Por Luiz Queiroz – Capital Digital
O Banco Central vai ampliar sua capacidade de investigar o que acontece nas redes sociais e em outros ambientes digitais com uma contratação que aproxima duas atividades que até agora apareciam de forma mais separada dentro da instituição: a inteligência de ameaças, tradicionalmente associada à Segurança, e o acompanhamento de imagem, reputação e percepção pública, mais próximo da Comunicação. O novo modelo coloca sob o guarda-chuva da contrainteligência o monitoramento de manifestações contra o BC, discursos sobre suas políticas, influenciadores, campanhas de desinformação, redes de relacionamento e movimentos coordenados nas plataformas digitais.
O Pregão Eletrônico nº 20/2026, publicado nesta terça-feira, 18 de agosto, prevê a contratação de serviços continuados de Inteligência de Fontes Abertas, conhecida pela sigla OSINT, e Social Listening, com foco explícito em contrainteligência. A área requisitante é a Coordenação de Riscos e Inteligência do Departamento de Segurança do Banco Central. O valor total estimado exibido no Portal Nacional de Contratações Públicas é de R$ 11,02 milhões/ano.
Leia maisEmbora a nova contratação já estivesse prevista no planejamento do Banco Central antes do caso Master, o edital chega ao mercado depois de a instituição experimentar na prática um fenômeno que a ferramenta foi desenhada para identificar: uma campanha coordenada nas redes destinada, segundo investigação da Polícia Federal, a comprometer a credibilidade da autoridade monetária.
Em julho, a PF identificou pelo menos 40 perfis envolvidos em uma atuação coordenada nas redes. As investigações apontam para contratação de influenciadores e páginas para divulgar narrativas favoráveis ao Banco Master e críticas ao BC. Em janeiro, a Folha de São Paulo havia identificado pelo menos 46 perfis participando do que classificou como um bombardeio digital contra a instituição e seus dirigentes. Parte significativa deles era ligada a humor, fofoca e entretenimento e não tinha atuação habitual em assuntos econômicos.
Não há nos documentos da licitação evidência de que o caso Master tenha provocado a contratação. Ao contrário, o projeto já constava do Plano de Contratações Anual de 2026 publicado em 9 de maio de 2025, sob o item 254 e com a identificação da futura contratação 179087-20/2026.
O que não é possível descartar é que a experiência do Master tenha reforçado a preocupação do Banco Central ou influenciado o detalhamento final da solução. O Estudo Técnico Preliminar que acompanha o edital somente foi concluído e assinado em 6 e 7 de agosto deste ano, depois, portanto, da campanha contra o BC e das investigações da PF. Não foi localizada até agora uma versão anterior do mesmo ETP que permita estabelecer se as funcionalidades relacionadas a influenciadores, desinformação e redes coordenadas já estavam presentes antes do episódio.
O contexto, porém, ajuda a explicar a dimensão da nova defesa que o BC pretende construir. A instituição já contratava ferramentas de Cyber Threat Intelligence, CTI. No Pregão Demap nº 5/2023, por exemplo, a inteligência estava concentrada na detecção de ameaças cibernéticas. A ferramenta podia vasculhar internet aberta, fóruns, blogs, redes sociais, deep web e dark web e acompanhar pessoas consideradas de interesse, mas a finalidade estava associada à segurança cibernética, ataques direcionados, credenciais, vulnerabilidades, domínios e ativos digitais.
A contratação de 2026 avança sobre outro território. O próprio ETP determina que sejam acompanhadas especificamente “manifestações sociais contra o BCB”, mobilizações em redes sociais e grupos de mensagens, convocações para protestos ou ações hostis e, de maneira ainda mais abrangente, “narrativas e discursos contra a instituição ou suas políticas”. Também prevê identificar indivíduos ou organizações com histórico de ataques e acompanhar campanhas de desinformação, incitação à violência e mobilizações físicas articuladas digitalmente.
