No texto, o autor cita o filósofo Jean-Jacques Rousseau para destacar a importância da credibilidade das instituições, lamenta o fato de elas estarem “tão desmoralizadas” e cita a arapongagem da Polícia Civil de Pernambuco, uma entidade com mais de 200 anos, como um mau exemplo dessa perda de confiança. “Fico imaginando quais seriam os passos seguintes. Arrisco. Uma ‘Noite dos Cristais Recifense’, em que vitrines (do que resta) do Centro do Recife seriam quebradas e o governo estadual acusaria o prefeito, com sua política de reurbanização do Centro, de facilitar o vandalismo e desproteger as ‘pessoas de bem’ e da liberdade de transitar (todo fascismo age em nome da liberdade!). Fica aqui a ideia, dona Raquel”, escreveu.
Por fim, Brayner alude ao filme “O Agente Secreto”, que denuncia práticas ilegais da ditadura. “Não me surpreende, afinal, que, no momento em que um filme ‘recifense’ como ‘O Agente Secreto’ ganha projeção internacional, bem ali, quase defronte do icônico cinema São Luiz, estejam se repetindo as mesmas ações criminosas que o filme denunciou. (…) É uma pena, finalizo, que a herança democrática de Fernando Lyra não tenha sido precedida de nenhum testamento”, concluiu. Confira abaixo o artigo na íntegra.
Operação “Siga o carrapato”
Por Flávio Brayner*
Ao invés de ficarmos utilizando termos como “criminoso”, “inaceitável”, “ilegal”, “fascista”, “autoritário”…, termos que rapidamente viram jargões e lugares comuns linguísticos e, claro, perdem sua substância semântica e conceitual e passam a ter apenas efeito emocional, eu acho que seria melhor pensarmos no que a política se transformou: por que as instituições do liberalismo democrático estão tão desmoralizadas; até aonde a fragmentação cultural levará ao fim da própria noção de social; e, claro, o que significa estar “à beira do abismo, civilizacional” em que o fascismo se apresenta como “solução final”. São questões ao mesmo tempo gregas (“Como foi possível chegarmos até aqui?”) e latinas (“O que faremos agora?”).
Eu também vi na mídia a vigilância e rastreamento de um Secretário Municipal do Recife pela Polícia Civil da Governadora Raquel Lyra, supostamente querendo flagrá-lo recebendo propina, depois de uma denúncia anônima! O mais interessante é que o caso – e as gravações das comunicações entre os agentes da “arapongagem”- foi denunciado por um agente público que, por sua vez, havia sido flagrado em conluio dentro de um carro, num estacionamento, a negociar “rachadinha” com representantes da Prefeitura de Ipojuca!
“(I)moral” da história: é o criminoso público que denuncia seus colegas criminosos públicos que, por sua vez, estão procurando, de forma ilegal, indícios (com objetivos eleitorais) de crimes contra instituições públicas praticadas por outros agentes também públicos (o Secretário de João Campos). Não se trata de nenhum círculo vicioso em que o crime se tornou uma prática de estado, com agentes públicos à cata de outros criminosos através de métodos também criminosos! Não é isso!
Nós acreditamos que a ideia de “transparência” seja um atributo da República que, dizia Rousseau, se baseia na confiança estabelecida por um “Contrato” em que o objetivo seria um suposto “BEM COMUM” (baseado numa “Vontade Geral”). Rousseau, claro, nunca falou de “transparência”, mas não custa lembrar que toda transparência do poder só é visível sobre fundo opaco. É essa OPACIDADE que está invadindo todo o Bem Comum, em que somos todos vistos e ouvidos (grampos) e nada sabemos ou vemos!
A SDS (Secretaria de Defesa Social) pode tranquilamente retirar o “D” da sigla e ficar apenas com o “SS” (Schutzstaffel), a elite do Partido Nazista liderada por Himmler, e o setor de Inteligência da Polícia Civil- também mobilizado na Operação, que deveria durar um ano!- uma GESTAPO provinciana que, pasmem!, compra material de espionagem em sites chineses, sem saber nem sequer se o “carrapato” (grampo) tinha bateria suficiente pra aguentar toda a operação (sugiro que na próxima operação eles comprem um sapo cururu). Aqui pra nós, os Nazistas eram muito mais “profissionais”!
Fico imaginando qual seriam os passos seguintes. Arrisco…
Uma “NOITE DOS CRISTAIS RECIFENSE”, em que vitrines (do que resta) do Centro do Recife seriam quebradas e o Governo estadual acusaria o Prefeito, com sua política de reurbanização do Centro, de facilitar o vandalismo e desproteger as “pessoas de bem” e da liberdade de transitar (todo Fascismo age em nome da Liberdade!). Fica aqui a ideia, Dona Raquel.
Terceiro passo. Uma grande fogueira em que os escritos dos críticos de Dona Raquel (inclusive este!) seriam queimados num luminoso “AUTO-DA-FÉ” em frente ao Palácio das Campo das Princesas.
E, finalmente, os concursados da Universidade (UPE) e das Escolas Estaduais seriam obrigados, ao tomar posse, a prestar um juramente de fidelidade ideológica à nossa “FÜHRER UND RAQUELKANZLER”.
Ironias à parte, o que está acontecendo é um profundo descrédito em tudo o que a Democracia liberal prometera: nunca houve tanta desigualdade social; concentração de riqueza; manipulação da liberdade; descrença no poder da educação; desproteção social; corrupção política generalizada; violência contra os fragilizados sociais e econômicos; manipulação religiosa em que desvalidos sociais encontram formas de acolhimento espiritual às socialidades desagregadas; fim das autoridades tradicionais (pai, professor, político) e emergência de reivindicações reprimidas pelo próprio processo civilizatório. Tudo isso produzindo um hiperindividualismo narcísico, imaturo, violento, em que o consumo define e hipostasia o CIDADÃO, e cuja consequência é o desinvestimento público que marcava a ideia de cidadania. Portas abertas para o crime político organizado!
Tornado o lugar da incerteza e da crítica – a crítica aqui resumida no epíteto “NÃO QUERO SER GOVERNADO NEM POR ESSAS PESSOAS, NEM COM ESSES MÉTODOS, NEM COM ESSES OBJETIVOS” (Foucault)- a vigilância, retomo, inicialmente sobre as ações dos “adversários”, terá que se estender para toda a sociedade, sobretudo ali onde o pensamento ainda viceja e germina. E para isso é preciso ter meios de comunicação de massa. Os Nazistas inventaram o Volksradium (rádio doméstico de válvula) para que os discursos de Hitler chegassem a todos os alemães, onde eles estivessem. Nossos antidemocratas dispõem também das redes sociais, esse lugar onde a mentira passou a exercer papel fundamental na política.
O problema é saber de que armas dispomos para, primeiro, perceber o abismo à nossa frente e, segundo, não cair nele acreditando que somos, agora, LIVRES!
Não me surpreende, afinal, que, no momento em que um filme “recifense” como “O Agente Secreto” ganha projeção internacional, bem ali, quase defronte do icônico cinema São Luiz, estejam se repetindo as mesmas ações criminosas que o filme denunciou. Aliás, a cena que mais me surpreendeu no filme, foi aquela, final, no Hemocentro da Chora Menino, em que o filho de Armando (o próprio Wagner Moura), agora médico, não quer saber, nem se lembrar da história de seus pais, que a pesquisadora Flávia insiste em lhe apresentar!
É uma pena, finalizo, que a herança democrática de Fernando Lyra não tenha sido precedida de nenhum testamento!
*Professor Emérito da UFPE
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