Por Luís Alberto Lins Cavalcanti*
Se existia algum lugar na Rua do Imperador Pedro II que nos remetia a um Recife saudoso do passado, era o restaurante Dom Pedro, sob a batuta de seu Júlio Crucho. Importado das terras lusitanas, do vilarejo de Penamacor, ao norte de Portugal, iniciou sua vida profissional no ainda vivente restaurante Leite, tendo ali dado início na aprendizagem da boa culinária. Como ele mesmo dizia: a culinária do Dom Pedro era igual ao Imperador, metade Portuguesa, metade Brasileira.
Em 1967, nasce o Dom Pedro, na Rua do Imperador Pedro II, nº 376, bairro de Santo Antônio, local privilegiado, cercado por redações de jornais, o centenário Diário de Pernambuco e o Jornal do Commercio. Jornalistas, começaram a bater ponto no Dom Pedro, seguidos por poetas, intelectuais, artistas e políticos que também ocupam as mesas de mogno, forradas com toalhas brancas e guardanapos de tecidos, do tradicional restaurante.
Leia maisPor proximidade com o Tribunal de Justiça e Fórum Paula Batista (único existente até os anos 90), advogados, Juízes, Desembargadores, Promotores e toda fauna do judiciário, faziam dali a extensão dos escritórios e gabinetes. As novidades do Judiciários eram propagadas de uma forma mais rápida do que a distante e inimaginável internet de hoje.
Sr. Júlio, um misto de comerciante, hoteleiro e sindicalista, sempre receptivo e cordial, os garçons impecavelmente trajando calças pretas, camisas brancas, gravata borboleta, já sabiam qual a mesa o cliente assíduo preferia sentar-se, qual a bebida, entrada e prato principal.
No meu caso, que comecei a frequentá-lo em 1990, poucos meses após me formar em Direito, escolhi logo a minha mesa preferida, de onde podia contemplar de forma panorâmica os azulejos que embelezavam o local, lustres de cristais e uma imponente foto do Imperador Pedro II ainda jovem.
Por afinidade, escolhi Nivaldo como meu garçom predileto, com pouco tempo ele já sabia todas as minhas predileções, tais como bolinho de bacalhau para acompanhar o conhaque na entrada e um licor strega após saborear o pernil de cabrito, ainda sobrava tempo para uma conversa ao pé do ouvido.
Recife com certeza perde o melhor bolinho de bacalhau, o incomparável pernil de cabrito, sem falar no tradicional cozido aos sábados, que já tinha findado com a morte de seu Júlio em 23.03.2019.
Com o fechamento do Dom Pedro, nada mais restou de charme e nostalgia da Rua do Imperado Pedro II. Se vivo estivesse o poeta Mauro Mota, frequentador assíduo e detentor de mesa cativa no restaurante, assistiria não só ao suicídio do domingo no Recife, quando o Recife se joga da torre do Diário como disse em seu Poema intitulado “Domingo no Recife”, mas assistiria ao suicídio de um Recife, que é instigado a se suicidar todos os dias, levando consigo as suas memórias e tempos que não voltam mais.
*Advogado
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