CARTA CAPITAL
Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) fez declarações polêmicas a respeito do desaparecimento de Fernando Santa Cruz, pai de Felipe Santa Cruz, advogado que presidiu a Ordem dos Advogados do Brasil entre 2019 e 2022. Ao criticar a instituição, Bolsonaro afirmou: “um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele”, insinuando que o advogado “não gostaria de ouvir a resposta”.
As declarações foram proferidas como forma de retaliação e constrangimento à OAB, após a entidade ter defendido as prerrogativas do advogado de Adélio Bispo dos Santos, autor do atentado a faca contra ao então candidato à presidência da República, em setembro de 2018.
Estudante de Direito e funcionário público, Fernando Santa Cruz foi preso por agentes do DOI-Codi em 23 de fevereiro de 1974, aos 26 anos, e nunca mais foi visto. Em 2008, CartaCapital identificou o coronel Homero César Machado como um dos responsáveis pela tortura e desaparecimento de Fernando. Quatro anos depois, o ex-delegado Cláudio Guerra afirmou que Fernando e outros presos políticos foram incinerados na Usina Cambahyba, no Rio de Janeiro.
Leia maisEm setembro, Felipe Santa Cruz participou da sessão de exibição do documentário Usina Cambahyba, na sede do Ministério Público Federal, no Rio de Janeiro. Por sinal, o documentário foi alvo de uma recente interpelação judicial por parte dos herdeiros do proprietário da usina.
Felipe contava dois anos de idade à época do desaparecimento do pai, e o trauma da ausência paterna marcou toda sua existência. O advogado ressignificou essa perda com a fundação do Instituto Fernando Santa Cruz, organização voltada à defesa da democracia, dos direitos humanos e à preservação da memória histórica sobre o período da ditadura militar no Brasil.
Recentemente, o instituto recebeu arquivos sigilosos relacionados ao coronel Cyro Etchegoyen, membro do Centro de Informações do Exército e um dos mentores da Casa da Morte, centro de tortura e execução do governo militar. Em junho, o acervo foi oficalmente doado ao Arquivo Nacional.
Santa Cruz acredita que os documentos estarão seguros “caso os democratas vençam”. O advogado vê com apreensão o período das eleições e questiona a postura do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques. “Kassio está jogando a vida no Flávio [Bolsonaro]. Ele sempre garantiu que Flávio ganharia”.
Carta Capital conversou com Felipe Santa Cruz sobre as eleições de 2026. Confira a entrevista:
Carta Capital: Qual a sua visão sobre as eleições de 2026? Os resultados o surpreenderam?
Felipe Santa Cruz: Trata-se de um momento decisivo em nossa história. A maioria obtida pela extrema-direita, guiada pela submissão aos Estados
Unidos e pela agenda de um capitalismo predatório e individualista, colocará a Constituição de 1988 na berlinda, com sério risco de desidratação de seus textos. Os direitos consolidados no processo de redemocratização estão sob grave ameaça e tendem a ser aniquilados caso Flávio Bolsonaro saia vitorioso.
CC: Acredita que haja algum favorecimento para um dos candidatos à Presidência?
Santa Cruz: Resta evidente a ingerência dos Estados Unidos no processo político brasileiro e a consequente afronta à soberania nacional. Um
grupo conspirador, liderado pelo irmão do candidato presidencial, articulou-se sorrateiramente contra os interesses do país. Além disso, o
pleito evidencia o avanço descabido da “ditadura do algoritmo”, com plataformas norte-americanas admitindo a facilitação na circulação de
conteúdos da extrema-direita. A gravidade dos fatos exige reação.
CC: Como residente no Rio de Janeiro, qual a sua opinião sobre o resultado da eleição para governador do estado?
Santa Cruz: É lamentável que Eduardo Paes não se tenha elegido. Conheço sua capacidade como gestor e sei que estava preparado para assumir essa responsabilidade. O Rio de Janeiro padece sob uma profunda deterioração de suas instituições, tornando-se, não por acaso, solo fértil para o surgimento do bolsonarismo.
CC: Caso Flávio Bolsonaro seja eleito, você acredita na possibilidade da volta de uma ditadura ou estado de exceção?
Santa Cruz: Julgo que isso talvez nem se faça necessário. A conjuntura mais grave já está posta, marcada pela formação de uma expressiva
bancada de extrema-direita e pela subordinação irrestrita aos Estados Unidos. Nela, os maiores retrocessos correm o risco de ser mascarados
por uma aparência de pseudonormalidade.
CC: Em 2019, o então presidente da República eleito fez uma agressão direta a você, enquanto presidente da OAB. Houve algum processo em
relação à fala dele, que mencionava o paradeiro de seu pai?
Santa Cruz: Hoje cumprindo pena, o ex-presidente atacou repetidas vezes a memória do meu pai: um jovem de 26 anos, estudante de Direito
e servidor público assassinado pela ditadura. Notificado a provar o que disse ou a se retratar, escolheu o caminho dos covardes, encolhendo-se e
fingindo ignorar o fato.
CC: Como filho de perseguido e desaparecido político durante a ditadura militar, o que você poderia falar, como alerta, sobre o perigo da volta de uma ditadura?
Santa Cruz: Assim como em 1964, estamos diante da ameaça de 20 anos de trevas. A nova ditadura utilizará os mesmos mecanismos da anterior,
oscilando entre o arbítrio e a falsa legalidade. Quem se calar agora poderá não ter voz para falar no futuro.















