Por Flávio Chaves*
Carpina era mais do que uma cidade, era um sopro de eternidade, um lugar onde o tempo caminhava descalço pelas ruas de barro, onde a infância se estendia como um lençol limpo sobre os varais da memória. Ali, os suspiros das tardes no bairro de São José, sobretudo na rua Bernardo Vieira de Melo, tudo era descoberto através dos olhos do sonho, como se o mundo tivesse sido inventado naquela geografia de ternura e espanto.
As manhãs vinham com cheiro de pão fresco e terra molhada, enquanto os sinos da matriz tocavam com uma solenidade quase divina. O mercado fervilhava com vozes de feirantes e o balé dos cheiros, frutas maduras, café torrado, o suor honesto da vida simples. As casas tinham portas sempre abertas, e os vizinhos, nomes e histórias que se misturavam às nossas como folhas que o vento teima em reunir no mesmo canto do quintal. Dona Tatá com seus vestidos floridos e voz de reza antiga. Manoel, um retirante e sua vitrola que chorava boleros. E o riso das crianças, solto, infinito, correndo atrás de bolas murchas e sonhos inflados.
Leia maisMas era no cinema do bairro de São José, quase vizinho à casa onde descobri o mundo, que a vida ganhava outra dimensão, como se um universo paralelo se abrisse toda vez que as cortinas pesadas se afastavam, revelando a luz tremeluzente do projetor. Ali, o tempo era suspenso. A espera por cada nova sessão era como esperar por uma revelação. Sentávamo-nos em silêncio, quase em oração, os olhos fixos na tela, o coração dançando ao compasso de histórias que nos faziam maiores do que éramos.
Havia amores platônicos, sim, nascidos do balançar tímido das moças a caminho da padaria, ou do perfume que vinha da fileira da frente no cinema. E havia a biblioteca, pequena e silenciosa, onde os livros sussurravam mistérios e os dedos corriam pelas páginas como quem procura segredos antigos em cartas esquecidas. Era Dona Lourdes, coordenadora paciente e serena, quem nos orientava entre as estantes, com sua voz mansa e olhos atentos, conduzindo nossas escolhas com a firmeza doce de quem sabe a importância de uma leitura bem-feita. Foi ali que li Verne e Dumas como se fossem meus tios aventureiros, e onde aprendi, entre páginas e silêncios, que há sentimentos que não cabem na fala.
Mas Carpina, feita de luz branda e tarde morna, não ensinava o que as universidades exigiam. E um dia, com a mala pequena e o peito abarrotado de silêncios, deixei a cidade. O trem partiu como um punhal lento, cortando a paisagem que eu nunca soube dizer adeus. Na janela, o rosto colado ao vidro, vi desaparecer o último poste da rua de casa como quem vê apagar a infância com um sopro.
E foi na penumbra do cinema que descobri que o coração chora. Lembro como se fosse hoje do dia em que assisti a Dio, come ti amo. A melodia caiu sobre mim como uma chuva mansa e devastadora, revelando que a saudade também pode ter voz. Depois veio Love Story, e ali não houve como resistir. O peito se abriu como janela em tarde de verão, e de dentro dele saiu um choro tão antigo que parecia já estar ali antes mesmo de eu nascer.
Hoje, ao fechar os olhos, é Carpina que retorna. Com seus cheiros, seus sorrisos e suas tardes de descoberta. Com sua dor bonita, sua beleza terrosa, seu tempo que não passa. Porque há lugares que não se deixam ir, e há infâncias que continuam morando dentro da gente como um filme que nunca termina.
Tudo em mim era sonho, e talvez, ainda seja.
*Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
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