Por que o senhor não apoia ou vota em João Campos?
João Campos tem demonstrado principalmente uma forte capacidade de comunicação com a população. Isso é importante, mas governar exige mais do que administrar redes sociais. Governar exige capacidade administrativa, visão estratégica e disposição para ouvir críticas.
No Recife, os grandes desafios da cidade continuam pouco enfrentados. Em áreas essenciais, como mobilidade urbana, revitalização do Rio Capibaribe e de suas margens, políticas sociais estruturantes, recuperação da orla, revitalização do centro histórico e fortalecimento da cultura, os avanços foram muito limitados. Também preocupa a baixa transparência de ações da gestão. O que aparece com frequência é um processo contínuo de privatização de espaços públicos.
Por que apoiar Raquel Lyra?
A governadora tem realizado muitas entregas importantes para Pernambuco em um momento difícil do país e do Estado. Governar em tempos de restrição fiscal e crise estrutural não é simples, e ainda assim seu governo tem apresentado resultados, inclusive na área social.
No caso específico de Olinda, entendo o posicionamento estratégico dela em ajudar a cidade, que precisa de um porto na Região Metropolitana, diante de João ser prefeito do Recife. Eventual apoio dela no município não é suficiente para deixar de apoiar o seu projeto estadual.
Na política, não podemos agir movidos por ressentimentos pessoais. Podemos ter divergências em alguns pontos, o que é natural, mas o que deve orientar qualquer decisão é o interesse maior do Estado. Se houver convergência em torno de um projeto que ajude Pernambuco a crescer, melhorar a vida das pessoas e fortalecer as instituições, não vejo problema em apoiá-la.
Política exige maturidade. Não faço política com base em mágoas, faço pensando no futuro de Pernambuco. E acredito que, neste momento, o melhor para Pernambuco em 2026 é Raquel Lyra, que vencerá as eleições.
E o plano nacional?
Importante ressaltar que, no plano nacional, Raquel está mais próxima do campo centro-direita do que João. Contudo, a geopolítica nacional mudou e a eleição federal será disputada. Quanto a essa, mais na frente, com as candidaturas desenhadas, anunciarei o meu voto.
O que aconteceu após a morte de Eduardo, seu irmão, para ocorrer seu distanciamento da família?*
A questão central foi a disputa pelo protagonismo político dentro da família. Enquanto Eduardo estava vivo, ele tinha a capacidade de equilibrar as relações familiares e políticas com firmeza e sabedoria. Após sua morte, esse equilíbrio deixou de existir.
Eu estive ao lado de Eduardo em momentos muito difíceis da sua trajetória. Participei diretamente da mediação que encerrou sua histórica disputa política com Jarbas Vasconcelos, antes de sua candidatura ao Senado. Fui coordenador da sua defesa no caso dos precatórios e, durante muitos anos, comandei o jurídico de suas campanhas.
Hoje movo uma ação de produção de provas buscando demonstrar que houve falha provocada no avião que o conduzia. Em relação ao meu avô, Miguel Arraes, quando fui presidente da Fundação Joaquim Nabuco, após 10 anos de presidente do Instituto Miguel Arraes, levei seu acervo para preservação na Casa de Nabuco.
Isso ocorreu enquanto parte da família decidiu vender a casa onde ele viveu — decisão da qual discordei profundamente. Inclusive renunciei à procuração do inventário para não compactuar com essa venda, porque entendo que aquele imóvel deveria se transformar no Memorial Magdalena e Miguel Arraes. Muitos usam e se beneficiam do nome, mas pouco fazem para preservar a sua memória.
O senhor saiu recentemente de mais uma tentativa de chegar à Prefeitura de Olinda, mas em um voo solo, sem apoio do PSB. Por quê?
Minha candidatura em Olinda foi construída para marcar posição e apresentar um projeto para a cidade, e não apenas para resultados eleitorais. Raquel, no início, tentou me ajudar e me aconselhou a ser candidato em outro momento.
Quanto a João, cujas forças já tinham me traído em 2016, quando tive um apoio formal enquanto ajudava Lupércio, não poderia esperar ajuda.
É fato que Raquel cresce, reage e ameaça a liderança de João?
A política é dinâmica. Nenhuma liderança é permanente ou automática. Raquel vencerá as eleições. No final das contas, quem define liderança política não são apenas os bastidores ou os analistas políticos, mas, principalmente, a população, avaliando as gestões e decidindo nas urnas.
Se João ele tivesse procurado o senhor, teria seu apoio?
A política precisa sempre de diálogo e capacidade de escuta. Grandes projetos se constroem conversando com pessoas diferentes e respeitando trajetórias diversas. João se acha predestinado, ou seja, que seu destino é a Presidência da República. Tem um longo caminho até lá. Sempre defendi que o diálogo é o melhor caminho para superar divergências e construir convergências. A humildade é uma virtude essencial na vida pública, porque ninguém governa sozinho.
Qual impacto o senhor imagina provocar ao apoiar Raquel e não seu sobrinho?
Minha posição política não é definida por laços familiares, mas por convicções e pelo que considero melhor para Pernambuco. Apoio político não é herança nem obrigação de parentesco. Em uma democracia, cada liderança tem liberdade para tomar suas decisões e construir suas alianças. Meu voto será em Raquel Lyra.
Como o senhor avalia o governo Raquel?
O governo de Raquel Lyra enfrenta desafios muito grandes, muitos deles acumulados ao longo de anos de problemas estruturais em Pernambuco. Um dos traços que admiro na sua personalidade é a sua disciplina e firmeza de posições.
Mesmo assim, é possível perceber um esforço consistente de reorganização administrativa e de retomada de investimentos em áreas importantes do Estado. Em um cenário difícil, seu governo tem conseguido realizar entregas relevantes para a população.
Ainda há muito a fazer, naturalmente, mas vejo uma gestão que trabalha com foco na recuperação da capacidade de investimento do Estado e na construção de um projeto de desenvolvimento para Pernambuco.
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