoral e na política?
A legislação ampliou a participação feminina, mas presença não significa poder político efetivo. As mulheres ainda são sub-representadas nos espaços de decisão.
No Direito Eleitoral, fico feliz em ver cada vez mais mulheres qualificadas ocupando espaços antes predominantemente masculinos. Precisamos não apenas abrir portas, mas garantir condições para que elas cheguem, permaneçam e exerçam sua liderança.
Você também atua como articulista em blogs de política. Como funciona este trabalho?
Escrevo há muitos anos, de forma voluntária, para blogs de política, porque gosto de escrever e acredito que o conhecimento jurídico deve ultrapassar os espaços do Direito. Abordo temas atuais da política e das eleições sem “juridiquês”, buscando tornar as regras eleitorais mais acessíveis e contribuir para o acesso a informações de qualidade.
Qual foi a conquista que mais mostrou o impacto do seu trabalho?
É difícil escolher uma só, mas os casos de Direito à Saúde são os que mais me mostram o poder da advocacia de transformar vidas. Quando conseguimos garantir um medicamento, cirurgia ou tratamento essencial, especialmente em momentos de fragilidade, lembro por que escolhi ser advogada: a Justiça faz sentido quando alcança quem precisa e muda, de verdade, a vida de alguém.
Como gostaria que seu filho, Lorenzo, lhe enxergasse como profissional?
Gostaria que Lorenzo olhasse para a minha trajetória e enxergasse uma mãe que trabalhou muito, que levou seus sonhos a sério, mas que nunca abriu mão dos seus valores. Quero que ele entenda, pelo meu exemplo, que nenhuma conquista vem sem dedicação, estudo e perseverança, mas que o sucesso só faz sentido quando caminhamos com ética.
Acima de qualquer conquista profissional, gostaria que ele tivesse orgulho da pessoa que a mãe dele escolheu ser.
Olhando para trás, existe alguma escolha profissional que você faria diferente?
Talvez tivesse cuidado mais da minha saúde e reservado mais tempo para mim. Sempre trabalhei muito e gostaria de ter cultivado um hobby, algo que me permitisse desacelerar. Ainda quero aprender que cuidar de si também faz parte de uma vida realizada.
Quais são os próximos sonhos?
Profissionalmente, meu grande sonho hoje é chegar ao Tribunal de Justiça de Pernambuco pelo Quinto Constitucional e ser a primeira mulher desembargadora oriunda da advocacia. Para mim, isso teria um significado que ultrapassa uma conquista pessoal. Gostaria de abrir essa porta para que outras mulheres também enxerguem esse caminho como possível.
Mas não quero apenas chegar. Quero, se tiver essa oportunidade, entregar um bom trabalho e ser reconhecida pela competência, pelo equilíbrio, pela sensibilidade e pelo respeito à advocacia e à Justiça.
E os objetivos na vida pessoal?
A maternidade ocupa um lugar central na minha vida. Um dos meus maiores sonhos é acompanhar o crescimento de Lorenzo e contribuir para que ele se torne, acima de qualquer conquista, um homem decente, correto, de bons valores e sensível às pessoas. Se eu conseguir ajudá-lo a construir esse caminho e estiver presente nas diferentes fases da vida dele, certamente será uma das minhas maiores realizações.
Personalidades que você se inspira:
Eu me inspiro muito nas pessoas simples, muitas vezes anônimas. Gosto de observar suas histórias, a forma como enfrentam as dificuldades, trabalham, cuidam de suas famílias e seguem em frente mesmo diante das adversidades.
Tenho uma admiração especial pelo povo pernambucano, pela sua força, coragem, criatividade e capacidade de resistência.
O que você gosta de fazer no tempo livre?
No meu tempo livre, gosto principalmente de estar com a minha família e aproveitar Lorenzo. Tenho uma paixão enorme por cinema, então assistir a um bom filme é um dos meus programas preferidos. Também adoro ir à praia, encontrar os amigos e aproveitar esses momentos mais simples de convivência.
Como minha rotina profissional é muito intensa, aprendi a valorizar ainda mais o tempo ao lado das pessoas que amo.
Quem é Diana Câmara além do direito?
Sou uma mulher muito ligada à família, aos amigos e às pessoas que fazem parte da minha história. Sou mãe de Lorenzo, e a maternidade é uma das dimensões mais importantes da minha vida. Sou também uma pessoa de muita fé, que acredita em Deus e procura conduzir a vida com gratidão e propósito. Valorizo a amizade, a lealdade, a palavra dada e tenho uma memória muito forte de quem esteve ao meu lado nos diferentes momentos da vida. Acredito que gratidão é uma dívida que não prescreve. No final, quero que as pessoas se lembrem mais de como eu as tratei e do bem que consegui fazer do que dos cargos ou títulos que conquistei.
Quais pilares e hábitos indispensáveis para uma rotina profissional disciplinada?
Acho que meus principais pilares são resiliência, paciência, persistência e perseverança. Sou muito disciplinada com meus compromissos e tenho uma capacidade grande de trabalho, mas acredito que minha maior virtude seja não desistir facilmente. Tenho paciência para compreender os processos, persistência para continuar trabalhando e resiliência para recomeçar sempre que necessário.
Áreas profissionais que têm afinidade, fora o direito:
Tenho muita afinidade com a educação e com a gestão. Gosto de ensinar, compartilhar conhecimento, formar pessoas e também de idealizar projetos, organizar equipes e transformar ideias em iniciativas concretas. Também me identifico com as relações institucionais, especialmente pela possibilidade de construir consensos, aproximar pessoas e buscar soluções por meio do diálogo.
Leia menos



















