“Vamos fazer com que nossas grandes empresas petrolíferas americanas, as maiores do mundo, entrem no país, gastem bilhões de dólares, consertem a infraestrutura gravemente danificada, a infraestrutura petrolífera, e comecem a gerar receita para o país”, afirmou.
Qual é a importância do petróleo para a Venezuela?
A economia da Venezuela é extremamente dependente do petróleo. O governo Maduro contava quase que exclusivamente com a commodity como fonte de receita para o Estado.
O petróleo bruto e produtos derivados representam cerca de 90% das receitas de exportação da Venezuela e ajudaram o governo Maduro a se manter no poder mesmo fortemente sancionado e isolado e em meio a uma grave crise econômica.
A Venezuela tem as maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo, com mais de 300 bilhões de barris – mais até do que a Arábia Saudita. No entanto, responde por menos de 1% da produção global de petróleo.
Para se ter uma ideia da derrocada da indústria venezuelana, essa parcela era superior a 10% da produção global na década de 1960. A produção de petróleo bruto caiu mais de 70% desde o final da década de 1990, e a Venezuela ocupa hoje o 21º lugar na lista de produtores globais.
O colapso remonta ao governo do ex-presidente Hugo Chávez. A revolução socialista dele, nas décadas de 1990 e 2000, deixou um legado de ampla corrupção na empresa estatal de petróleo, a PDVSA, e levou à saída dos investimentos estrangeiros do país devido à interferência do governo no setor petrolífero.
Vários acidentes em oleodutos e refinarias de petróleo ampliaram as dificuldades, enquanto as sanções dos EUA – intensificadas a partir de 2017 – limitaram ainda mais a capacidade de produção de petróleo da Venezuela.
A PDVSA estabilizou a produção em cerca de 1 milhão de barris por dia, em parte devido às licenças dos EUA que permitem a um número limitado de empresas estrangeiras operar na Venezuela e exportar petróleo.
Investimentos das petrolíferas dos EUA
Ao longo do século 20, os EUA foram um parceiro fundamental para o setor petrolífero venezuelano, com as principais empresas petrolíferas americanas investindo pesadamente no país sul-americano. Todas, exceto a Chevron, deixaram o país após a revolução de Chávez.
Apesar de as sanções terem afetado suas operações, a Chevron recebeu licenças especiais do governo do ex-presidente Joe Biden em 2022 para retomar as exportações de petróleo venezuelano sob condições estritas. A ideia era que o abrandamento das sanções à Venezuela aliviaria as pressões no mercado internacional de petróleo após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Em outubro deste ano, o governo Trump concedeu à Chevron uma nova autorização para produzir petróleo na Venezuela, argumentando que a empresa americana era um parceiro vital para Caracas.
Assim, a Chevron é a beneficiária mais óbvia e imediata de qualquer medida de Trump para permitir mais investimentos americanos na Venezuela, onde ela já emprega cerca de 3 mil pessoas. Após a captura de Maduro, a empresa comunicou que operaria em “total conformidade com todas as leis e regulamentos relevantes” e não fez comentários sobre possíveis planos de expansão.
Trump afirmou que grandes empresas petrolíferas americanas retornarão à Venezuela, o que poderia incluir a ExxonMobil e a ConocoPhillips.
A ExxonMobil, a maior empresa petrolífera dos EUA, teve seus ativos expropriados por Chávez em 2007. Os projetos da ConocoPhillips em Hamaca, Petrozuata e Corocoro também foram expropriados.
Ambas as empresas ganharam o direito a indenizações multimilionárias em arbitragem internacional, mas a Venezuela jamais as pagou. Essa é a base da reiterada alegação de Trump de “petróleo roubado”.
“Nós construímos a indústria petrolífera da Venezuela com talento, motivação e habilidade americanos, e o regime socialista roubou isso de nós durante esses governos anteriores, e eles roubaram isso à força”, disse Trump. “Isso constituiu um dos maiores roubos de propriedade americana na história do nosso país”.
