O tempo é implacável. Parece que foi ontem, mas já se vão 42 anos que botei os pés em Brasília pela primeira vez. Era um feriado de 1 de maio, como hoje, Dia do Trabalhador. A cidade estava completamente deserta. Achei extremamente estranho e chocante a solidão do Planalto Central.
Lembrei-me de uma frase antológica de Juscelino Kubitschek, o presidente JK, pai de Brasilia, que havia lido nos compêndios escolares: “Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país”.
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Escolhi Brasília para morar por uma opção profissional. Costumo dizer que os fatos políticos quando não nascem em Brasília, deságuam nela. Os finalmentes estão aqui, onde me encontro hoje beijando a pedra quatro décadas e dois anos após o primeiro flerte com a cidade que aprendi a amar.
Aqui, constituí família. Meu primeiro rebento é candango, como se classifica quem vem para cá conquistar a terra avermelhada do cerrado. Aqui, também, e, principalmente, lancei as sementes da minha carreira. Trabalhei nos dois principais jornais da cidade — Correio Brasiliense e Jornal de Brasília, este por duas vezes.
Vim tentar a sorte depois de uma experiência nacional: indicado pelo talentoso jornalista e amigo Ângelo Castelo Branco, fui repórter da equipe que cruzou o País de norte a sul acompanhando o então candidato à Presidência da República em eleição indireta, Marco Maciel, que mais adiante renunciou e liderou a Frente Liberal em apoio a Tancredo Neves.
A decisão de Marco Maciel gerou meu primeiro desemprego. A equipe de Imprensa dele era coordenada pelo jornalista Marco Aurélio Pereira, a quem recorri na hora do sufoco. Marco Maciel soube da minha penitência e me deu guarida. Autorizou Marco Aurélio a me hospedar no Hotel das Nações, no Setor Hoteleiro Sul, até arranjar um emprego.
Não demorou. Com 20 dias, consegui um “bico” no jornal O Globo e fui atuar no Norte entre as cidades de Manaus, Rondônia, Boa Vista e Belém. Lá, dei belíssimos furos para O Globo cobrindo conflitos indígenas, exploração de madeira e guerras políticas.
Mas meu desejo e propósito era Brasília. Pedi demissão do jornal carioca e fui trabalhar no Correio Braziliense, uma das melhores experiências em início de carreira. Fazia de tudo, de plantão na casa de Paulo Maluf, derrotado por Tancredo no colégio eleitoral, a rondas policiais para Mário Eugênio, editor de Polícia do Correio, que tinha também um programa de rádio, o Gogó das Sete, líder de audiência na Rádio Planalto.
Mário Eugênio vivia jornalismo com euforia e intensidade. Quando eu adentrava na redação vindo da ronda policial, ele gritava de longe: “Quantos presuntos trouxe?” Ele ficava “p” da vida quando a ronda era fraca e eu não trazia a manchete para abrir o seu noticiário.
Perseguido pela polícia do Governo do DF, à frente o secretário de Segurança Pública, Lauro Riecht, Mário Eugênio foi assassinado com 11 tiros no estacionamento da rádio Planalto num domingo à noite logo após gravar o seu “Gogó das Sete”. Na véspera, no sábado, ele havia passado na minha casa e de lá seguimos para uma festa em Taquaritinga. Éramos muito amigos.
Brasília, enfim, foi meu grande laboratório profissional. Trabalhei depois no Última Hora, no Jornal de Brasília, na agência O Globo e na sucursal do Diário de Pernambuco, espaço que abri e inaugurei com a presença do então presidente José Sarney numa grande festa. Mais tarde, fui eleito presidente do Comitê de Imprensa da Câmara dos Deputados.
Ainda em Brasília enriqueci meu currículo cobrindo os principais fatos políticos nacionais, desde a primeira eleição direta para presidente em 89, até a chegada do PT ao poder, incluindo o impeachment de Collor, a Constituinte, o impeachment de Dilma e os planos Cruzados e Real.
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