Por Rinaldo Remígio*
Lendo, com atenção e espírito de quem acompanha a vida pública brasileira há décadas, a recente matéria publicada na revista Veja e repercutida também no blog do jornalista Magno Martins, fui tomado por uma reflexão inevitável.
O ex-presidente Michel Temer, ao comentar o ambiente de radicalismo que hoje domina o cenário nacional, resumiu em poucas palavras uma verdade que parece atravessar o tempo como advertência histórica:
“Ou superamos o passado ou não teremos futuro.”
Leia maisA frase não é apenas um recurso de entrevista. Ela carrega o peso de quem esteve no centro de uma das fases mais turbulentas da República. Há exatos dez anos, o Brasil atravessava um período de inquietação profunda: a Lava-Jato avançava sobre a classe política, o Congresso se movia sob tensão, a presidente Dilma Rousseff seria afastada, e o país mergulhava numa crise econômica e institucional que marcou uma geração.
Temer assumiu o governo naquele cenário conturbado. Foi um tempo duro, de oposição feroz, de impopularidade, de reformas estruturais aprovadas sob pressão. Como acontece tantas vezes na história brasileira, os gestos administrativos acabaram ofuscados pelas feridas políticas abertas naquele período.
Mas o que mais chama a atenção em suas palavras não é a defesa de sua biografia. É o diagnóstico do país.
Segundo ele, o Brasil permanece preso a uma radicalização que já não é disputa de ideias, mas de ressentimentos. A política, em vez de ser arena de projetos, tornou-se campo de ataques pessoais, de revanches intermináveis, de discursos que alimentam divisões como se estivéssemos condenados a viver eternamente dentro de um mesmo conflito.
E Temer diz algo que soa como conselho de um velho constitucionalista: estamos olhando demais pelo retrovisor.
Aqui do Sertão, onde a vida ensina que o tempo precisa seguir adiante — porque o futuro não espera — essa imagem é ainda mais forte. Quem vive no interior sabe: quando o agricultor insiste apenas na seca passada, não planta o amanhã. Quando a família insiste apenas nas mágoas antigas, não constrói paz dentro de casa. E quando um país insiste apenas nas disputas do ontem, perde a oportunidade de escrever novos capítulos.
As eleições, lembra ele, deveriam ser um momento de apresentação de caminhos e programas, e não apenas a repetição cansativa de nomes contra nomes, como se a nação fosse refém de uma polarização eterna.
Superar o passado não significa apagá-lo. Significa aprender com ele sem se tornar prisioneiro dele. Significa transformar a memória em lição, e não em prisão.
O Brasil, país de tantas riquezas e possibilidades, não pode continuar caminhando como quem carrega pedras antigas nos ombros. Nenhuma nação constrói o amanhã vivendo apenas das disputas de ontem.
Talvez este seja o grande desafio do nosso tempo: reencontrar o equilíbrio, o diálogo, a serenidade institucional e a esperança.
Porque, no fim, Michel Temer tem razão:
“Ou superamos o passado… ou não teremos futuro.”
*Professor universitário aposentado, administrador, contador, mestre em economia e memorialista
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