Por Tiago Lima*
Sob a ótica de um analista internacional, uma guerra na Venezuela não atende aos interesses do Brasil nem da sociedade brasileira. Conflitos armados em países vizinhos raramente ficam restritos às suas fronteiras. Pelo contrário, costumam gerar efeitos colaterais diretos, sobretudo nas áreas humanitária, econômica e na estabilidade regional.
Os recentes bombardeios à capital Caracas e a alegação, divulgada pelo presidente norte-americano Donald Trump, de que o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa teriam sido sequestrados configuram uma grave violação do Direito Internacional. Em termos jurídicos, trata-se de um crime de agressão, comparável ao que a Rússia cometeu ao invadir a Ucrânia.
Leia maisDa mesma forma, são ilegais os bombardeios realizados pelos Estados Unidos em águas internacionais sob a justificativa de combate ao narcotráfico, especialmente diante de relatos de que pescadores civis também teriam sido alvejados.
É fundamental compreender que a retirada forçada de um chefe de Estado não produz, automaticamente, democracia. A experiência internacional demonstra que esse tipo de ação tende a gerar o efeito contrário. O cenário mais provável é a ascensão de um sucessor ligado ao mesmo grupo político, agora legitimado por um discurso de defesa da soberania nacional, o que pode resultar em maior endurecimento do regime e no aprofundamento da já fragilizada democracia venezuelana.
A retórica de intervenção estrangeira costuma agravar ainda mais o quadro. Conflitos recentes, como o da Ucrânia, mostram que guerras prolongadas interrompem processos eleitorais, enfraquecem instituições e ampliam crises sociais. Caso a sucessão de poder na Venezuela não ocorra de forma institucional e organizada, é plausível o surgimento de um vácuo de poder, com disputas internas, aumento da instabilidade política e econômica e maior sofrimento da população.
Outro ponto que precisa ser destacado é o forte enraizamento social tanto do madurismo quanto da oposição. O governo venezuelano conta, inclusive, com milícias e grupos organizados financeiramente estruturados. Isso evidencia que regimes políticos não se desmantelam simplesmente com a retirada de um líder. Pelo contrário, intervenções externas tendem a despertar sentimentos nacionalistas e de união contra uma ameaça estrangeira, inclusive entre setores críticos ao governo.
Diante desse cenário, é razoável prever dias de maior caos, deterioração econômica e social e intensificação da crise humanitária. Como consequência direta, novos fluxos migratórios devem ocorrer, sobretudo em direção a países vizinhos como o Brasil. Isso impõe desafios adicionais ao nosso sistema de acolhimento, às políticas públicas e à organização social nas regiões de fronteira.
A instabilidade no continente não favorece a economia brasileira, enfraquece o papel do Brasil como ator regional e prejudica nossas relações comerciais e diplomáticas. Celebrar uma invasão ou o sequestro de um chefe de Estado, portanto, além de imprudente, revela falta de visão estratégica, independentemente do posicionamento ideológico de quem defende esse tipo de ação.
Mais do que paixões políticas, o momento exige responsabilidade, análise fria e compromisso com a estabilidade regional. O Brasil ganha mais ao defender o diálogo, o respeito ao Direito Internacional e soluções políticas do que ao aplaudir ações que aprofundam o sofrimento de povos vizinhos e aumentam os riscos para toda a América do Sul.
*Bacharel em Relações Internacionais
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