Por Inácio Feitosa*
Quando assisti, pela primeira vez, aos vídeos de jovens dançando dentro de um canal de esgoto a céu aberto no Recife, a reação foi imediata. Vi, num primeiro momento, um grupo de jovens aparentemente inconsequentes, expostos a águas contaminadas, celebrando em meio à sujeira e ao risco sanitário. A imagem chocava não apenas pelo cenário, mas pela naturalidade com que aqueles corpos ocupavam um espaço que, para a maioria da cidade, deveria ser invisível.
Com o tempo, porém, a cena revelou outra dimensão. Aquilo que parecia apenas irresponsabilidade mostrou-se um fenômeno social que exigia interpretação, e não apenas julgamento. Não se tratava apenas de festa ou excentricidade digital, mas de uma linguagem produzida pela periferia para dizer algo sobre a cidade.
Leia maisA imprensa tratou o episódio ora como curiosidade viral, ora como problema de saúde pública. Nas redes sociais, as reações oscilaram entre o deboche, a condenação moral, a romantização cultural e a leitura política. Essa multiplicidade de olhares revela que o chamado “Ratos Bar” não é um fato trivial; ele expõe tensões profundas da sociedade brasileira.
O nome dado pelos próprios jovens ao espaço – “Ratos Bar” – sintetiza essa tensão. Ao unir o rato, símbolo do abandono urbano, ao bar, espaço de convivência e lazer, a juventude periférica constrói uma metáfora poderosa. Ao nomear o esgoto como bar, ressignifica simbolicamente o lugar que lhe foi imposto pela cidade. Nomear, nesse caso, é um ato político: transformar a precariedade em linguagem.
O aspecto mais perturbador do fenômeno não está apenas no esgoto, mas na sua localização. O canal situa-se nas proximidades de Casa Forte, bairro historicamente associado à elite recifense. Essa proximidade revela uma contradição estrutural: a desigualdade não está apenas nas periferias distantes, mas incrustada no próprio centro simbólico da cidade. O “Ratos Bar” emerge ao lado do privilégio.
Do ponto de vista técnico, o fenômeno evidencia o fracasso das políticas públicas de saneamento e urbanização. Em pleno século XXI, a existência de esgotos a céu aberto próximos a áreas nobres expõe a incapacidade histórica do Estado de garantir direitos básicos. O problema não é apenas de infraestrutura, mas de modelo de cidade.
Do ponto de vista sociológico, o “Ratos Bar” revela a capacidade da juventude periférica de transformar o abandono em performance cultural. O brega-funk surge como linguagem política não institucionalizada. Esses jovens não escrevem manifestos; produzem imagens. Ao dançar no esgoto, tornam visível aquilo que a cidade insiste em ocultar.
Do ponto de vista midiático, a viralização dos vídeos dialoga com a lógica da economia da atenção. A estética do choque produz impacto e engajamento, mas também expõe a desigualdade que sustenta o espetáculo.
Do ponto de vista político, o fenômeno pode ser compreendido como um protesto estético. Não organizado, não formal, mas profundamente revelador. Ao ocupar o esgoto, esses jovens rompem a lógica da segregação espacial e trazem a periferia para o centro simbólico da cidade.
Ao rever minha própria leitura inicial, compreendi que o que parecia loucura era linguagem; o que parecia irresponsabilidade era denúncia; o que parecia espetáculo era crítica urbana. Não se trata de romantizar a miséria, mas de reconhecer que aquela cena carrega uma verdade social incômoda.
O “Ratos Bar” é sintoma e denúncia. Sintoma de uma cidade que naturalizou a desigualdade. Denúncia de um Estado que falhou em garantir dignidade. Ao dançar no esgoto próximo à elite, esses jovens revelam a estética brutal da desigualdade brasileira: luxo e lama coexistindo no mesmo território.
Talvez o que mais incomode não seja a sujeira do esgoto, mas a clareza da mensagem. Esses jovens não estão apenas dançando. Estão dizendo algo sobre a cidade, o Estado e o lugar que lhes foi reservado.
O problema não é o “Ratos Bar”.
O problema é a cidade que o produziu.
*Advogado, escritor e fundador do Instituto IGEDUC
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