O documento inclui, entre os objetivos da contratação, a proteção da imagem institucional, a identificação preventiva de riscos reputacionais, a análise de tendências e comportamentos, a identificação de perfis que possam representar ameaças e a produção de relatórios de contrainteligência. É nesse ponto que duas vertentes que antes tinham objetivos distintos começam a se encontrar.
De um lado está a segurança. Ela procura criminosos, vazamentos, vulnerabilidades, planejamento de ataques, ameaças a sistemas, funcionários e instalações e informações circulando na deep e na dark web. De outro aparece uma vertente informacional e reputacional: discursos contra políticas do Banco Central, manifestações, influenciadores, campanhas de desinformação, sentimento nas redes e propagação de narrativas.
Potencial
No novo modelo, ambas passam a produzir insumos para a contrainteligência.
O Termo de Referência deixa explícito que o sistema deverá identificar ameaças não apenas físicas, digitais e operacionais, mas também reputacionais. O monitoramento será ininterrupto e deverá procurar comportamentos suspeitos, campanhas de desinformação e manifestações públicas relevantes. Os resultados serão convertidos em inteligência para apoiar decisões estratégicas do BC. A proteção da imagem institucional e da credibilidade da autoridade monetária aparece associada à própria estabilidade do sistema financeiro.
A defesa digital pretendida pelo Banco Central, portanto, vai muito além de contar quantas pessoas falam bem ou mal da instituição.
A solução acompanhará X, Facebook, Instagram, LinkedIn, YouTube e TikTok. Também alcançará grupos públicos de Telegram e WhatsApp, Discord, fóruns, comunidades, blogs, sites de notícias, plataformas de vídeo, repositórios públicos de documentos, deep web e dark web. Serão monitorados palavras-chave, perfis e hashtags. O sistema fará análise de sentimento e engajamento e acompanhará tendências e comportamentos.
A diferença mais relevante está na capacidade de relacionar essas informações. O BC exige análise de redes e conexões, identificação de influenciadores, análise de alcance, detecção de padrões anômalos e análise georreferenciada. Também serão acompanhados vazamentos e exposição de informações sensíveis.
O resultado poderá ser uma espécie de mapa da circulação de determinada informação. O ETP prevê expressamente o “mapeamento detalhado de redes de influência e vetores de propagação” de informações relevantes ou desinformação. A ferramenta também deverá produzir análises preditivas baseadas no histórico dos dados e em tendências comportamentais para antecipar riscos antes que se transformem em crises.
A inteligência artificial terá papel importante nessa estrutura. O Termo de Referência exige profissionais capazes de trabalhar com grandes modelos de linguagem, RAG, GraphRAG, análise de dados, metadados, rastreamento digital, footprinting, geointeligência e análise de redes sociais. Para o social listening, o edital cita como referências ferramentas como Brandwatch, Talkwalker, Pulsar e Meltwater.
A contratação também prevê uma equipe que não se limita a operadores de software. Entre os perfis aparecem gerente de projeto, coordenador de contrainteligência, analistas de dados para contrainteligência, analista de redes, analistas OSINT, analista de ameaças, especialista em Social Listening, especialista em ferramentas OSINT e Social Listening e especialista em inteligência artificial para contrainteligência. A plataforma terá acesso para até 14 usuários do Banco Central e produzirá relatórios diários, semanais e mensais, alertas em tempo real e análises específicas sob demanda.
O caso Master permite compreender concretamente o que uma estrutura desse porte poderá representar.
A PF investiga a contratação de influenciadores e páginas para disseminar conteúdos favoráveis ao Master e atacar o Banco Central. Em março, depoimentos colhidos pela polícia relataram propostas para participar de um projeto de gestão reputacional e de crise. Em julho, a investigação apontou pagamentos que teriam chegado a R$ 2 milhões para influenciadores e uma atuação coordenada destinada a atingir a credibilidade da autoridade monetária.
Documentos do chamado Projeto DV mostraram ainda contratos com influenciadores que, somados, chegariam a R$ 8 milhões, embora boa parte tenha sido interrompida depois que a PF começou a investigar o caso.
