Por Carolina Ferraz*
Falamos tanto de inclusão, mas ainda há pouco dela em nossos dias.
Faltam escolas inclusivas, acho que de verdade elas não existem… Temos propostas menos excludentes e desejo de incluir, mas tudo ainda é muito difícil, faltam acompanhantes pedagógicos, adaptações de conteúdo, corpo docente, gestores e funcionários letrados em inclusão e acessibilidade. Falta merenda que respeite as restrições alimentares… Falta principalmente respeito… Pelas potencialidades dos alunos autistas! Muitas escolas “enxergam” apenas o autismo, porém não conseguem enxergar o aluno com suas expertises e sua família.
Leia maisE a família? Quem é a família autista? Em regra, a família autista é composta por uma mãe solo e seu filho autista! Não raro essa mãe é a única pessoa que se levanta por esse filho! É feminina maciçamente as anti-salas de terapeutas, médicos e de coordenação escolar! Onde está o pai? Fora da relação porque a deficiência foi grande demais para ser incorporada pelo seu orgulho de procriador. Onde está a família estendida? Perdida diante das subjetividades, das incompreensões acerca das necessidades e muitas vezes focadas no preconceito e no mais puro desamor!
E a sociedade? Necessitando a todo instante ser lembrada que nossos filhos existem! Que são pessoas e que o autismo somente é suas vidas, porém há muito mais do que laudos e dificuldades existe o humano em toda a sua história e trajetória que merece/precisa ser acolhido. A sociedade necessita se fazer inclusiva contra a ignorância que exclui, contra o preconceito que desumaniza, contra a barbárie da violência que agride!
Por onde anda o estado nisso tudo? Adormecido burocraticamente se fazendo de inerte sem produzir políticas públicas eficazes para acolher pessoas autistas e seus cuidadores (quase sempre reitero na figura de suas mães exaustas e adoecidas pelo preconceito contra seus filhos). Falta desde os laudos porque inexistem neuros nos hospitais públicos e os poucos que resistem a comercializar suas expertises profissionais são insuficientes para o tamanho da demanda. A vocação se rende a consultas privadas caríssimas que não são palatáveis para a hipossuficiência das pessoas autistas e suas famílias! Não estou propondo a ausência de direitos de um especialista ser remunerado dignamente o que estou dizendo é que não é factível que pessoas autistas sigam sem laudos porque o diagnóstico é inacessível e caro demais.
O autismo, caros leitores é um produto! As pessoas autistas são contadas, testadas e destinatárias de intervenções terapêuticas, muitas que visam desumanizá-las como luvas que dão choque para conter esteriotipias (quando movimentos repetitivos são a forma de autorregulação e estabilidade), o que importa balançar das mãos? São esses tipos de atrocidade feitas para normalizar neuroatipicos porque a dita normalidade (será que existe), não consegue lidar com a diferença neuroatípica!
Enquanto a sociedade é individualista e preconceituosa, na mesma proporção da violência da exclusão familiar, o estado é escasso, omisso e entende os nossos apenas como um número jamais como cidadãos!
2026, ano de eleição, a comunidade autista precisa aceitar que voto é poder! E jamais esquecer que somos muitos… A cada 26 nascimentos, uma criança nascerá autista, sendo assim ou inclui os nossos… Ou não merecem nossos votos! Ou criam políticas públicas não eleitoreiras, mas voltadas ao desenvolvimento da pessoa autista ou não serão reeleitos!
A cada pessoa autista e a quem caminha ao lado dela, usualmente suas mães, estamos juntos clamando por visibilidade da luta da dignidade da cidadania autista! Para quem não nos silencie, não esqueçam de nossas existências e não sigam excludentes e preconceituosos!
Para Vini Ferraz, meu amor maior; Guto Rorato; os gêmeos Fittipaldi; João Victor Pedrosa e suas mães que não dormem, não cessam suas lutas e vivem o autismo 24 horas com todas as forças de um amor maior que nossas próprias existências… Nós sempre estivemos aqui mesmo quando insistem em não acolher os nossos!
Nossos filhos existem, suas vidas importam e jamais deixaremos de nos levantar em favor da importância de suas vidas!
Respeitem as pessoas autistas e quem fica!
*Orgulhosa mãe de Vinícius Ferraz, cidadão autista, eleitor, o universo todo da mãe dele e o sorriso mais bonito de todos!
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