Pela manhã, Haddad acompanha o presidente Lula em uma edição do “Caravana Federativa”, um programa do governo federal de aproximação com prefeitos, no Expo Center Norte, na capital paulista. No final da tarde, o ministro comparece a uma homenagem a Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio, morto em maio do ano passado, na Universidade Federal do ABC, com a entrega do título de “doutor honoris causa” a familiares.
Mas é somente a noite que a eleição deve ser o tema central, em uma coletiva de imprensa no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, berço do PT, na qual Haddad deve enfim falar sobre sua candidatura.
O formato do anúncio ficou definido apenas nesta quarta, após um vaivém sobre o local e a data. A escolha pelo sindicato é simbólica, uma vez que Lula iniciou a sua trajetória política como dirigente da entidade e ao organizar greves de operários. Ela também ajuda a desvincular o evento do PT das agendas de governo, algo que poderia ser questionado juridicamente.
Estratégias em SP
O PT tenta, com Haddad, repetir a disputa de 2022 em São Paulo, quando o atual ministro da Fazendo chegou ao segundo turno contra Tarcísio, mas perdeu com 44,73% de votos. Na avaliação do partido, se ele conseguiu esse resultado naquele ano, agora, com Lula na presidência e com o trabalho que fez no ministério, as chances de ampliar a votação seriam maiores.
Pesquisa Datafolha, realizada entre os dias 3 e 5 de março, mostrou que Tarcísio tem 52% das intenções de voto, e Haddad, 37%, numa simulação de segundo turno. Ele foi o candidato lulista que melhor pontuou nas simulações de primeiro turno. Ainda assim, o patamar de apoio atingido por Tarcísio neste momento traz dúvidas sobre a possibilidade de nem haver uma segunda rodada.
A expectativa de aliados é de que a disputa paulista terá forte tom nacional, assim como foi em 2022, principalmente porque Haddad deverá explorar políticas em nível federal, como a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil, uma das principais bandeiras de Lula e que foi fruto de articulação da Fazenda, sob a gestão do ministro, com o Congresso. O atual governador, da mesma forma, ensaia uma plataforma de campanha que atribui a criação de impostos ao petista.
Outra estratégia a ser adotada, mais local, deve ser a tentativa de aproximação com os prefeitos. Petistas paulistas acreditam existir condições para explorar as reclamações de mandatários relacionadas, por exemplo, à falta de transferência de recursos. Para isso, Haddad deve apostar nas entregas federais em pequenas cidades, a fim de tentar reduzir a rejeição que a esquerda tem, historicamente, no interior do estado de São Paulo.
Haddad e Lula tentarão se contrapor a Tarcísio destacando a transferência de recursos federais para a construção de moradias, unidades de saúde, obras viárias e creches em pequenos municípios.
Dentro dessa estratégia, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) é considerado essencial, e deve ajudar circulando pelo interior durante a campanha, por já ter governado o estado por quase 12 anos e ter melhor entrada em cidades menos simpáticas à esquerda. Grandes projetos, como o túnel Santos-Guarujá, a construção de institutos federais e as obras metroferroviárias que tiveram custo dividido entre as gestões estadual e federal, também devem ser citadas na campanha petista.
A falta de capilaridade, nesse sentido, será um entrave ao PT, segundo analistas ouvidos pelo GLOBO, que mencionam o desempenho abaixo do esperado da sigla nas eleições municipais de 2024. Foram apenas quatro prefeitos eleitos em todo o estado, sendo Mauá, na região do ABC, o colégio eleitoral mais robusto. A aliança de Tarcísio, em contrapartida, se desenha com PSD (207 prefeitos eleitos), PL (104), Republicanos (85), MDB (68), PP (47) e União Brasil (36), entre outras legendas menores de centro e direita.
Entre aliados de Tarcísio, circula também a leitura de que o enfrentamento com Haddad tende a ser mais acirrado em grandes centros urbanos. A mesma pesquisa do Datafolha aponta que a vantagem de Tarcísio chega a 19 pontos percentuais no interior, contra 6 na capital paulista, números que podem variar quatro pontos para mais ou para menos dentro da margem de erro do instituto. Em 2022, tanto Lula quanto Haddad foram os mais bem votados na capital, mas perderam na maior parte dos municípios paulistas.
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