Uma plataforma com as características agora exigidas pelo BC poderia, em tese, detectar sinais desse tipo de operação antes mesmo de se conhecer quem a financiava. Um aumento repentino de publicações sobre uma decisão do Banco Central poderia ser identificado. A ferramenta poderia apontar os perfis responsáveis pela propagação, medir alcance e engajamento, identificar influenciadores, estabelecer conexões entre contas, analisar a repetição de narrativas e procurar padrões indicativos de atuação coordenada.
Isso não permitiria concluir automaticamente que os participantes estavam sendo pagos nem substituiria uma investigação policial. Mas forneceria ao BC um sistema próprio para identificar que uma movimentação aparentemente espontânea nas redes apresenta características anormais e merece investigação.
Nesse sentido, o Banco Central chega à nova contratação escaldado pelo Master, ainda que o episódio não possa ser apontado documentalmente como sua causa.
O caso também abriu uma segunda frente de preocupação dentro da instituição. Na semana passada, o diretor de Fiscalização Ailton de Aquino relatou à Polícia Federal que havia receio de vazamentos internos durante o processo de liquidação do Master. Segundo seu depoimento, o ambiente de desconfiança levou a restringir o número de pessoas informadas previamente sobre a decisão.
Assim, a crise colocou o BC diante de duas ameaças de naturezas distintas. Uma estava dentro, relacionada à segurança de informações sensíveis e ao risco de vazamentos. A outra estava fora, na capacidade de grupos organizados utilizarem redes sociais e influenciadores para disputar a narrativa sobre decisões do regulador e atingir sua credibilidade.
A nova estrutura de contrainteligência tem instrumentos que podem atuar nas duas frentes. O edital prevê monitoramento de vazamentos e exposição de informações sensíveis, ao mesmo tempo em que permite acompanhar campanhas de desinformação, redes de influência, manifestações e narrativas contrárias à instituição.
Polêmica fronteira
Há, contudo, uma fronteira sensível nessa ampliação. O ETP coloca no mesmo universo de monitoramento criminosos financeiros, ataques cibernéticos, invasões e vazamentos, mas também manifestações sociais, protestos e “narrativas e discursos contra a instituição ou suas políticas”.
Uma campanha clandestinamente financiada para descredibilizar o regulador é uma situação. Uma manifestação contra a taxa de juros, uma reportagem crítica, a opinião de um economista, um discurso parlamentar ou uma publicação de um cidadão contra uma decisão do BC são situações completamente diferentes. O desafio estará nos critérios utilizados para separar crítica legítima de ameaça institucional.
O próprio Banco Central reconheceu esse risco na documentação. O Termo de Referência inclui entre os riscos críticos da contratação a “exposição a dados pessoais em desacordo com a LGPD” e afirma ter incorporado medidas de mitigação aos requisitos do contrato.
A mudança que emerge do Pregão 20/2026, portanto, não é simplesmente a compra de uma ferramenta mais moderna de monitoramento. O Banco Central está construindo uma capacidade em que segurança cibernética, inteligência de fontes abertas, comportamento nas redes e proteção reputacional passam a conversar dentro da contrainteligência.
O projeto nasceu antes da ofensiva digital relacionada ao Master. O Plano Diretor de Segurança 2024-2029 já previa aprimorar o monitoramento automatizado de ameaças e a contratação entrou no planejamento anual em maio de 2025. Mas a especificação definitiva foi concluída depois de a instituição experimentar uma campanha que, segundo a PF, utilizou dezenas de influenciadores para atacar sua credibilidade.
O Master, portanto, não pode ser apresentado como a origem comprovada da contratação. Pode ser apresentado como o episódio que mostrou, na prática, por que uma ferramenta com essas características passou a ser estratégica para o Banco Central.
E há uma mudança conceitual relevante: o BC não pretende apenas saber o que está sendo dito sobre ele. Quer saber quem impulsiona determinadas narrativas, como os participantes se relacionam, por onde a informação se espalha, se há sinais de coordenação e quando uma movimentação digital pode se transformar em ameaça reputacional, cibernética ou física. É esse conjunto de informações que, a partir da nova contratação, passa a alimentar sua estrutura de contrainteligência.
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