A ConocoPhillips disse que está “monitorando os acontecimentos na Venezuela e suas possíveis implicações para o abastecimento e a estabilidade energética globais” e que seria prematuro especular sobre quaisquer atividades comerciais ou investimentos futuros.
EUA precisam mesmo do petróleo venezuelano?
Os Estados Unidos são de longe o maior produtor mundial de petróleo, então, à primeira vista, pode não parecer claro por que Trump está tão interessado no petróleo da Venezuela.
No entanto, a questão é o tipo de petróleo que os EUA produzem. Seu principal produto é o petróleo bruto leve, não o tipo mais pesado e viscoso que muitas de suas refinarias, especialmente na costa do Golfo do México, estão equipadas para refinar. As refinarias transformam o petróleo bruto em gasolina, diesel e outros produtos cruciais para a economia.
Embora os EUA sejam um grande produtor de petróleo bruto, eles ainda importam petróleo bruto pesado de países como Canadá e México para abastecer refinarias otimizadas para esse tipo de petróleo. Isso significa que grande parte do petróleo bruto produzido pelos EUA acaba sendo exportado.
“Usar os tipos certos de petróleo bruto mantém nossas refinarias eficientes, reduz os custos e mantém a segurança energética”, explica a associação comercial American Fuel and Petrochemical Manufacturers (AFPM).
“Reequipar as refinarias para processar exclusivamente petróleo bruto dos EUA custaria bilhões – um investimento arriscado que levaria décadas para ser aprovado e construído e eventualmente valer a pena.”
Embora a produção da Venezuela tenha caído drasticamente, o país abriga as maiores reservas globais de petróleo bruto pesado. Na verdade, por muitas décadas foi o petróleo bruto pesado venezuelano que abasteceu a indústria americana.
Isso torna um novo acesso ao petróleo venezuelano algo extremamente atraente para as empresas americanas.
Tudo vai se dar como Trump quer?
Existem enormes questões legais e logísticas sobre se o petróleo voltará ou não a fluir da Venezuela para os Estados Unidos.
Apesar de a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, ter nesta segunda-feira (05/01) estendido a mão para o governo dos EUA para “trabalharem conjuntamente numa agenda de cooperação orientada ao desenvolvimento compartilhado”, não está claro se o novo governo venezuelano vai de fato cooperar com os EUA na questão petrolífera.
Há ainda a situação da infraestrutura petrolífera da Venezuela. Dan Brouillette, ex-secretário de Energia dos EUA do primeiro governo Trump, afirma que, embora os primeiros relatórios sugiram que as instalações petrolíferas do país permaneçam intactas, não há garantia de que as enormes reservas da Venezuela possam ser exploradas rapidamente.
“A restrição nunca foi geológica, mas a governança, as sanções, o acesso a capital e a execução”, afirmou. “Se a mudança política trouxer uma estabilização rápida e um poder credível sobre a PDVSA, a vantagem será um aumento gradual da oferta ao longo do tempo, e não um aumento repentino.”
Apesar de algumas empresas petrolíferas estrangeiras terem permanecido na Venezuela, as sanções fizeram com que as instalações petrolíferas do país não recebessem os investimentos necessários para se manterem atualizadas. O volume necessário de novos investimentos poderá ficar mais claro nos próximos meses.
Outra questão importante é a demanda mundial por mais petróleo. Os preços caíram no último ano e devem cair ainda mais em 2026, em meio a um excesso de produção. Se a expectativa de Trump em relação ao petróleo da Venezuela se concretizar, isso levaria ainda mais petróleo a um mercado global já saturado.
E a China?
A China tem sido um importante parceiro político e econômico da Venezuela nas últimas duas décadas.
No setor petrolífero, a empresa chinesa CNPC tem uma joint venture com a PDVSA. A maior parte do petróleo produzido na Venezuela é enviado para a China. No entanto, a China não expandiu significativamente suas operações petrolíferas na Venezuela, mesmo com a quase ausência dos EUA.
Pequim criticou duramente a captura de Maduro pelos EUA como uma violação da soberania da Venezuela.
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