Por Antônio Campos*
A economia é o grande assunto de 2026 e deverá ocupar o centro da eleição presidencial, o restante é narrativa menor. Há outros temas relevantes no debate público, mas nenhum deles terá tanta capacidade de influenciar diretamente o cotidiano das pessoas, a confiança dos investidores e o futuro do país quanto a situação econômica brasileira.
O Brasil vive um quadro fiscal que exige atenção e responsabilidade imediatas. Não se pode adiar indefinidamente o enfrentamento do desequilíbrio das contas públicas. O país precisa iniciar um processo consistente de ajuste, com controle das despesas, definição de prioridades e recuperação da credibilidade fiscal. Caso contrário, estaremos alimentando uma trajetória perigosa de crescimento da dívida, aumento do custo de financiamento do Estado e perda de confiança.
Leia maisOs números dão a dimensão do problema. Em junho de 2026, a dívida bruta do Governo Geral alcançou 81,9% do PIB, aproximadamente R$ 10,8 trilhões. Nos doze meses encerrados naquele mês, os juros nominais do setor público chegaram a R$ 1,16 trilhão, equivalentes a 8,8% do PIB. O déficit nominal acumulado atingiu quase R$ 1,32 trilhão, ou 9,99% do PIB. (Banco Central do Brasil)
São números que não podem ser tratados como detalhe contábil.
Mesmo depois de iniciar um movimento de redução, a taxa Selic continua muito elevada: o Copom fixou-a em 14% ao ano em agosto de 2026. O próprio Banco Central registra moderação gradual da atividade econômica e mantém preocupação com expectativas de inflação ainda acima da meta. (Banco Central do Brasil)
Esse conjunto — dívida elevada, déficits persistentes, juros muito altos e custo crescente de financiamento do Estado — restringe investimentos, dificulta a expansão das empresas, encarece o crédito das famílias e reduz o espaço para políticas públicas estruturantes.
Não se trata de anunciar catástrofes nem de afirmar que o Brasil já vive uma situação semelhante à da Grécia em sua crise da dívida. Trata-se justamente de agir antes que desequilíbrios acumulados produzam uma crise de confiança de maiores proporções. A responsabilidade fiscal não é uma bandeira ideológica. É condição para o crescimento sustentável.
As redes sociais, os algoritmos, a inteligência artificial e o enorme poder econômico das Big Techs são questões fundamentais do nosso tempo. Precisamos discutir sua regulação, sem restringir a liberdade, seus efeitos sobre a democracia, a informação e as relações sociais. Mas essa não deverá ser a questão decisiva da eleição de 2026.
A pauta que chega mais diretamente à população é a economia.
É o preço dos alimentos, o custo do crédito, os juros, a capacidade de comprar uma casa ou um automóvel, a situação das empresas, os empregos, os salários, a carga tributária e a confiança em relação ao futuro.
Por isso, a economia tende a ser um fator decisivo também para a avaliação do presidente Lula e de seu governo. Embates internacionais, inclusive as controvérsias envolvendo o governo Trump e as tarifas norte-americanas, podem movimentar o debate político e diplomático, mas dificilmente substituirão as questões econômicas internas como critério central do eleitor.
A crise do petróleo e as transformações geopolíticas também merecem atenção. O ambiente internacional está cada vez mais complexo, marcado por guerras, protecionismo, tarifas comerciais, disputas tecnológicas e reorganização das cadeias mundiais de produção. O próprio governo brasileiro anunciou medidas de crédito para empresas atingidas pelas tarifas norte-americanas e pelos efeitos de conflitos internacionais, demonstrando como essas mudanças já alcançam a economia real. (Agência Brasil)
Há ainda sinais preocupantes no ambiente empresarial brasileiro. Grandes grupos atravessam processos de reestruturação financeira. Em agosto, por exemplo, a Braskem anunciou processo de recuperação extrajudicial envolvendo cerca de US$ 10,9 bilhões em dívidas, enquanto as Casas Bahia ingressaram em recuperação judicial em meio a dificuldades financeiras, fechamento de lojas e demissões. (Agência Brasil)
Cada caso possui causas próprias e seria equivocado atribuir todas as recuperações judiciais exclusivamente à política econômica. Entretanto, episódios dessa magnitude reforçam a necessidade de observarmos o ambiente de crédito, endividamento, consumo, competitividade e segurança para os investimentos.
