O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na quarta-feira (21) ter chegado a um acordo preliminar com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre o futuro da Groenlândia, que incluirá direitos sobre minerais de terras raras.
“Eles estarão envolvidos nos direitos minerais, e nós também”, disse Trump sobre a Otan e os Estados Unidos em entrevista à CNBC após o anúncio na rede social Truth Social.
Ele não especificou nenhum termo preliminar. Mas a riqueza mineral inexplorada da Groenlândia ajudou a colocar a ilha no topo da lista de desejos de Trump. As informações são da CNN.
Leia maisAutoridades do governo Trump veem as riquezas subterrâneas da Groenlândia como uma forma de afrouxar o domínio da China sobre os metais de terras raras, que são cruciais para desde caças e lasers até veículos elétricos e aparelhos de ressonância magnética.
Trump minimizou os recursos naturais da Groenlândia, inclusive durante o discurso que fez no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, na quarta (21), quando afirmou que a extração de minerais de terras raras não era o motivo pelo qual os Estados Unidos precisavam do território.
“Todo mundo fala dos minerais. Há tantos”, disse Trump. “Não existe essa coisa de terra rara. Existe processamento raro. Mas há tanta terra rara. E para chegar a essa terra rara, é preciso atravessar centenas de metros de gelo. Não é por isso que precisamos dela. Precisamos dela para a segurança nacional estratégica dos EUA e para a segurança internacional”, declarou.
Horas depois, Trump afirmou que o acordo para a Groenlândia incluía duas partes: a defesa antimíssil “Domo de Ouro” e minerais. Isso coincide com o que o ex-conselheiro de segurança nacional, Mike Waltz, disse à Fox News em 2024, quando afirmou que o foco do governo na Groenlândia era “minerais críticos” e “recursos naturais”.
A realidade é que a posse da Groenlândia pela Dinamarca não é o que impede os Estados Unidos de explorar o tesouro da ilha. É o ambiente do Ártico.
“Completamente insano”
Pesquisadores afirmam que seria extremamente difícil e caro extrair os minerais da Groenlândia, pois muitos dos depósitos minerais da região estão localizados em áreas remotas acima do Círculo Polar Ártico, onde existe uma camada de gelo polar com mais de um quilômetro de espessura e a escuridão reina durante grande parte do ano.
Além disso, a Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca, não possui a infraestrutura e a mão de obra necessárias para tornar esse sonho de mineração uma realidade.
“A ideia de transformar a Groenlândia na fábrica de terras raras dos Estados Unidos é ficção científica. É simplesmente uma loucura”, analisou Malte Humpert, fundador e pesquisador sênior do Instituto Ártico. “Seria o mesmo que minerar na Lua. Em alguns aspectos, é pior que a Lua”.
Aproximadamente 80% da Groenlândia é coberta por gelo. E a extração mineral — ou praticamente qualquer outra atividade — no Ártico pode ser de cinco a dez vezes mais cara do que em qualquer outro lugar do planeta.
O interesse de Trump pela Groenlândia não é novidade — e ele não é o primeiro presidente dos EUA a cobiçar a ilha.
Há anos, senão décadas, as autoridades da Groenlândia vêm buscando investimento estrangeiro direto. Os habitantes da Groenlândia dizem que já estão abertos a oportunidades de negócios.
O mito do “pote de ouro”
Convencer empresas americanas a investir na Groenlândia pode ser uma fantasia, alegam especialistas.
“Se houvesse um ‘pote de ouro’ esperando no fim do arco-íris na Groenlândia, empresas privadas já teriam ido para lá”, afirmou Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador no Instituto Peterson de Economia Internacional.
No entanto, Funk Kirkegaard, que trabalhou anteriormente no Ministério da Defesa da Dinamarca, afirmou que é “muito difícil” justificar o enorme investimento inicial que seria necessário.
É possível que Trump esteja tentando oferecer incentivos financeiros e garantias para atrair empresas americanas a fazerem esses investimentos maciços, semelhantes às garantias que as grandes petrolíferas buscam para explorar petróleo na Venezuela.
“Se tivessem dinheiro suficiente dos contribuintes, as empresas privadas estariam dispostas a fazer quase tudo”, apontou Funk Kirkegaard. “Mas essa é uma boa base para comprar um território? A resposta é não na Groenlândia, assim como não na Venezuela”.
Fatores ambientais
A crise climática causou o derretimento do gelo e o rápido aumento das temperaturas no Ártico.
No entanto, ainda é cedo para afirmar que isso será suficiente para superar os desafios ambientais da mineração na Groenlândia. Embora o derretimento do gelo tenha aberto algumas rotas de navegação, também tornou o solo menos estável para perfuração e aumenta o risco de deslizamentos de terra.
“Mudanças climáticas não significam facilidade. Há apenas menos gelo”, disse Humpert, do Instituto Ártico.
Além disso, as rigorosas regulamentações ambientais da Groenlândia aumentariam os custos e as dificuldades da mineração em larga escala.
É claro que essas regulamentações refletem o desejo da população local de manter o meio ambiente preservado. Se o governo Trump, de alguma forma, revogasse essas regulamentações, isso poderia se tornar extremamente impopular.
Amigo ou “valentão”?
Adam Lajeunesse, professor de política canadense e do Ártico na Universidade St. Francis Xavier, afirmou que a “retórica bizarra” de Trump sobre a anexação da Groenlândia corre o risco de minar os objetivos econômicos e estratégicos das autoridades americanas, prejudicando o relacionamento com a Groenlândia e a Dinamarca.
“Poderíamos ver os Estados Unidos não mais como um amigo e parceiro, mas como um valentão que deve ser combatido”, comentou ele.
Em certa medida, isso já pode estar acontecendo.
Christian Keldsen, diretor-geral da Associação Empresarial da Groenlândia, alerta que as autoridades americanas correm o risco de prejudicar a relação com a população local.
“No momento, tudo o que é americano é um sinal de alerta”, disse ele. “Todos se perguntam: ‘Estou apoiando alguém que está tomando o controle do meu país?’”.
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