Do UOL
O uso de um navio para retirar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e a esposa dele, Cilia Flores, do país após a dupla ser capturada por militares dos Estados Unidos foi uma escolha possivelmente por segurança e um “truque” diplomático, segundo especialistas ouvidos pelo UOL.
EUA não divulgaram por que optaram pelo uso do navio para retirar Maduro da Venezuela. Após a captura, Maduro e a esposa foram levados por um helicóptero das Forças Armadas dos EUA até o USS Iwo Jima, um dos navios de guerra da Marinha dos EUA que estava posicionado no mar do Caribe desde o fim do ano passado.
Leia maisNa noite de ontem, um avião com o presidente venezuelano pousou em um aeroporto de Nova York. Maduro estava com um capuz na cabeça, algemado e escoltado por dezenas de agentes federais. Não foi possível identificar a esposa de Maduro, Cilia Flores, que também foi presa, nas imagens do desembarque do líder venezuelano. O governo norte-americano não divulgou onde e quando o casal teria sido transferido para a aeronave, mas fontes da imprensa dos EUA afirmam que pode ter sido em Guantánamo, uma prisão militar dos EUA que fica em uma ilha cubana.
Docente aponta que segurança pode ter sido o motivo principal para escolha do uso do navio. Roberto Uebel, professor de relações internacionais da ESPM, disse ao UOL que a operação apresentava muitos riscos, incluindo a integridade dos capturados e dos militares norte-americanos envolvidos, e que o meio naval comporta maior segurança operacional nesses casos.
“Avaliação de ameaça elevada” pelos EUA também deve ter colaborado para descartar o uso da aeronave. Segundo o professor de relações internacionais Leo Braga, da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, o uso do navio de guerra também pode ser interpretado como uma mensagem política e militar de poder que os EUA querem passar.
“O USS Iwo Jima é um navio de maior segurança e proteção contra vulnerabilidades externas. Ele é usado estrategicamente nesse tipo de operação e também em ações de resgate em outros ambientes e cenários”, disse Roberto Uebel.
O uso de navio evitou entraves diplomáticos e riscos à operação. Uebel afirmou que as autorizações necessárias para o pouso de uma aeronave militar dos EUA na Venezuela e a necessidade de sigilo podem ter pesado na decisão para o uso do meio marítimo. Já Braga acrescentou que a presença de um avião militar no país poderia colocar a aeronave em risco e ser interpretada por outros países como violação da soberania venezuelana, o que não seria positivo para o governo norte-americano.
Operação abre ‘precedente perigoso’
Operação deixa claro o “novo modus operandi da política externa norte-americana” e da doutrina de segurança nacional dos EUA. Segundo Uebel, a ação pode abrir um “precedente de grande risco internacional” e fortalecer o surgimento de novas alianças militares para evitar esse tipo de incursão em outros territórios.
“Se os EUA fizeram essa operação agora contra a Venezuela, nada os impede de fazer essas ações contra a Colômbia, Cuba ou qualquer outro país cujas lideranças não atendam aos interesses dos EUA. Abre um precedente internacional grave, de grande risco para as relações internacionais”, analisa Uebel.
Para Braga, a ação abre precedente para a captura de líderes estrangeiros em regiões fora de zonas de guerra. Ele explicou que a política da gestão Trump recupera a Doutrina Monroe — inclusive, o termo foi usado pelo republicano — que sugere fortemente a tese de América para os americanos. “Em termos de América Latina, me parece que é uma preocupação muito honesta, muito sincera, de que esse precedente internacional possa ser espalhado para outros países da região”, concluiu.
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