Ao mesmo tempo, estamos diante de uma verdadeira mudança de paradigma econômico.
A inteligência artificial, a automação, as novas tecnologias, a economia de plataformas e as transformações nas relações de trabalho estão criando um novo modelo produtivo. Empresas tradicionais precisarão se reinventar. Algumas atividades desaparecerão, outras serão profundamente transformadas e novos setores surgirão.
O Brasil precisa participar dessa transformação, e não apenas assistir a ela.
Também precisamos rever nossa estratégia de inserção internacional. A China é hoje indispensável para a economia brasileira e continuará sendo um parceiro estratégico. Em 2025, recebeu aproximadamente 28,7% das exportações brasileiras e respondeu por 25,3% das nossas importações. (Ceará.gov.br)
Justamente pela importância da China, o Brasil deve trabalhar simultaneamente pela diversificação de seus parceiros econômicos. Não se trata de substituir a China nem de aderir automaticamente a qualquer outro bloco geopolítico. Trata-se de ampliar mercados e equilibrar relações com Estados Unidos, União Europeia, América Latina, Índia, Oriente Médio, África, Japão e outros centros econômicos.
Uma grande economia não pode depender excessivamente de um único destino comercial.
Outro ponto decisivo é a segurança jurídica. O capital procura países nos quais seja possível planejar, investir e calcular riscos. Mudanças permanentes nas regras, intervenções imprevisíveis do Estado e excessiva judicialização de questões econômicas podem reduzir a previsibilidade necessária aos investimentos.
O Brasil precisa de instituições fortes, mas instituições fortes também significam Poderes que respeitem suas competências constitucionais. Executivo, Legislativo e Judiciário devem atuar com independência, mas também com equilíbrio e respeito aos respectivos limites.
Da mesma forma, precisamos discutir uma nova modernização das relações de trabalho, compatível com a inteligência artificial, o trabalho remoto, as plataformas digitais, a economia criativa e as novas formas de prestação de serviços. A legislação não pode permanecer alheia às profundas mudanças que já ocorreram no mercado.
E há uma preocupação adicional no setor produtivo: a implementação da reforma tributária. Empresas de São Paulo, Pernambuco e de todo o país estão revendo sistemas, contratos, estruturas societárias e modelos de negócio diante da nova realidade tributária. Uma transformação dessa dimensão exige segurança, regras claras, transição responsável e diálogo permanente com quem produz.
O Brasil tem enormes vantagens: mercado consumidor, recursos naturais, agricultura competitiva, matriz energética diferenciada, capacidade empresarial, sistema financeiro sofisticado, universidades, tecnologia e uma posição geopolítica privilegiada.
O problema brasileiro não é falta de potencial.
É transformar potencial em crescimento sustentável.
Para isso, precisamos recuperar a responsabilidade fiscal, reduzir estruturalmente o custo do Estado, melhorar o ambiente de negócios, garantir segurança jurídica, modernizar as relações econômicas, diversificar nossas parcerias internacionais, investir em tecnologia e criar condições para o aumento da produtividade.
A eleição de 2026 precisa discutir tudo isso.
Pode-se debater redes sociais, regulação tecnológica, petróleo, geopolítica e tantos outros assuntos importantes. Mas nenhum debate será suficiente se o brasileiro não perceber melhora em sua vida cotidiana.
No final, a economia chega à mesa das famílias, ao caixa das empresas e ao bolso do trabalhador.
Por isso, o primeiro passo é simples e urgente:
colocar a economia no centro do debate nacional e um novo modelo de desenvolvimento atualizado a pauta mundial, inclusive tecnológica.
O Brasil precisa voltar a discutir crescimento, equilíbrio fiscal, produtividade, investimento e desenvolvimento com seriedade.
A gravidade do momento exige menos distrações e mais atenção a economia.
*Advogado e escritor
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