Por Inácio Feitosa*
Levei recentemente um grupo de Brasília para almoçar em Olinda, no Oficina do Sabor. Era para ser uma experiência, um encontro com a história, um mergulho na beleza que sempre nos definiu. Mas algo me atravessou. O olhar deles – externo, limpo, sem vício – disse muito sem precisar dizer nada. E aquilo me causou silêncio.
O Memorial Arcoverde abandonado, a entrada do Varadouro esquecida, pichações por toda parte, casario mal preservado, um abandono que não se esconde mais, um trânsito caótico, sem regra, sem respeito. Não se trata de um ponto isolado. É um retrato. E, pior: um retrato que já começa a parecer normal.
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Na Av. Sigismundo Gonçalves, ainda estão lá os antigos chalés Julieta, Alice, Beatriz e Zulmira, com a Villa Clarice ao fundo. Foi ali que fiz meu estágio do curso de Direito, na década de 1990, quando aqueles imóveis tinham vida, função e presença institucional. Hoje, a sensação é outra: prédios fechados, deteriorados, sem uso claro. Em alguns trechos, dá medo até de olhar para o casario. O que antes era referência virou sinal de abandono. E quando um patrimônio deixa de ter uso, ele rapidamente deixa de ter valor.
Em outro artigo, escrevi que o recifense se acostumou com o feio. Mas agora a pergunta é outra, mais dura, mais íntima: e nós, os olindenses? Falo com o peso de quem viveu a cidade. Sou do São Bento. Sou das festas do Veronese. Sou da época em que Francisco ainda não era Chico. Sou do tempo em que voltávamos das festas caminhando, à noite, sem medo. Olinda tinha leveza, tinha presença, tinha alma. Hoje, em muitos pontos, tem descuido.
Olinda não virou isso de uma vez. Foi aos poucos. Um descuido aqui, uma omissão ali, uma fiscalização que não veio, um patrimônio que deixou de ser prioridade. Quando vimos, a cidade já não era mais a mesma. E o mais grave: nós já estávamos aceitando.
O maior problema de uma cidade não é ficar feia. É quando as pessoas deixam de perceber que ela ficou feia. Quando o absurdo vira paisagem, quando o abandono vira rotina, quando ninguém mais se incomoda. Esse é o ponto mais perigoso.
Olinda não perdeu sua essência. Ainda emociona, ainda tem força, ainda tem história. Mas está sendo maltratada. E cidade histórica não suporta abandono por muito tempo.
Naquele almoço, não fui eu que apresentei Olinda. Foi Olinda que se apresentou. E o que ela mostrou foi um pedido de socorro. Por isso, a pergunta não é para o turista. É para nós: por que deixamos Olinda chegar a esse ponto?
Olinda não precisa ser reinventada. Precisa ser cuidada. Com gestão, com presença, com responsabilidade, com orgulho. Porque o que está em jogo não é só urbanismo. É identidade, é memória, é pertencimento. E cidade nenhuma sobrevive quando o seu povo deixa de reagir.
*Advogado com DNA olindense
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